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Vida e obra de um homem de bem

Texto de Acácio Gomes

Não chores por mim Venezuela. A vida continua para os que avançam na sua luta do dia-a-dia.

Cândido Correia de Andrade é, sem qualquer dúvida, um dos nomes grandes da nossa terra e de todo o concelho de Santa Maria da Feira. Andou pelos quatro cantos do Mundo mas continuou com um imenso apego à aldeia que o viu nascer, aos seus costumes, às suas tradições e à sua culinária tradicional.

Quando saiu de Portugal, Mosteirô era então uma aldeia característica do interior de um País atrasado, agrícola e com uma economia de subsistência. Quem quisesse mais qualquer coisa, uma vida mais digna, tinha forçosamente de emigrar para terras mais ou menos longínquas.

Ao nascer a 21 de Setembro de 1950, aqueles que escolhiam o caminho da emigração faziam-no sobretudo para o Brasil e a Venezuela. Era filho de Albano Rodrigues de Andrade, do lugar do Monte, e de Maria Adelaide Correia dos Santos, do lugar das Presas. Era neto paterno de Cândido Luís de Andrade, o carteiro de Mosteirô, e de Maria Rodrigues Laranja, e neto materno de Benjamim Correia da Silva, um pedreiro erudito, e de Deolinda dos Santos.

Uma infância despreocupada

Cândido foi morar com os pais para o lugar das Presas na casa dos avós maternos, sem preocupações de maior, brincando na rua, jogando à bola, apenas parando quando ouvia o som de um carro ou de uma motorizada a chegar pela estrada fora. À vezes a bola ia para casa da senhora Caridade ou para o campo da Ti Maria das Presas e lá tinha alguém de pular à procura.

Como conta o colega de infância Augusto Familiar “ele era diferente de nós. Andava sempre mais arranjadinho, já usava sapatos, enquanto nós andávamos todos descalços. E quando nós andávamos todos à bulha uns com os outros, ele não se metia.” Nos tempos da escola, recorda o Augusto, “muitas vezes ele trocava connosco o que trazia para comer, sobretudo sandes de queijo e de marmelada, e nós dávamos-lhe côdeas de broa de milho, que era o que a gente tinha”. “Eu gostava de ir para a casa dos avós dele, no Monte, porque tinha lá uma árvore cheinha de tangerinas que nós apanhávamos e comíamos.”

De qualquer modo, foi uma infância sem grandes preocupações, sempre muito protegido pelos pais, avós e familiares que com ele conviviam. Segundo ele próprio contava, o avô Benjamim tratava-o por Mestre, sempre que o via.

Já na adolescência, e após terminar a escola primária, faria o exame de admissão ao ensino secundário, juntamente com o Augusto, tendo ido frequentar o Colégio Castilho, em S. João da Madeira, no início da década de 1960. Aos sábados e domingos, encontrava-se com os colegas no adro da Igreja. Às vezes, aparecia com uma bicicleta de senhora, pertencente a uma das suas tias, e faziam corridas com a bicicleta para ver quem seria mais rápido. A sua vida continuava sem grandes preocupações, pautada pelas peripécias próprias de uma aldeia de Portugal. Diferentemente de todos os outros, Cândido trajava sempre de forma esmerada e, aos Domingos e dias de festa, envergava fato e gravata, sempre com uma elegância muito pouco comum pelas nossas bandas.

Mosteirô, anos 1960: com a avó Linda, tios e primos

A emigração para a Venezuela

No dia 17 de Agosto de 1967, Cândido Andrade vai-se juntar aos seus pais que viviam em Caracas, na Venezuela. Este grande país da América do Sul era, naquela época, o eldorado que muitos portugueses procuravam, um dos países mais ricos do Mundo, onde os negócios floresciam, havendo trabalho para todos e em que os nossos conterrâneos se sentiam como em casa.

Aí chegado, vai começar por trabalhar como administrativo na companhia aérea de bandeira brasileira, a Varig. Passado algum tempo, deixa a transportadora aérea e ingressa nos quadros das Piscinas Latino-Americanas, empresa formada pelo seu pai, os seus tios Constantino e Domingos e outros sócios da região de Aveiro.

Entretanto, já em terras sul-americanas, Cândido vai casar em Janeiro de 1974, na Igreja da Guadalupe, Urbanização Las Mercedes, em Caracas, com Maria Adília Soares Figueiredo, natural do Lugar do Ferral, da vizinha freguesia de Souto, que viria a falecer em 2010. Deste casamento nasceriam três filhos: José António, Marco Polo e Tomás André.

Um empreendedor exemplar

À medida que a empresa foi crescendo, Cândido Andrade sentiu necessidade de se lançar em novas vertentes do negócio que levariam à expansão da sua actividade. Com a sua tenacidade, iria transformar a empresa num grupo consolidado, através da entrada em novas áreas complementares, em particular no comércio internacional, com importação em larga escala, e com a aposta na substituição de muitos dos produtos importados através do fabrico na Venezuela, diminuindo a sua dependência externa, com empresas em Caracas, Guarenas, Higuerote e na Ilha de Margarita.

E foi assim que surgiriam as novas empresas destinadas a satisfazer a procura de novos equipamentos e serviços e de produtos de manutenção, como foi o caso da Equipiscinas e da Andrade Pools, ambas com sede no Estado de Miranda. A Equipiscinas, seria uma empresa relacionada com a importação, compra e venda de equipamentos, acessórios e manutenção de piscinas, serviço de manutenção de equipamentos e a representação na Venezuela de marcas internacionais.

Com o desenvolvimento do turismo na ilha de Margarita, Cândido irá igualmente lançar mais uma empresa, a Andrade Pools Margarita, C.A., com sede em Porlamar, cujos serviços abarcam a construção, equipamentos, acessórios e serviços para piscinas, empresas e outros negócios em conformidade com o seu pacto social. A expansão dos seus negócios iria levar à construção de empresas igualmente em Guarenas e Higuerote.

Homem de bem e solidário

Sempre homem solidário, apoiou muitos exilados portugueses que chegavam ou já se encontravam em Caracas enquanto durou o Estado Novo em Portugal e que necessitavam de ajuda para viver ou se integrarem na Comunidade. Acudia a todos quantos dele se abeiravam a pedir ajuda, sendo por isso considerado um esteio entre os residentes portugueses na capital da Venezuela.

Cândido Andrade foi um dos principais impulsionadores da Comunidade Portuguesa da Venezuela, dedicando uma parte importante do seu tempo ao seu serviço. Foi Presidente do Centro Português de Caracas e membro da Direcção do Centro Social Luso-Venezuelano (Turumo – Caracas), da Direção do Clube Desportivo Português, da Direcção da Casa do Porto em Caracas e da Comissão “Amigos das Terras de Santa Maria da Feira em Caracas”.

Deu igualmente um valioso contributo para a promoção da cultura portuguesa por terras venezuelanas através da organização de recitais e de actuações de muitos artistas portugueses que convidava com regularidade, como foi o caso de Paulo de Carvalho e de tantos outros.

Essa sua perseverança em prol dos valores portugueses valer-lhe-ia em 1996 a distinção por parte do Governo Português com a Comenda de Mérito pelo trabalho realizado em favor dos emigrantes e dos seus descendentes residentes na Venezuela.

Pela sua contribuição como grande empreendedor para o desenvolvimento da Venezuela, receberia igualmente o título de Comendador por parte do Governo da época daquele grande país sul-americano.

Caracas, Venezuela: Recebendo a Comenda da Ordem de Mérito das mãos do secretário de Estado, José Lello

O regresso a Portugal

Quando Cândido Andrade foi para a Venezuela nos idos de 1960, Portugal era ainda um país atrasado e com um regime retrógrado, enquanto a Venezuela era uma Democracia e um dos países mais ricos do Mundo. Ao regressar a Portugal em 2017, a situação tinha-se invertido, o nosso País já tinha deixado para trás o seu atraso ancestral enquanto a Venezuela enveredava por um caminho de ruína.

Ao deixar a sua segunda Pátria, a Venezuela, em 2017, aos 67 anos de idade, Cândido fê-lo por necessidade premente. Em Caracas foi-lhe diagnosticada uma doença oncológica e os médicos recomendaram vivamente que fosse “de imediato para a Europa”. Acrescentariam ainda que se ficasse na Venezuela seria impossível o seu tratamento, por falta de medicamentos, e o seu tempo de vida seria extremamente curto.

O caos tinha-se instalado naquele país sul-americano, onde tinha trabalhado durante mais de 50 anos, e a ruína tinha levado à escassez de tudo o que assegurava as necessidades mais básicas da população.

Já em Portugal, Cândido daria um apoio valioso à cultura com a oferta de um órgão de qualidade ímpar à Igreja de Mosteirô, bem como à publicação de um livro sobre a sua terra natal que ele sempre tanto estimava e ainda arranjou forças para promover o Gabinete de Apoio ao Emigrante em Terras de Santa Maria da Feira.

Após o regresso, Cândido instalou-se em Mosteirô, na Quinta do Bicho, junto com a sua companheira Olívia Maria de Ferreira que o iria acompanhar e assistir até aos seus derradeiros momentos de vida.

Como testemunha o filho mais velho, José António Correia, “algo que esteve sempre presente em todas as suas iniciativas foi o espírito de apego a Portugal, às suas gentes e às suas tradições”.

Mosteirô, Verão de 2018: Com familiares na Quinta do Bicho

A cerimónia de despedida

A cerimónia e a homenagem de despedida de Cândido Correia de Andrade foi algo naturalmente pesaroso, dadas as circunstâncias em que se desenrolou. O tempo caprichoso, chuvoso e choroso parecia acompanhar a tristeza que se vislumbrava nos rostos de todos quantos fizeram questão de marcar presença no adeus. E foram muitos, ensopados pela chuva que apanharam, entre familiares, amigos e conterrâneos. As máscaras perturbavam o extravasar das emoções de cada um e impediam, por vezes, o seu reconhecimento.

Junto do altar-mor encontrava-se a “guarda de honra” de que faziam parte os seus filhos José António, Tomás André, os seus netos e noras e a companheira senhora Olívia, e no centro a urna com o corpo de Cândido Andrade cujo rosto mostrava a mesma serenidade que sempre lhe foi habitual. No último adeus, os participantes não podiam mostrar o seu rosto mas, certamente, Cândido reconhecê-los-ia a todos.

Cândido Correia de Andrade foi um cidadão do Mundo, um homem bom e um filantropo. Era por todos considerado um homem sério, honesto, vertical, frontal, directo, solidário e amigo. Nunca o ouvi gabar-se do que quer que fosse ou contar façanhas. Na sua vida pessoal e profissional, cultivou relações amistosas durante anos e anos, não só em Portugal, mas também em Espanha, México, Estados Unidos, China, Brasil, Colômbia e, naturalmente, Venezuela.

O último Adeus

Durante a cerimónia de Adeus foi lida a Mensagem do seu filho Marco Polo, um texto sentido, que emocionou todos os presentes.

Entre outras coisas, diz Marco Polo Correia:

“O meu pai, Cândido Andrade, era um homem sério, honesto, vertical, frontal, directo, solidário e amigável. Ele sempre disse: “Entre dois pontos, a coisa mais próxima e mais directa é a linha recta”, que muitas vezes não gostava ou era muito difícil, mas o meu pai era, não aparentava ser.

Cândido Andrade, quem o conhecia bem, sabe perfeitamente que apreciava coisas simples e práticas. Ele venerava a sua terra, Mosteirô, era uma devoção formidável ao seu povo, às suas ruas, aos seus cantos. Algo muito particular deve existir lá, naquela pequena aldeia, algo deve acontecer em cada uma das suas casas, porque certamente deu origem a pessoas muito particulares, muito interessantes, pessoas com aspirações e realizações. É uma aldeia humilde e simples, com pessoas notáveis.

Cândido Andrade não era engenheiro, médico, doutor, advogado, psicólogo, arquitecto, era tudo isso e muito mais, o meu pai era um Senhor, e essa profissão não é aprendida em nenhuma universidade, aprende-se em casa e na vida e custa muito mais do que qualquer outra. Viver de forma consistente, viver de forma clara e transparente, viver de forma coerente entre o que é dito e o que é feito custa muito… E não é para todos.

O meu pai nunca soube o que era umas férias nem esperou pela reforma, trabalhou toda a sua vida, entre os seus mandamentos pessoais, repetindo sempre: “Não se preocupe em trabalhar, preocupa-te em NÃO trabalhar.” Cândido Andrade na sua vida profissional, não só via dinheiro, via amigos e relacionamentos, cultivava essas relações durante anos e anos. Amigos da Espanha, México, Estados Unidos, China, Brasil, Colombia, Venezuela, etc.

Todos tinham grande respeito e admiração por ele, era um homem que transmitia confiança, um homem de palavra e cuja reputação não era traficada por tostões. As suas viagens eram para o trabalho, quando ia para Portugal em Dezembro era só para estar perto da família, o descanso do guerreiro, era um homem de pouco para comer, mas gostava de ver o resto a comer. Adorava Farinha de Pau, Roupa Velha e refeições que o levassem às suas memórias de infância.

Cândido não era um homem de falsa modéstia, repetia, uma e outra vez (porque era insistente e até ser feito da maneira certa não parava) que: “Não sabe quem pensa que sabe, sabe quem acha que precisa de aprender”, espero ter aprendido as linhas básicas de acção, o meu pai era um artesão da perfeição.

Homens como o meu pai, com todo o respeito pelos presentes, são poucos. Para ele:

– “A nossa verdade só foi uma metade, a outra metade nem sempre será alcançada”

– “Quando pensa que cumpriu a sua obrigação, lembre-se que só o fez a meio caminho”

– “Nunca se esforçará o suficiente para cumprir a sua obrigação”

– “Nunca se faz a coisa certa, só o que se pode”

– “Deixe no seu trabalho o que é do seu trabalho. Deixe em casa o que é da sua casa, portanto: os problemas do trabalho, pertencem-me, deixe-os aqui. Os problemas da sua casa, eles não me pertencem, deixe-os lá.

Era assim que Cândido Andrade era.”

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Promover a Via Antiga de Mosteirô

28 anos depois da classificação como “marco histórico-cultural” e como Monumento pelo IGESPAR, é urgente tomar medidas para promover a Via Antiga de Mosteirô, não deixando ao abandono e dignificando um património que é de todos

É urgente a valorização e promoção da Via Antiga de Mosteirô e dos Caminhos de Santiago que por aqui passavam. Trata-se de uma iniciativa que deverá mobilizar a Junta de Freguesia, mas também a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira e o povo da Freguesia que, esse, muitas vezes, não tem noção do valor que representa o troço da Via Antiga de Mosteirô ainda existente no Lugar da Murtosa.

Da última vez que por lá passamos, não há muito tempo, a calçada encontrava-se em estado de deterioração, a terra a cobrir a estrada histórica e as ervas daninhas a invadirem o local. Há 27 anos atrás estivemos lá com uma repórter fotográfica e encontramos duas situações distintas: a Via Antiga de Mosteirô encontrava-se em perfeito estado de conservação, enquanto a Capela da Murtosa estava em estado adiantado de degradação.

Hoje, assistimos ao inverso. Enquanto a estrada real que ligava Mosteirô ao Castelo da Feira se encontra em processo de degradação já a Capela de Nossa Senhora do Carmo sofreu melhoramentos consideráveis que a recuperaram da destruição e a embelezaram.

É óbvio que não se pode deixar destruir um Património Histórico, de um valor inestimável, pois ninguém pensa que os romanos voltem a Mosteirô para construir a calçada ou que o Marquês de Pombal se lembre de a reconstruir e reparar, como foi o caso no século XVIII. Mas é possível dar de novo brilho a uma estrada secular.

Murtosa - antiga estrada para o Porto medieval

Os alertas para a situação

Para além do Decreto publicado em Diário da República no dia 1 de Junho de 1992, dez anos depois as autoridades foram informadas e alertadas para a urgência de preservar um património histórico e um bem comum.

Tal foi o caso de Horácio de Sá que nos diz que em Julho de 2002 apresentou “em Reunião de Câmara um documento no qual solicitava a limpeza e restauro da via, a sua sinalização contendo a descrição Histórica daquela via protegida. Não sei se tal aconteceu, bem como a sensibilização dos moradores daquele troço para a sua não deterioração, se tal não foi realizado, urge fazer algo para que esta via do Século XVIII possa merecer a classificação que lhe foi atribuída.”

E nove anos mais tarde, em 30 de Junho de 2011, a Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira deliberou uma recomendação em que alertava para a defesa do património da Via Antiga de Mosteirô.

Todos sabemos que o dinheiro não abunda e que muitas vezes as prioridades são outras. Mas a importância do património às vezes poderá não necessitar de grandes verbas na sua preservação, dependendo da boa vontade da junta e do Município em colaboração com o povo da Murtosa, um dos lugares mais emblemáticos da nossa Freguesia.

O tempo foi passando e a deterioração continua

As fotos publicadas em 1993 mostravam que a Via Antiga tinha resistido a séculos, a intempéries, suportou o peso dos carros de bois que por ali passavam carregados de pedra que vinha das pedreiras, e encontrava-se em excelentes condições. Quer dizer, resistiu mais em 3 séculos do que em 3 décadas.

Não são precisas obras de recuperação monumentais, a menos que se queira destruir. É preciso manutenção, limpeza e informação do povo, de modo a fazer compreender que o nosso património comum não deve ser destruído nem maltratado, como às vezes vemos por esse País fora.

Mas é urgente que a Junta de freguesia (de Souto e Mosteirô) e a Câmara Municipal se ponham de acordo para defender e promover um património que é de todos. Não é preciso muito, pelo menos, que se mande lá os cantoneiros limpar aquele troço com regularidade e se coloquem placas de identificação e de informação com um descritivo mínimo sobre a obra que ali se encontra.

KODAK Digital Still Camera

Tanto quanto sabemos, o pelouro do património da Câmara Municipal tem vindo a desenvolver um trabalho meritório de catalogar e identificar os troços dos Caminhos de Santiago existentes no concelho. Acontece que a Via Antiga de Mosteirô fazia parte de um dos Caminhos de Santiago, tal como a nossa Igreja Matriz que possui um dos maiores conjuntos de “Conchas de Santiago”.

Há uns 10 meses atrás o próprio Presidente da Junta dizia-nos que estava a ser estudada a forma de promover a pertença das terras de Mosteirô aos Templários e à Ordem de Cristo, através da identificação do Marco que se encontra frente à Igreja e da sua promoção com destaque e informação, como se faz aliás noutras freguesias onde ainda existem marcos da Ordem dos Templários.

Uma estrada de trabalho

Durante os séculos XIX e XX esta foi a estrada dos que trabalhavam nas fábricas de calçado, de chapéus, de vestuário e as bem conhecidas Molaflex, Oliva, Empresa, as quais empregavam centenas de  trabalhadores não só de Mosteirô mas de toda a região.

A partir das seis horas da manhã começava a “procissão” de gente a caminho do trabalho. Iam a pé ou de bicicleta, calcorreando aquelas pedras pela colina acima, passavam a Pedreira da Etiópia e o Aguincheiro e lá chegavam ao alto de Casaldelo e de Santo Estêvão. E depois seria aquela descida imensa até à Estação de caminhos de ferro da Linha do Vale Vouga, em S. João da Madeira. Aí era um descanso para as pernas e para as costas. À tarde, depois de as sirenes apitarem para o final do trabalho, lá seguiriam em percurso inverso por aquela estrada acima, que parecia que nunca mais acabava, até ao Alto de Santo Estêvão.

De manhã, muitos levavam a lancheira com o almoço que depois aqueceriam no próprio local de trabalho ou iam a uma tasca da zona onde pediam para aquecer e bebiam um copo ou dois. Outros iriam esperar que as mulheres lhes levassem à cabeça uma cesta com comida ainda quente, com os tachos embrulhados em jornais que mantinham a temperatura da refeição.

Vinham dos lugares das Presas, de Proselha, do Calvário, do Fundo de Mosteirô, do Monte, da Pedra e de outras paragens, embora os de Agoncida seguissem pela estrada nacional até à garagem do senhor Gil e depois iriam por aí acima juntar-se aos outros que tinham seguido pela estrada da Murtosa, a Via Antiga de Mosteirô.

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Uma estrada de peregrinos e cavaleiros

A Via Antiga de Mosteirô é uma estrada secular, carregada de História, que ligava o Castelo da Vila da Feira a Mosteirô e daí continuava para Santo Estêvão, Casaldelo, Couto de Cucujães, Santiago de Riba Ul, Ossas e Carregosa, seguindo para as terras do Vouga. Na direcção de S. João da Madeira juntava-se no lugar do Aguincheiro ao caminho que vinha do alto de Agoncida.

A feira do Castelo tornou-se famosa em toda a Idade Média e ali acorriam numerosos mercadores e gente do povo e, durante séculos, a Via Antiga de Mosteirô era o trajecto natural por onde passavam populares com origem nessas terras distantes, mas também militares e cavaleiros oriundos de outras paragens ainda mais longínquas e os peregrinos que se dirigiam ao castelo para depois prosseguirem o seu Caminho de Santiago.

Os peregrinos que por ali passavam tinham 3 lugares onde se podiam recolher e meditar, começando pelas alminhas frente à capela da casa de Sousa Brandão, passando na Capela de Nossa Senhora do Carmo e depois na Igreja Matriz de Mosteirô.

As Alminhas da Murtosa, situadas na Calçada medieval, que datam do final do século XIX, são certamente as mais representativas dessa arte religiosa católica, muito característica do Norte do País e da religiosidade das gentes desta terra. Existe uma inscrição no interior destas Alminhas que relembra aos peregrinos o dever para com as almas do Purgatório: Ó VÓS QUE IDES PASSANDO, LEMBRAI-VOS DE NÓS QUE ESTAMOS PENANDO.

Além de peregrinos, havia igualmente os soldados e cavaleiros. Não é por acaso que durante o século XVII, XVIII e XIX vamos encontrar um grande número de militares de alta patente, aquartelados na Vila da Feira ou participando em acções de combate por esse País fora, que escolheram o Lugar da Murtosa como seu local de residência. Tanto mais, que dali até ao castelo, uma ida a cavalo se tornava num mero passeio.

Assim, foram muitos ao longo de séculos, para além do Capitão Carlos Correia de Sousa, o senhor da Casa da Murtosa, que em documento emitido por D. João III (1455 – 1495) lhe é concedido o Brasão de Armas dos Correias, que ainda se pode ver no cimo da capela da Quinta Sousa Brandão, e referido como “Capitão de auxiliares da Vila da Feira, assistente e morador na sua Quinta da Murtosa do Termo da Vila da Feira, Terra de Santa Maria, o Brasão de armas dos Correias, por ser descendente de geração de linhagem dos Correias que destes reinos são fidalgos de linhagem e cota de armas e que de direito as ditas armas lhe pertencem”.

Mais tarde, durante o século seguinte vamos encontrar o Capitão Manuel Gomes, da Casa dos Coelhos, actual Casa do Ratão, construída em 1677, e o seu cunhado o Capitão Manuel da Silva Grilo. No virar do século, encontramos muitos outros militares de alta patente, todos a viver no Lugar da Murtosa, como o Alferes Estêvão Gomes Correia, descendente, do Capitão Carlos Correia de Sousa, e o Capitão Manuel Marques Ferreira, de Fornos que veio casar a Mosteirô e se tornou num dos donos da Capela da Murtosa.

Até à morte do Major Salvador de Carvalho Assis, da Casa do Ratão, em 1867, na praia do Furadouro, vamos encontrar um rol de militares de alta patente todos moradores no Lugar da Murtosa, tanto da Casa dos Coelhos como da Casa Sousa Brandão.

Naturalmente, a figura mais importante de todas estas será sem dúvida a do próprio General Sousa Brandão, cujo nome se inscreve na Calçada, logo no início que ainda mantém a traça antiga, frente à Capela da Murtosa.

IGESPAR classifica como um marco histórico-cultural

Na década de 1990, o IGESPAR (Instituto de Gestão do Património) fez um levantamento de alguns troços da Via Antiga de Mosteirô e considerou que:

“A Via Antiga de Mosteirô constituía o itinerário principal para uma série de actividades industriais da zona, ao longo do tempo. Por esta estada passavam os carreteiros que abasteciam a cidade do Porto com a pedra das pedreiras da região, e se faziam os transporte necessários à importante actividade das fábricas de papel do Concelho de Santa Maria da Feira. O troço classificado, com c. 300 m de comprimento por 3 metros de largura média, é composto por blocos calcários, de dimensões variadas e configuração irregular, incluindo alguns metros alcatroados. Da via fazia parte uma ponte no lugar das Carregueiras, estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira. Embora a sua cronologia não seja identificável com rigor, a maior parte do troço visível será obra lançada no século XVIII, sobre uma estrada antiga, possivelmente de origem romana. Por aqui terão passado, inclusivamente, as pedras que serviram para a construção de monumentos como a Sé do Porto, vindas das pedreiras de Mosteirô.”

Ponte romana

Em 1 de Junho de 1992 foi publicado em Diário da República o Decreto que visa preservar a Via Antiga de Mosteirô como património público, fazendo parte de um pacote legislativo mandado publicar pelo então Presidente da República, Mário Soares. (Decreto nº 26-A/92, DR, 1ª Série-B, nº 126, de 01 junho 1992)

O Relatório do Igespar considera tratar-se de uma “Via pública estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira, com pavimento em blocos calcários. Foi durante longo tempo, o circuito principal para o transporte de materiais diversos e necessários às actividades que se desenvolviam no concelho (Fábrica de papel, carreteiros que abasteciam a cidade do Porto com as pedras das pedreiras da região). Passa defronte da casa antiga de São Jorge (v. PT010109270010) e da Casa da Murtosa e por entre casario e algumas parcelas de campo. Fazia parte da via uma ponte no lugar das Carregueiras, estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira.”

Quanto à sua utilização, diz o Igespar que a Utilização Actual deve ser considerada de carácter “Cultural e recreativa: marco histórico-cultural”. E quanto à cronologia considera que é do “Século 18 – período provável da construção da via sobre uma estrada antiga, provavelmente de origem romana; no século 20 – parte do percurso foi alcatroado.”

Recuperar e Promover um marco histórico-cultural

É fundamental que as autoridades coloquem de lado quaisquer disputas partidárias quando se trata de um património de um valor inestimável que não abunda. Fundamentalmente são necessárias cinco acções que se completam e se complementam, a saber:

  1. Recuperação e manutenção que passa pela limpeza regular do troço que se encontra praticamente intacto, promovendo acessos em pedra às casas e não em cimento ou em relva;
  2. Informação pedagógica à população e em particular ao povo do lugar sobre a importância histórica e patrimonial da Via Antiga e dos Caminhos de Santiago e da sua preservação;
  3. Sinalética adequada junto à Igreja indicando a direcção e no próprio local com informação sobre o troço e a sua importância e descrição histórica da via protegida;
  4. Apoio a iniciativas como as que já têm sido levadas a cabo na Freguesia de passeios a pé com informação sobre as calçadas de Mosteirô, as pedreiras, a estrada romana que por ali passava e o seu itinerário;
  5. Divulgação através dos órgãos de comunicação regional e nacional.

Estamos disponíveis para ajudar no que estiver ao nosso alcance.

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Destaque

O caso da morte de Bárbara

1942: o senhor Silva, o Regedor de Mosteirô, foi chamado de urgência a casa da Mãe Velha para verificar a ocorrência e tomar as medidas necessárias naquelas circunstâncias

Oh Ti Maria Joana, um dia venho aqui deitar-me ao seu poço! – costumava dizer Bárbara, sempre que passava junto à casa da Mãe Velha, Maria Joana Pereira dos Santos, no Lugar de Agoncida.

– Não sejas maluca, rapariga! Vai deitar-te ao poço do Clemente. – Costumava ser a resposta da Ti Maria Joana.

Bárbara morava no sítio do Jardim numa casa ao fundo do caminho que descia desde a casa da Vassoureira até à casa do Ti Isaac e perto do caminho à esquerda que seguia para o alto da Pedreira de Agoncida, junto às terras do Valente.

Quando escolhia seguir por este último caminho, também costumava interpelar o Ti Anselmo do Bento, quando passava frente à sua casa:

– Oh Ti Anselmo, um dia venho aqui deitar-me às pedreiras!
– Deixa-te de manias, rapariga! – Respondia-lhe este.

Era uma obsessão que perseguia Bárbara. Desde a escola primária mista de Mosteirô, que frequentou na década de 1910 até à terceira classe, que ela sempre falava em desafiar as leis da gravidade, embora ninguém a levasse muito a sério.

Esta ideia fixa, tornou-se numa perturbação que a assaltava de vez em quando e que a perseguiu até ao fim da vida. A obsessão de Bárbara seria de carácter patológico e era baseada num sentimento de ser coagida a fazer uma coisa a qual, nos seus momentos de lucidez, poderia considerar que não fazia sentido.

Era uma perturbação do domínio da psiquiatria a qual, naqueles tempos, em termos populares, se achava tratar-se de “uma maluquice”. Houve uma dada altura em que os familiares consideraram a hipótese de “a levar à bruxa”, coisa que lhe aumentou ainda mais o pensamento e o ímpeto impulsivo de se atirar de um sítio alto, pensamento que a perseguia e “não lhe saía da cabeça”, segundo contavam os seus familiares mais próximos.

O fatídico 9 de Fevereiro de 1942

Para ir de sua casa até ao Rio do Bicho, onde as mulheres costumavam ir lavar a roupa, o caminho mais rápido era passar pelas terras da Mãe Velha, e que ia desde o mato junto à sua casa, no Sítio do Jardim, até ao caminho da Quinta do Bicho e à Estrada Nacional de Ovar. Quando seguia esse trajecto, Bárbara passava por detrás da Casa da Eira e continuava o caminho que passava forçosamente frente à casa da Ti Maria Joana e ao respectivo poço.

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Casa da Eira da Mãe Velha: o caminho percorrido por Bárbara passava por trás

Trata-se de um poço alto, de uns 15 metros, que no Inverno tem água até dois metros do topo. No Verão, a água desce substancialmente. O poço, construído em pedra de baixo até cima, é abastecido por uma mina com mais de cem metros de comprimento, a qual se prolonga pelas terras da família Andrade e Silva.

Frente à cozinha da Mãe Velha, existe um degrau e uma laje de cerca de um metro de altura, com uma roldana onde se encontra encaixada a corda que permite puxar o balde de água.

Apesar da frequência com que Bárbara abordava o assunto de se lançar a um poço ou do alto da pedreira de Agoncida, já ninguém acreditava realmente que um dia ela tentasse concretizar a sua obsessão.

Infelizmente, no dia 9 de Fevereiro de 1942, aos 41 anos de idade, num momento em que não havia ninguém na casa da Mãe Velha, o impulso para se atirar ao poço levou a melhor e Bárbara consumaria o seu propósito antigo, morrendo afogada num poço que, naquela altura do ano, se encontrava quase cheio.

Ninguém a tinha visto passar e não se sabe quanto tempo passou desde o momento em que ela se terá lançado à água. Só mais tarde, ao anoitecer, uma neta da Ti Maria Joana, quando teve necessidade de ir buscar água ao poço, ficou estarrecida ao ver um corpo a boiar.

Os gritos da neta da Mãe Velha alertaram de imediato toda a vizinhança, até que se começou a concentrar muita gente e uma das pessoas foi a correr chamar a irmã de Bárbara, a Virgínia, para saber o que se podia fazer.

Antes da chegada da Virgínia já um dos rapazes ali presentes foi mandado a casa do senhor Silva, o Regedor de Mosteirô, para vir rapidamente registar a ocorrência e tomar as medidas aconselhadas para tal situação, tanto mais que não se podia mexer no corpo enquanto não chegasse uma autoridade com poderes para tal. Desde meados do século XIX que tal autoridade pertencia ao Regedor da freguesia, nomeado pela administração concelhia.

Com o correr dos minutos começaram a concentrar-se cada vez mais pessoas, muitos curiosos que aparecem sempre nestas circunstâncias, cada qual dando a sua sentença, especulando sobre os motivos.

Eu já tinha avisado mais de uma vez a irmã – disse alguém ao lado da Mariana da Loiça. O que expressava naquele momento o que quase todos pensavam.

A Mãe Velha, que se encontrava naquela altura a pouca distância em casa da filha Palmira, apesar da sua provecta idade, também chegou ao local nesse momento e todos lhe perguntavam o que se devia fazer, uma vez que o poço era dela.

– Vai chamar os rapazes da Barbuda! – disse a Ti Maria Joana para um dos rapazitos ali presentes.

Passado pouco tempo, chegou o Regedor da freguesia o qual, com a ajuda de vários homens que se tinham juntado entretanto, lançou uma corda com um laço largo comque, ao fim de alguns minutos, conseguiram fazer passar pelo corpo de Bárbara e içá-lo com a ajudada da roldana para a beira do poço.

O mulherio começou aos gritos, outras mulheres a rezar uma ladainha, fazendo com que o Regedor tivesse de mandar calar toda a gente. Entretanto, procedeu a uma inspecção rápida do corpo para ver se haveria algum sinal de violência e decidiu tomar outras medidas que incluíam o envio de um dos homens de bicicleta à Vila da Feira para chamar a Guarda e outro para ir chamar o padre da freguesia.

O estigma do nome Bárbara

Com a chegada da GNR algum tempo depois, os ânimos acalmaram-se, tendo os guardas interrogado algumas das testemunhas para saber se se trataria de um assassínio ou de um suicídio. A maioria dos presentes contaria às autoridades que havia muitos anos que Bárbara se encontrava perturbada, ameaçando lançar-se aos poços do lugar ou a tentar voar do alto das pedreiras junto às terras do Valente.

Entretanto, e depois de os guardas terem concluído que se trataria de um suicídio, o padre teve oportunidade de dar sequência aos actos litúrgicos propriamente ditos, e o corpo de Bárbara seria levado numa padiola para a casa da família no Sítio do Jardim.

O funeral realizou-se no dia seguinte e, para além dos familiares, contou com a presença de muita gente da freguesia e de numerosos curiosos vindos das freguesias vizinhas, o que sempre acontece nestes momentos.

Filha de pai pedreiro e de mãe jornaleira, Bárbara tinha nascido no Lugar de Agoncida no dia 5 de Julho do ano de 1900 e seria baptizada no dia 8 do mesmo mês pelo padre Manuel Martins da Silva. Teve como padrinho Manuel José da Costa Laranjeira e como madrinha a sua irmã mais velha Maria Rosa Pereira.

Os seus pais tinham casado na Igreja de Mosteirô no dia 11 de Janeiro de 1888, tendo a irmã mais velha de Bárbara nascido no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1889. Até ao nascimento de Bárbara, onze anos depois, ainda iriam nascer mais filhos do casal.

O horror deste caso abalou fortemente toda a freguesia e seria comentado durante muitos anos. A partir daquele fatídico dia 9 de Fevereiro de 1942, o nome de Bárbara tornar-se-ia proscrito em Mosteirô e, durante décadas, ninguém mais o colocaria a uma das suas filhas, lembrando sempre a vida atribulada e a trágica morte de Bárbara da Costa Pereira.

O local onde Bárbara se afogou
Parte do percurso seguido normalmente por Bárbara entre a sua casa e o Rio do Bicho

Destaque

A Tragédia de 1873 em Mosteirô

10% da população da freguesia morre entre 1872 e 1874, vítima de um vírus que matou milhares de pessoas de Norte a Sul do País

Foi um ano terrível aquele que atingiu a população de Mosteirô em 1873, com a morte generalizada de crianças e das pessoas mais vulneráveis. Os registos não especificam a causa das mortes, mas terá sido um surto de varíola, tifo e disenteria que se abateu sobre a população do Norte do País, começando em Braga, passando por Campanhã e descendo por aí abaixo.

Os mais atingidos foram mais uma vez os mais fracos, as crianças e os idosos. O surto teve o seu início em 1872, ano em que começam a aparecer vários casos, com a morte de 14 pessoas, das quais sete eram crianças, em contraste com o ano anterior de 1871 em que tinham morrido somente 4 pessoas e apenas uma criança em Mosteirô.

O ano de 1873 é dramático, com 29 mortes, das quais 19 eram menores. Nesse ano, o saldo populacional é negativo, com 14 nascimentos e 29 mortes, que corresponderam a 5 por cento da população total daquela época que ultrapassaria as 600 pessoas.

A epidemia atingiu a incidência máxima em apenas 3 meses, entre Setembro e Novembro de 1873, período em que morreram no total 16 menores, a esmagadora maioria com idades inferiores a quatro anos, quase metade dos quais com apenas alguns meses.

Em 1874 a crise abrandou e teve maior impacto entre Fevereiro e Maio, mas no conjunto dos três anos, entre 1872 e 1874, pereceram 61 pessoas, das quais 36 menores, devido essencialmente à epidemia que atingiu a freguesia. Muitas dessas crianças eram recém-nascidos, mas havia igualmente outros já mais crescidos. Era o equivalente a 10% da população.

Comparativamente, a crise de 1873 foi muito mais mortífera do que a de 1815, a qual se tinha produzido em consequência das condições de vida resultantes das Invasões francesas. Com efeito, no período entre 1809 e 1818, em 10 anos pereceram 33 crianças em Mosteirô enquanto num período significativamente inferior, de 1872 a 1874, em menos de 3 anos morreram 36 menores na nossa terra.

O Lugar do Monte foi o que mais sofreu

Nesse ano, o Lugar do Monte foi o mais atingido pela onda de mortes, uma vez que das 29 pessoas falecidas 11 eram deste lugar, seguindo-se o lugar de Mosteirô com 5 óbitos, Agoncida com 4 e Proselha com 3 falecimentos.

Nos três anos em que crise se manifestou, uma grande parte das famílias tiveram a sua parte de sofrimento, com o falecimento prematuro dos seus filhos mas também dos pais e avós. No ano de 1873, tal foi o caso das famílias Silva, com 5 falecimentos, Pereira, Ferreira e Oliveira, mas, no conjunto dos três anos da epidemia, quase todas as famílias seriam atingidas, tanto mais que houve 61 óbitos para uma população que não chegaria aos 610 indivíduos, uma vez que apenas no ano de 1878 Mosteirô atingiria 611 habitantes, de acordo com as estatísticas.

No que diz respeito aos lugares, no ano de 1872 e no ano de 1874 aparece o lugar de Mosteirô em primeiro lugar com 12 falecimentos, seguido do lugar do Monte com 7 e o de Agoncida com 4 óbitos, nem todos relacionados com a crise epidémica que atingiu a freguesia.

Mas, no conjunto dos três anos, o lugar do Monte sofreria uma perda de 18 pessoas, Mosteirô 17 e Agoncida 8. O quadro seguinte mostra os nomes, as famílias e os lugares, relativamente a 1873.

O trágico ano de 1873

A família de Maria Pereira Angelina

Uma das famílias que mais sofreu neste período seria a de Maria Pereira Angelina que iria assistir à morte de quatro familiares no espaço de somente dois anos. Com efeito, conta o padre Manuel Gomes Alberto:

“Aos 13 dias do mês de Agosto de 1872, no Sítio da Saibreira de S. Vicente Pereira, comarca de Ovar, pelas quatro horas da madrugada, morreu desastrosamente, andando a tirar saibro, António José Dias, de idade de 28 anos, lavrador, casado com Maria Pereira Angelina, natural e habitando nesta freguesia, morador no Lugar de Mosteirô, filho legítimo de António José Dias e de Margarida Rosa de Oliveira, deixou filhos e foi sepultado no cemitério público desta freguesia”.

Como uma desgraça nunca vem só, a epidemia do ano seguinte iria atingir em cheio a família de Maria Pereira Angelina, com a morte prematura de duas filhas, Maria de 15 meses e Mariana e 4 anos, que iriam perecer no auge da crise, com um intervalo de apenas 6 dias, respetivamente no dia 10 de Outubro de 1873 e no dia 16 de Outubro do mesmo ano. Não é difícil imaginar os dramas que se viveram nas famílias de Mosteirô com os efeitos desta terrível crise. Aquelas que não sofreram directamente, estavam sempre à espera que a morte lhes batesse à porta para levar um dos seus filhos mais pequenos.

Como se mão bastasse, no ano seguinte seria a vez de a mãe de António José Dias, sogra de Maria Pereira Angelina, de também conhecer o mesmo destino, embora já com uma idade mais avançada. Natural de Milheirós de Poiares, Margarida Rosa de Oliveira, viúva de António José Dias (pai), viria a falecer a 3 de Fevereiro de 1874, menos de quatro meses depois das suas netas, possivelmente vítima das mesmas causas, a epidemia que grassava em toda freguesia.

Maria Pereira Angelina pertencia a uma das famílias mais conhecidas do Lugar de Agoncida, os Coelho Pereira, com ramificações várias que chegam até aos nossos dias. Casou aos 28 anos de idade com António José Dias, de 24 anos, no dia 19 de Janeiro de 1868 na Igreja Paroquial de Mosteirô, na presença de Agostinho Dias de Resende e de António Francisco, como testemunhas.

Era filha de Joaquim Coelho Pereira e de Ana Maria Angelina, lavradores do lugar de Agoncida. O drama perseguia esta família, porquanto já lhe tinha batido à porta aquando do assassinato da filha de Ana Maria da Silva a 27 de Fevereiro de 1857, pelo irmão mais novo de Maria Pereira Angelina, António Coelho, no caso do “Abominável crime da Agoncida”.

1868 - 22 - Casamento António Dias e Maria Pereira Angelina 2

Ir a banhos ao Furadouro e morrer

Apesar de o surto epidémico ser transversal a toda a população, nem todos os atingidos pereceram de forma directa devido ao tifo, à varíola ou à disenteria. Os registos da época raramente se referem às circunstâncias das mortes, caso que só aparece mais desenvolvido nas situações de mortes provocadas por acidentes, facto que acontecia com frequência, ou de mortes violentas provocadas pela guerra ou por qualquer disputa pessoal, como foi o caso, cinco anos antes, da emboscada junto à Ponte dos Três Arcos.

No início da crise, no final de Agosto de 1873, morre o primeiro menino de três anos, António, filho de Manuel Rodrigues Nogueira e de Maria Josefa de Almeida, do Lugar das Presas, possivelmente como consequência da epidemia que iria devastar a freguesia.

Já no final desse mês, a 28 de Agosto, existe uma morte da qual não se conhecem as causas mas conhecem-se as circunstâncias. Trata-se do falecimento do irmão do general Francisco Maria de Sousa Brandão. O caso não aconteceu em Mosteirô, mas ocorreu numa praia, conforme relata o padre Manuel Gomes Alberto: “Aos 28 dias do mês de Agosto de 1873, num palheiro da Costa do Furadouro, da freguesia e concelho de Ovar, diocese do Porto, faleceu sem sacramentos um indivíduo do sexo masculino, por nome José Maria de Sousa Brandão, de idade 67 anos, solteiro, proprietário, natural e paroquiano desta freguesia de Santo André de Mosteirô, concelho da Feira, diocese do Porto, filho legítimo de Manuel Ferreira de Sousa Brandão, proprietário, natural do Lugar da Murtosa desta freguesia, e de D. Maria José Custódio de Sousa Campelo, natural de Carregosa, Oliveira de Azeméis, diocese de Aveiro, sem testamento e não deixou filhos.”

Não sabe o que andava José Maria a fazer nos palheiros do Furadouro mas, naqueles tempos, era costume as gentes mais abastadas de toda região, especialmente da Vila da Feira, de S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Ovar, mas também de Vale de Cambra e de outras paragens, irem a banhos para a praia do Furadouro, durante os meses mais quentes de Verão. Por vezes acontecia um acidente mortal, como tinha sido o caso do Major de Cavalaria Salvador de Carvalho Assis, de idade de 72 anos, igualmente do Lugar da Murtosa, e filho do herdeiro da Murtosa.

Na maioria dos casos, o registo de óbito não menciona as circunstâncias nem as causas que estiveram na origem do falecimento. Por vezes, lá aparece um caso mais desenvolvido, como no de Ana Maria Bento que faleceu sem sacramentos no dia 4 de Agosto de 1874, com a idade de 37 anos, solteira, jornaleira, “mas há mais de cinco anos que vivia entrevada, de cama e doida, natural desta freguesia, filha legítima de Joaquim José Bento, mineiro, e de Ana Maria, naturais desta freguesia”, segundo descreve o novo “Pároco Encomendado António Francisco da Silva”. Neste caso também não se sabe se a morte teve a ver com o surto epidémico.

1873 - 19 - José Maria Sousa Brandão 11873 - 19 - José Maria Sousa Brandão 2

As condições sanitárias, a alimentação deficiente e a subnutrição

Não foi só em Mosteirô que a crise provocou tantas vítimas. Na segunda metade dos anos de 1800 a 1900, as crises epidémicas violentas marcaram as populações, com predominância da cólera, febre-amarela (geograficamente limitada), varíola e influenza.

Na década de 1870, ocorreram, um pouco por todo o País, epidemias de tifo exantemático, varíola e disenteria. Por exemplo, em Campanhã foram assinaladas crises médias de 1873, 1876 e 1879. A distribuição mensal dos óbitos nestes anos anormais revelou um pico estivo-outonal, a incidir predominantemente em Agosto, devido ao número máximo de falecimentos de menores.

Em 1872-1873, a cidade e o termo de Braga, foram também tocados por um dos maiores surtos de varíola. Sofreram esta crise de carácter puramente epidémico cerca de 69.6% das freguesias, incluindo todas as freguesias da urbe, para as quais havia informação, computando-se duas crises maiores e doze fortes. Em 1873, já a perder de intensidade, a erupção fez vítimas nalgumas freguesias do termo de Braga. A distribuição mensal dos óbitos acusou o zénite em torno de Setembro, parecendo sacrificar principalmente os estratos mais jovens da população.

A crise de 1873 em Mosteirô seguiu o padrão encontrado em Braga, com o pico a ter início em finais de Agosto e a durar até Dezembro. E, tal como em Braga, seriam os mais jovens e as pessoas mais vulneráveis a pagar o preço das péssimas condições em que vivia a população das cidades, vilas e aldeias do País, nomeadamente a ausência de condições sanitárias, a contaminação dos poços de abastecimento de água, a alimentação muito deficiente baseada em couves e batatas e a subnutrição da generalidade das crianças.

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Destaque

A saga do Herdeiro da Murtosa

O estranho percurso de uma família do lugar da Murtosa que durou desde o século XVI até ao século XX, mas que foi desaparecendo dos radares de Mosteirô na segunda metade do século XIX

Esta é a história de uma das famílias mais antigas e das mais importantes de Mosteirô, que aparece no século XVI e se esfuma no século XX. Apesar das suas raízes antigas, ao longo de todo o século XIX, foram abandonando a freguesia, as suas casas, as suas terras, deixando-as aos cuidados dos seus caseiros. Foram-se espalhando por toda região, instalaram-se em Lisboa ou foram viver para o Brasil e, provavelmente, para outros destinos remotos. É ainda na segunda metade do século XIX, que vamos encontrar nos registos da paróquia de Mosteirô possivelmente dois dos últimos descendentes ainda residentes na freguesia, aquando da morte em 1867 no Furadouro de Salvador de Carvalho Assis e em 1869 do atentado contra o irmão António Maria de Carvalho Assis.

O pai de ambos, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, tinha-se tornado o herdeiro de vastas propriedades e de bens e ainda da Capela da Murtosa, após a morte do seu pai Salvador Gomes de Carvalho. Tais propriedades estendiam-se desde o Aguincheiro, descendo pelas Presas, pela Murtosa e Proselha até Fornos, correspondendo à herança dos bens dos Gomes da Murtosa, da Casa do Ratão, como é conhecida nos dias de hoje, ou da Casa dos Coelhos, como era conhecida nos séculos XVII e XVIII.

Apesar de Manuel José ter tido doze filhos, nenhum permaneceria na freguesia após o trágico falecimento do filho Salvador, major de Cavalaria, na praia do Furadouro, e do filho António Maria no atentado junto à Ponte dos Três Arcos. Pelo que é possível apurar, o próprio Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho deixa de aparecer nos registos paroquiais, anos antes do falecimento em 1838 da mulher Maria Ignácia de Sá Varela, natural de Arrifana, mas sepultada na Igreja de Mosteirô. É possível que o herdeiro da Murtosa tenha falecido entre 1814 e 1816, uma vez que em Fevereiro de 1817 a sua mulher, Maria Ignácia Varela, já aparece como viúva no registo de nascimento de um irmão do General Sousa Brandão.

Toda a fortuna que Manuel José herdou veio através de sucessivas heranças do seu próprio pai, por uma série de circunstâncias. O seu pai, natural de Milheirós de Poiares, viria a casar na Murtosa com a neta do Capitão Manuel da Silva Grilo, originário da Maia, e de Isabel Gomes, cuja família remonta ao século XVI, sendo os seus antepassados naturais e moradores em Mosteirô.

Tratava-se de uma família de agricultores abastados da época que fizeram questão de enviar para o seminário um filho, o padre Domingos Gomes, e outro para militar, o capitão Manuel Gomes, e de casar a filha Isabel com um capitão do Exército, aquartelado na Vila da Feira, o capitão Manuel da Silva Grilo.

Os testamentos em favor de Salvador de Carvalho, o Senhor da Murtosa, vão-se sucedendo ao longo do século XVIII, como seria o caso dos de Nicolau Gomes, Maria Gomes, Susana Gomes, Bartolomeu Gomes e de sua própria mulher Florência.

1752-114 Manuel José Leite de Carvalho Coelho - filho de Salvador

O nascimento do herdeiro da Murtosa

Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho nasceu a 5 de Janeiro de 1752, filho de Salvador de Carvalho e de Florência Maria da Silva Reis, do Lugar da Murtosa, e neto pela parte paterna de António Leite Gomes e de Sebastiana de Pinho, do lugar das Presas, freguesia de Milheirós de Poiares, e pela parte materna do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira e de Josefa Teresa de Jesus e Silva Reis, do Lugar da Póvoa, freguesia de S. Salvador de Carregosa, os pais do Professo da Ordem de Cristo Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, cuja pedra tumular se encontra na sacristia da Igreja de Mosteirô.

Com pompa e circunstância, o seu baptismo ocorreria a 12 de Janeiro, segundo conta o padre Bento Gomes Brandão, cura da freguesia de Mosteirô. Teria como padrinhos altas individualidades da época, tendo sido chamado o padre pregador Frei André dos Reis, da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da Capela da Murtosa, e Dona Maria Bernarda da Silva Reis, mulher do Capitão Manuel Marques Ferreira, e tia-avó do recém-nascido e moradora na Casa dos Coelhos, em frente à capela.

Teve ainda como testemunhas gente importante da freguesia, em particular o Capitão Manuel Marques Ferreira e o conhecido padre Joaquim José Henriques que iria seis anos mais tarde escrever as Memórias Paroquiais da nossa freguesia, em 1758.

A morte dos pais de Manuel José

A morte prematura da sua mãe, Florência, dois anos depois do seu nascimento, ainda muito jovem, irá deixar um vazio doloroso que faz com que Manuel José venha a ser criado fundamentalmente pelas suas tias maternas e pelas escravas da casa.

Conta o padre Joaquim José Henriques que: “Aos 27 dias do mês de Outubro de mil setecentos e cinquenta e quatro anos faleceu da vida presente Florência Maria da Silva Reis, mulher de Salvador de Carvalho, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô com todos os sacramentos; teria de idade vinte e seis anos pouco mais ou menos, foi sepultada de tarde dentro desta igreja sem testamento. Salvador de Carvalho seu marido lhe mandou fazer os três ofícios gerais e teve acompanhamento de sete padres de tarde.” Teve acompanhamento de tarde de sete padre-nossos e três ofícios gerais, bem como de duas missas dentro da Igreja.

Quando em 18 de Agosto de 1785, o marido, morre na sua casa da Murtosa, Salvador Gomes de Carvalho, o pai de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, era um dos homens mais poderosos de Mosteirô, principal herdeiro dos bens da família Gomes. Tinha acumulado um conjunto de heranças que incluíam a Capela da Murtosa, as casas em frente da capela, e as terras que iam de Agoncida até Proselha.

As duas mais importantes famílias da Murtosa, a família de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, da Casa dos Coelhos, e a família do Capitão Estêvão Gomes Correia, da Casa da Murtosa, hoje Quinta Sousa Brandão, tinham propriedades que se estendiam do Aguincheiro e Agoncida, pelas Presas abaixo, passando pela Murtosa, e iam até Proselha e ao Fundo de Mosteirô, continuando em Fornos.

O padre Joaquim Henriques regista o falecimento do pai do seguinte modo:
“Salvador de Carvalho, viúvo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô comarca da Feira e bispado do Porto; faleceu da vida presente, de repente, que nem deu tempo de se sacramentar, só por se achar presente o padre Manuel Leite da freguesia de Milheirós de Poiares o absolveu e logo faleceu sem ter feito disposição alguma, teria de idade oitenta anos pouco mais ou menos. Seu filho Manuel José Leite de Carvalho Coelho ficou herdeiro com obrigações aos seus bens da alma, e faleceu aos dezoito dias do mês de Agosto de mil setecentos e oitenta e cinco anos. Teve ofício de corpo presente de 75 padre-nossos e acompanhamento da maior parte desses.”

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O casamento de Manuel José

Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho casa quatro anos depois da morte do pai e 24 anos depois da morte da mãe Florência. A cerimónia terá lugar na Igreja de Santa Maria da Arrifana no dia 19 de Fevereiro de 1789, de onde era natural a nubente Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela Figueiroa Borges. Era filha de Sebastião Alberto Pacheco Varela, de Arrifana, e de Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, de Carregosa.

Foi um casamento muito concorrido e que contou com a presença de altas individualidades da época. O padre Ignácio José Lopes de Puga, da paróquia da Arrifana, que presidiu ao evento, conta que celebrou o casamento “por ordem que tive do Júri dos Casamentos o Doutor Xavier (…) Abade de Miragaia e o escrivão António José da Cunha”.

Entre as testemunhas contavam-se não apenas os familiares e amigos de Mosteirô e Arrifana, mas igualmente gente de Ossela, de Carregosa, de Salreu e de Milheirós de Poiares, nomeadamente o capitão Francisco dos Reis Rebelo e Salvador José Ignácio.

1789 - Casamento na Arrifana2 - registo 117

Nascem doze filhos e um morre à nascença

Manuel José e Maria Ignácia iriam viver para o Lugar da Murtosa, na Casa dos Coelhos, hoje conhecida como Casa do Ratão, e ali nasceriam os seus doze filhos, um dos quais morreu à nascença.

A 29 de Dezembro de 1789, nasce Maria, a primeira filha do casal Manuel José e Maria Ignácia, que será baptizada na Capela da Murtosa, sob licença do pároco de Mosteirô, pelo padre Inácio José Lopes de Puga, da Arrifana, no dia 12 de Janeiro de 1790.

Numa cerimónia muito concorrida, com a presença de altas individualidades, realizou-se na Capela da Murtosa, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, com grande pompa, a 12 de Janeiro de 1790, o baptizado da primeira neta de Salvador de Carvalho, dono do referido templo, filha de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, do Lugar da Murtosa, e de Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, da vizinha freguesia de Arrifana.

Os padrinhos e testemunhas eram gente de peso naquele final do século XVIII, em Mosteirô e na região, e numa altura em que o Lugar da Murtosa tinha talvez alcançado o seu apogeu. Assim, o padrinho era Manuel José de Carvalho Pereira da Silva Coelho, tio-avô de Maria, natural da freguesia de Carregosa e irmão de Florência, a avó paterna da recém-nascida, e a madrinha seria Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, sua avó materna.

O facto de se tratar da primeira filha do casal e primeira neta de Salvador Gomes de Carvalho terá contribuído para que tal solenidade tivesse lugar na capela da família, à qual todos os seus ascendentes sempre estiveram muito apegados.

Além de Maria, iriam nascer mais onze filhos, tendo um morrido à nascença. Dois deles, Salvador e José Manuel, seguiriam a carreira das armas, atingindo ambos o posto de Major de Cavalaria.

1789 - Baptizado na capela, da Maria

O sogro será sepultado na Igreja de Mosteirô

Natural da Arrifana, o sogro Sebastião Alberto Pacheco Varela viria a falecer na Casa dos Coelhos, no Lugar da Murtosa, e seria sepultado na campa da família. Diz o padre Caetano José da Costa:

“Aos dezanove de Setembro de 1798, recebidos os sacramentos da Santa Igreja, faleceu da vida presente Sebastião Alberto Pacheco Varela, da freguesia da Arrifana, em casa do seu genro Manuel José de Carvalho e foi sepultado na Igreja desta freguesia com ofício e acompanhamento de quarenta padre-nossos e fez disposição verbal cuja forma não sei. Feito neste dia e assina o cura Caetano José da Costa.”

A morte da mulher em 1838, com 73 anos

Não se encontraram até agora em Mosteirô os registos do morte de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho. É possível que tenha falecido fora da terra e, por isso, torna-se impossível saber quando e onde morreu o herdeiro da Murtosa.

De qualquer modo, encontra-se registado no ano de 1838 o falecimento da sua mulher Maria Ignácia de Sá, aos 73 anos de idade. Se fosse vivo, o marido teria naquela altura atingido os 86 anos de idade. No entanto, o registo esclarece que nesse momento Maria Ignácia era viúva. No entanto, não se sabe quais os filhos que ainda estariam vivos naquele momento, uma vez que a viúva de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho deixou testamento mas o registo não diz em favor de quem foi feito.

Diz o padre João José Lopes de Oliveira que “Dona Maria Ignácia de Sá Varela, viúva do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô, faleceu no dia 10 de Maio de 1838, recebeu os sacramentos e foi sepultada dentro da Igreja na sepultura da Casa. Fez testamento e nele deixou 200 missas por sua alma, a 11 do dito mês e ano. Tinha de idade 73 anos.”

Pela quantidade de missas que mandou rezar antes de morrer e pelo facto de ter sepultura de sua Casa, dentro da Igreja, se pode ver o estatuto de que gozava a família de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, o herdeiro de Salvador de Carvalho e da família Gomes da Murtosa. Naquela época, as gentes abastadas tinham o privilégio de poder pagar para procurar assegurar um lugar igualmente privilegiado no “Reino dos Céus”.

1838 - 32 - Maria Inácia de Sá Varela - Viúva

Os filhos José Manuel e Salvador vão para o Exército

Entre 1810 e 1815, os filhos de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, José Manuel de Carvalho Assis Pereira e Salvador de Carvalho Assis, vão enveredar pela carreira das armas e ingressar no Exército Português.

Vão ambos atingir o posto de Major de Cavalaria. O mais velho, o Major José Manuel Carvalho Assis Pereira tinha nascido a 27 de Março de 1793, no Lugar da Murtosa, sendo mais velho dois anos que o irmão Major Salvador de Carvalho Assis, que nasceu no dia 5 de Novembro de 1795. Apesar desta pequena diferença de idades, irão ter um tempo de vida muito diferente. José Manuel faleceu com apenas 51 anos de idade, no Lugar da Murtosa, no dia 28 de Novembro de 1844, tendo sido sepultado no Adro da Igreja de Mosteirô, enquanto o irmão Salvador iria viver bastante mais, apesar de ter tido um final trágico, uma vez que morreu com 72 anos de idade ”aos quinze dias do mês de Setembro de 1867, pelas onze horas da noite, no sítio do Furadouro, da freguesia de Ovar”, segundo crónica da época, quando se encontrava a banhos na referida praia.

Não havendo pormenores sobre a carreira militar de José Manuel é, no entanto, conhecido parte do trajecto na instituição militar do seu irmão Salvador de Carvalho Assis, uma vez que irá fazer parte dos quadros do ramo de Cavalaria, no quartel de Chaves, subindo na hierarquia até atingir o posto de Major. Já com o posto de Capitão iria participar na Batalha de Ponte Ferreira, na freguesia de Campo, em Valongo, cujos combates mais violentos tiveram lugar nos dias 22 e 23 de Julho de 1832,

No final da década de 1860, Salvador de Carvalho Assis tinha regressado à terra que o viu nascer e vivia na casa dos seus antepassados em frente da Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa. Iria aparecer no Lugar da Murtosa com o posto de Major e participar em cerimónias públicas de carácter religioso, tendo sido mesmo padrinho de casamento da irmã do general Francisco Maria de Sousa Brandão, Maria Amália de Sousa Brandão Campelo.

1867 – Os netos Maria e Francisco

No dia 21 de Dezembro de 1867, é baptizada na Igreja Paroquial de Mosteirô, uma neta de Manuel José Pereira de Carvalho, a quem foi dado o nome de Maria. Conta o padre Manuel Gomes Alberto no registo de baptismo que esta menina:

“nasceu nesta freguesia às onze horas e meia da noite, de 20 do mês de Dezembro de 1867, filha primeira de nome de António Maria de Carvalho Assis, de profissão administrador da sua Casa, natural e morador nesta freguesia, e de Francisca Joaquina, solteira, assistente nesta freguesia e natural da freguesia de Fornos, concelho da Feira; neta paterna de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher D. Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, e neta materna de João da Costa Correia de Sá e de Ana Joaquina, moradores em Fornos. Tomaram por padrinho e devoção a invocação de Santo António, e foi madrinha Ana Joaquina, a avó materna da baptizada, a qual sei ser a própria. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser conferido competentemente assinei com pai da baptizada e as testemunhas que assistiram ao acto: João Ribeiro Leite de Oliveira e Manuel Francisco.”

A neta Maria do herdeiro da Murtosa, a única a nascer em Mosteirô, viria a falecer já no século XX, aos 78 anos de idade, em S. João de Ver, no dia sete de Outubro de 1946.

Quanto a Francisco, aparece pela primeira vez referenciado em Mosteirô no dia 29 de Agosto de 1869, quando participa como padrinho do baptismo de Mariana Leite de Oliveira. Diz o registo que Francisco de Assis Pereira de Carvalho, juntamente com a sua tia Mariana Augusta de Carvalho Assis, vão ser os padrinhos da filha de João Ribeiro Leite de Oliveira, lavrador, e de Rosa Margarida da Silva. A recém-nascida Mariana era neta paterna do capitão João Ribeiro Leite e de Ana Angelina de Oliveira, e neta materna de Manuel Pereira da Silva e de Ana Ferreira dos Santos.

A partir da morte trágica do filho António Maria, não aparecem mais registos relacionados com filhos ou netos de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho a viverem em Mosteirô e os que aparecem ainda na década de 1870 em cerimónias públicas encontram-se a viver em freguesias próximas como Arrifana ou Carregosa, não tendo nascido na nossa freguesia.

Tanto quanto é possível saber, os descendentes de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho foram-se dispersando por outras paragens, sem vínculo à terra, sendo possível encontrar referências a alguns deles em Arrifana, Cucujães, Carregosa, Porto, Lisboa ou Rio de Janeiro.

História Cronológica da família Gomes, da Casa dos Coelhos, da Murtosa

    24 de Julho de 1618, casamento dos avós de Mosteirô de Isabel Gomes, André Rodrigues e Maria Antónia Gomes
11 de Abril de 1627, nasce André Gomes, pai de Isabel Gomes
7 de Agosto de 1653, casamento de André Gomes com Maria Fernandes, de Cesár
12 de Dezembro de 1658, nasce Manuel Gomes, que atinge o posto de capitão
18 de Agosto de 1662, nasce Bartolomeu Gomes
18 de Fevereiro de 1666, nasce Isabel Gomes, futura mulher do capitão Manuel da Silva Grilo
15 de Março de 1669, nasce Domingos Gomes, que seria padre mais tarde
1677, é construída a Casa dos Coelhos, que sofre remodelações e aumentos ao longo dos séculos, e hoje é conhecida como Casa do Ratão
4 de Dezembro de 1678, nasce Susana Gomes
1679, é construída a mina de água entre a pedreira da Etiópia e a Fonte do Ratão, a qual irá servir para abastecer as casas e o alambique
27 de Abril de 1693, morre o patriarca da família Gomes, André Gomes, com 66 anos de idade
31 de Agosto de 1698, casamento de Isabel Gomes com o capitão Manuel da Silva Grilo, oriundo da Maia
12 de Fevereiro de 1701, nasce Josefa Teresa de Jesus e Silva, filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo
21 de Maio de 1704, nasce Salvador Gomes de Carvalho, em Milheirós de Poiares
14 de Maio de 1725, casamento da filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, Josefa Teresa de Jesus e Silva com o Licenciado Constantino de Carvalho Pereira, de Carregosa
14 de Julho de 1727, nasce em Carregosa Florência Maria da Silva Carvalho Reis, filha de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
20 de Fevereiro de 1729, nasce em Carregosa Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, mais tarde Professo da Ordem de Cristo, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
7 de Março de 1735, morre o capitão Manuel Gomes, tio e padrinho de Florência, e deixa os seus bens aos irmãos e ao cunhado capitão Manuel Grilo
9 de Abril de 1735, morre Isabel Gomes, avó de Florência, deixa os seus bens ao marido Capitão Manuel da Silva Grilo
19 de Julho de 1738, morre o Capitão Manuel da Silva Grilo, avô de Florência, e faz escritura em que deixa os seus bens aos seus filhos e genro Capitão Manuel Marques Ferreira
19 de Novembro de 1738, nasce em Carregosa José Manuel da Silva Pereira, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
4 de Setembro de 1748, casamento em Mosteirô de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, de 21 anos, com Salvador Gomes de Carvalho, de 44 anos
7 de Março de 1749, morre Bartolomeu Gomes, tio de Isabel Gomes, tendo feito escritura de dote dos seus bens a Salvador Gomes de Carvalho com obrigação de casar com a sua sobrinha Florência
2 de Novembro de 1749, nasce a primeira filha, Maria, de Florência Maria da Silva Carvalho Reis e Salvador Gomes de Carvalho
5 de Janeiro de 1752, nasce o filho de Salvador Gomes de Carvalho e de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, a quem é dado o nome de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho
3 de Dezembro de 1752, morre Susana Gomes
7 de Setembro de 1754, morre Nicolau Gomes e deixa os seus bens à sobrinha Florência
27 de Outubro de 1754, morre Florência Maria da Silva Carvalho Reis e deixa os bens ao marido Salvador de Carvalho
23 de Novembro de 1773, morre o capitão Manuel Marques Ferreira, dono da capela, deixando todos os seus bens ao sobrinho José Manuel da Silva Pereira, de Carregosa.
12 de Dezembro de 1781, morre Maria Gomes, deixando herdeiro universal Salvador de Carvalho
18 de Agosto de 1785, morre Salvador de Carvalho, deixando ao seu filho, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, todos os seus bens e a incumbência de cuidar pela sua alma, com uma missa de corpo presente e 75 padre-nossos
19 de Fevereiro de 1789, casamento do filho de Salvador, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, na Igreja da Arrifana, com Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha.
29 de Dezembro de 1789, nasce Maria a primeira filha do casal, que será baptizada na Capela da Murtosa, sob licença do pároco de Mosteirô, pelo padre Inácio José Lopes de Puga, da Arrifana, no dia 12 de Janeiro de 1790.
6 de Janeiro de 1791, nasce Francisco de Carvalho Assis, segundo filho do casal.
7 de Fevereiro de 1792, nasce Manuel, terceiro filho do casal.
26 de Março de 1793, nasce José, quarto filho do casal.
28 de Setembro de 1794, nasce Ana, quinta filha do casal.
3 de Setembro 1795, nasce Salvador de Carvalho Assis, sexto filho do casal.
3 de Julho de 1797, nasce Margarida, sétima filha do casal.
19 de Setembro de 1798, morre o sogro de Manuel José, Sebastião Alberto Pacheco Varela que será sepultado na Igreja de Mosteirô
4 de Julho de 1798, nasce o oitavo filho que morre logo após o nascimento
11 de Março de 1800, nasce Florência, nona filha.
17 de Novembro de 1801, nasce Mariana Ingrácia, décima filha
20 de Novembro de 1803, morre Florência, com apenas 3 anos.
27 de Dezembro de 1803, nasce a décima primeira filha, à qual é dado o nome de Florência
25 de Março de 1806, nasce António, décimo segundo filho
16 de Abril de 1806, morre a filha Ana, com 12 anos
1810-1815, por volta desta época, os irmãos José Manuel e Salvador vão para o Exército
15 de Fevereiro de 1814, morre o filho Francisco de Carvalho Assis, com 24 anos
10 de Maio de 1838, morre Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, mulher de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho
28 de Novembro de 1844, morre o filho José Manuel de Carvalho Assis Pereira, Major de Cavalaria, solteiro
19 de Maio de 1857, morre a filha Margarida Maximina de Sá Barbosa de Carvalho Assis, solteira
6 de Janeiro de 1858, o Major Salvador de Carvalho Assis é padrinho de casamento da irmã de Sousa Brandão, Maria Amália de Sousa Brandão Campelo
12 de Julho de 1863, morre a filha Maria José de Carvalho Assis, solteira
15 de Setembro de 1867, morre no Furadouro o filho, Major de Cavalaria, Salvador de Carvalho Assis, solteiro, sem deixar descendência.
29 de Agosto de 1869, Mariana Augusta de Carvalho Assis e Francisco Assis Pereira de Carvalho, seu sobrinho, são padrinhos de Mariana Leite de Oliveira
27 de Abril de 1869, morre com dois tiros o filho António Maria de Carvalho Assis, solteiro, deixando uma filha
1876, sete anos depois nasce no Lugar das Presas, Joaquim Carvalho Assis, mas não se conhece qualquer ligação deste ramo dos Carvalho Assis ao ramo anterior.
1946, morre em S. João de Ver a neta Maria, com 78 anos de Idade
    1961, morre em Lisboa Lucinda Machado Brandão de Andrade, última herdeira de parte dos bens da família de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, que incluíam a Quinta do Ratão, os matos do Aguincheiro e a Capela da Murtosa.

Destaque

A emboscada do Sítio da Quingosta

Neto de Salvador de Carvalho, da Murtosa, foi morto com dois tiros, quando passava por um caminho estreito, na encosta junto ao moinho da ponte do Rio Laje

Homens armados prepararam, minuciosamente, com todos os pormenores, uma emboscada no sítio da quingosta, uma estrada estreita por entre os matos que sobe para o Lugar do Calvário, perto do antigo moinho da ponte, quando António Maria regressava dos trabalhos nos campos, acompanhado pelos seus criados da lavoura.

Conta o padre Manuel Gomes Alberto que “aos vinte e sete dias do mês de Abril de mil oitocentos e sessenta e nove, às sete horas da tarde no sítio da quingosta”, perto do ralo do moinho da ponte, “foi morto fulminantemente com dois tiros disparados do alto da ravina da quingosta, quando se ia recolhendo com os seus criados dos trabalhos da lavoura, António Maria de Carvalho Assis”.

António Maria tinha nascido a 25 de Março de 1806, na Casa dos Coelhos, pertencente aos seus pais no Lugar da Murtosa, frente à capela da família, e era filho de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho e de Maria Inácia de Sá Pacheco Varela da Cunha Borges, neto paterno de Salvador de Carvalho, o senhor da Murtosa, e de Florência da Silva Reis, e neto materno de Sebastião Alberto Pacheco Varela e de Maria José da Cunha Borges, do lugar da Rua, de Santa Maria de Arrifana. Teve como padrinhos de baptismo, a sua irmã mais velha, Maria de Carvalho Assis, e o padre Manuel Gomes Leite, ambos do Lugar da Murtosa.

Conta igualmente o padre Manuel Gomes Alberto que António Maria era filho de “pessoas distintas em Nobreza, e não fez testamento, tendo deixado uma filha, a qual reconheceu como tal”, tendo ficado sepultado no cemitério público de Mosteirô.

Um solteirão com mau feitio

Solteirão, António Maria, de 61 anos de idade, assediava frequentemente as criadas e empregadas da casa e dos lugares vizinhos da Murtosa, prometendo casamento com uma ou com outra, coisa que nunca viria a acontecer. Acontecia, por vezes, que tal assédio acabava em gravidez da mulher ou da rapariga, que ele sempre evitava em reconhecer e pagava para abafar o assunto. Às vezes pagava aos familiares para irem fazer o registo de nascimento a outras freguesias, não mencionando o nome do pai.

António Maria de Carvalho Assis, um dos homens mais ricos do Lugar da Murtosa e um dos herdeiros das terras da Quinta do Ratão, era conhecido pelo seu mau feitio, e tinha evitado até ao último momento reconhecer a sua única filha, Maria Joaquina Correia de Sá. Já anteriormente tinha havido um caso semelhante em que António terá ficado por reconhecer um outro filho seu, coisa que nunca veio a acontecer.

Oriundo de uma das famílias mais ricas e conceituadas da época, do Lugar da Murtosa, António Maria de Carvalho Assis sempre se achou intocável e que a fortuna que herdou o colocava num patamar superior e seria o suficiente para pagar todos os seus desmandos.

O nascimento de Maria, a única filha que reconheceu

A filha e bisneta de Salvador de Carvalho, Maria Joaquina Correia de Sá, nasceu em Mosteirô, no dia 20 de Dezembro de 1867. Foi baptizada no dia seguinte pelo padre Manuel Gomes Alberto como Maria, filha natural de António Maria de Carvalho Assis, administrador, natural e residente na freguesia, e de “Francisca Joaquina, solteira, assistente nesta freguesia, e natural da freguesia de Fornos, neta paterna de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher D. Maria Inácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, e neta materna de João da Costa Correia de Sá e de sua mulher Ana Joaquina, moradores em Fornos”, conta o pároco de Mosteirô, “tendo por padrinho a devoção e invocação de Santo António e por madrinha Ana Joaquina, a avó materna”.

Tratando-se de uma família de carácter tradicionalista, donos da Capela da Murtosa, familiares do Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, cujo brasão se encontra incrustado na Casa do Ratão e na lápide existente na sacristia da Igreja paroquial de Mosteirô, a circunstância de ter de registar uma filha, nascida fora de uma relação tradicional, constituiria um acontecimento com carácter de escândalo. A família de António Maria de Carvalho Assis era muito conhecida e encontrava-se espalhada por toda região, desde Mosteirô a Carregosa, Milheirós de Poiares, Arrifana e S. João de Ver.

Em consequência, os familiares aconselharam-no a tirar a filha dos cuidados da mãe e a levá-la para S. João de Ver para ser criada por pessoas das suas relações, freguesia onde Maria Joaquina Correia de Sá viria a falecer no dia 7 de Outubro de 1942, não se conhecendo o seu percurso e a sua vida, entre o nascimento e a morte.

Quingosta

O Sítio da Quingosta

A quingosta, também designada de congosta, é um termo usado para descrever uma ruazinha estreita, uma azinhaga ou caminho entre muros (Camilo Castelo Branco), normalmente entre matas de encostas escarpadas, talhado por entre matos, ficando muitas das vezes uns dois metros abaixo do nível do mato.

Neste caso em apreço, tratar-se-ia de um troço da Via Antiga de Mosteirô, que passava pela Ponte dos Três Arcos e tinha continuação por Fornos acima até ao Castelo da Feira, trajecto que encurtava a distância entre Mosteirô e a Vila da Feira.

O ralo do moinho encontrava-se no fim do canal de água, construído em pedra, que captava a água mais acima no Rio Laje e a encaminhava até ao moinho existente antes da ponte, que se encontra na divisa de freguesias, do lado de Fornos.

Esta quingosta, o caminho entre os muros em pedra que escoravam as terras um pouco mais altas, era um sítio que permitia a qualquer pessoa se esconder por entre os fêtos, o tojo e as giestas, especialmente ao anoitecer.

Francisca Joaquina, a mãe de Maria

Francisca Joaquina, tinha 26 anos quando foi mãe de Maria. Assistente em Mosteirô, Francisca nasceu no Lugar do Carvalheiro, em Fornos, no dia 3 de Dezembro de 1840, filha de João da Costa Correia de Sá e de Ana Joaquina, ambos naturais dessa freguesia.

Diz o cura de Fornos, abade Carlos Alberto Peixoto de Lima, que Francisca era “neta paterna de Alexandre da Costa e de sua mulher Quitéria Maria Leite, do dito lugar do Carvalheiro, e neta materna de Manuel da Silva Gesteira e de sua mulher Ana de Sá Correia, do lugar de Cabomonte da freguesia de Souto. Foram padrinhos Francisco Correia, do lugar da Quintã de Cima e Francisca, filha de Manuel Ferreira Lima, do lugar da Quintã de Baixo.”

Francisca Joaquina continuou a viver em Mosteirô e já com trinta e nove anos de idade iria ter mais dois filhos, de que não são conhecidos os pais. Um deles, José, faleceu prematuramente após o parto, sobrevivendo a irmã Ana Joaquina. Nasceram pelas quatro horas da tarde do dia 20 de Abril de 1880 e seriam baptizados a 22 do mesmo mês pelo padre António Caetano da Silva, o qual regista que a mãe, solteira, era governanta de sua casa e vivia do Lugar de Mosteirô.

Os motivos do atentado

Especulou-se que o motivo do assassinato teria a ver com assédio que António Maria terá feito a Francisca Joaquina e a outras criadas do lugar e da freguesia. Mas a história que seria contada mais tarde tinha a ver com o facto de ele não ter querido casar com Francisca, apesar de o ter prometido, e que os familiares desta não terão apreciado de modo algum tal situação, pressionando-o para respeitar a promessa, o que nunca chegou a acontecer.

A emboscada terá sido bem preparada e os agressores colocaram-se de imediato em fuga pelos matos adentro. No momento do atentado, assustados, os criados de António Maria ficaram totalmente sem reacção alguma e não conseguiram identificar os executores deste atentado, repetindo mais tarde ao chegar ao lugar da Murtosa o que já tinham afirmado ao regedor, que eles se encontravam encapuzados, escondidos no meio da vegetação, e que já estava a ficar de noite, havendo pouca visibilidade na quingosta. Havia versões contraditórias sobre o número de agressores e quantos tiros terão disparado. No entanto, diziam que os tiros só terão terminado quando António Maria de Carvalho Assis caiu inanimado.

Nessa altura, um dos criados foi enviado a correr ao lugar de Mosteirô, não muito longe dali, para chamar o regedor da freguesia, Manuel Valente, para tomar conta da ocorrência e decidir sobre o destino a dar ao corpo de António Maria, um pouco desfigurado, uma vez que tinha sido baleado na cabeça e no peito.

Naturalmente, este foi um daqueles casos mais badalados da época e motivo de especulação que duraria por vários meses, tanto mais que se tratava de uma das famílias mais conhecidas em toda a região, tanto no concelho da Vila da Feira como no de Ovar, e especialmente no de Oliveira de Azeméis, onde moravam irmãos, primos, tios e outros familiares de António Maria de Carvalho Assis.

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Destaque

O abominável crime de Agoncida

Nascida no dia de Natal, Maria foi vítima de um crime horroroso, segundo o testemunho do padre da freguesia, que alvoraçou toda e região

Ana Maria da Silva entregou 40 reis à filha Maria Pereira, com cerca de 6 anos de idade, e disse-lhe para ir comprar uma garrafa de azeite à loja dos Quatro Caminhos, conhecida como Loja do Vinagre. Da sua casa, não muito longe das pedreiras de Agoncida, até ao local onde se encontrava a dita loja eram pouco menos de 200 metros.

Os Quatro Caminhos situavam-se num antigo cruzamento entre o caminho que descia de Cucujães e seguia até Souto e o caminho que subia desde a Igreja de Mosteirô e tinha continuação até São Lourenço. Naquela época tratava-se de caminhos em pedra calcária por onde passavam os carros de bois e as pessoas que se deslocavam entre as várias localidades, ladeados por alguns campos mas sobretudo pelas florestas de pinheiros, eucaliptos, mimoseiras, carvalhos e sobreiros, com tojo, fêtos e giestas à mistura.

Estávamos em pleno Inverno de 1857, ao início da noite, com chuva miúda e uma neblina que deixava pouca visibilidade, e a menina ia seguindo, medrosa, até que apareceu, vindo na mesma direcção, o António Coelho que ela conhecia e que morava acima das pedreiras de Agoncida, num sítio conhecido como Jardim.

O António tinha 13 anos de idade e trabalhava como ajudante de pedreiro num estaleiro de canteiros no Lugar do Monte. Tinha nascido no dia 20 de Outubro de 1744 e era filho de Joaquim Coelho Pereira e de Ana Maria Angélica, do Lugar de Agoncida, e neto paterno de José Coelho Pereira e de Maria da Silva e neto materno de Bento José da Silva e de Maria Custódia Angélica.

Uma ajuda fatídica

O rapaz, já espigadote, ofereceu-se para a ajudar e a criança, inocente, entregou-lhe a garrafa do azeite, dizendo que tinha dinheiro para pagar. A chegar perto dos Quatro Caminhos, ele pediu-lhe o dinheiro mas a menina resistiu em dar-lho, começando a chorar. António agarrou-a por um braço, atirou-a ao chão e tirou-lhe o dinheiro. Maria bateu com a cabeça numa pedra do caminho, ficando a sangrar e começou a gritar mais alto. Com a força dos seus 13 anos, António agarrou-a pelo pescoço, sufocando-a.

Com receio que aparecesse alguém, António agarrou na menina inerte e desatou a correr por um caminho dos matos que seguia na direcção de Souto. Foi andando, sempre a correr, até que chegou a uma mina nos matos do comendador Inácio José Monteiro. Constatando que Maria não dava sinais de vida, António julgou que a melhor maneira de apagar o seu crime seria esconder o corpo num local em que ninguém o encontrasse.

Segundo o testemunho do padre Manuel Gomes Alberto, cura de Mosteirô, Maria “foi levada à força e precipitada e morta em um óculo, de uma mina, da altura de 100 palmos (cerca de 20 metros) que é de Inácio José Monteiro, do lugar do Ferral, em Souto.” O pároco da nossa freguesia classificaria este caso como “um horroroso acontecimento.

A demora de Maria sobressalta a mãe

Com a ausência da filha que não aparecia, já se fazendo tarde, a mãe Ana Maria da Silva, entrou em sobressalto e pôs-se a caminho da loja do Vinagre à procura da menina, perguntando aos vizinhos e a quem passava se a tinham visto. Quando chegou à Loja, que se situava no caminho na direcção de São Lourenço, ficou estarrecida ao saber pela boca do próprio Vinagre que Maria não tinha sequer chegado ao estabelecimento. Encostado ao balcão, encontrava-se o Francisco Penteado que disse parecer-lhe tê-la visto na companhia de um rapaz, mas que no escuro não conseguiu aperceber-se de quem se tratava.

Ana Maria desatou numa gritaria que atraiu várias pessoas que passavam pelo lugar, junto ao estabelecimento dos Quatro Caminhos, especialmente as outras mulheres do sítio.

Fazendo-se tarde e sem notícias da menina, o dono do estabelecimento, Joaquim Vinagre, propôs que se fosse chamar o Regedor da freguesia, Manuel Valente, única pessoa com competência para tomar qualquer decisão. Quando chegou ao local, o regedor achou por bem formar um grupo que fosse perguntar nas vizinhanças se alguém sabia de alguma coisa relacionada com o caso e procurar nos caminhos dos matos à volta, entre os Quatro Caminhos e a casa de Ana Maria da Silva. Manuel Valente recomendou para que as mulheres da casa ficassem com a mãe da menina, para a acalmar, até que se encontrasse a filha.

Capa

O testemunho de José Francisco

Ao fim de algum tempo, perguntando a uns e a outros, encontraram o José Francisco, do Lugar do Monte, que disse ter visto a menina, ao longe, com o António, filho do Joaquim Coelho Pereira, indo ambos na direcção dos Quatro Caminhos.

Nessa altura, Manuel Valente, o regedor, decidiu ir com o José Francisco a casa do Joaquim Coelho Pereira para ver se encontravam o filho deste, para procurar saber do paradeiro da menina. Lá chegados, foi-lhes dito que estavam à espera dele e que também se encontravam preocupados com a demora, por ser já bastante tarde.

Tendo parado completamente de chover e a neblina tendo-se levantado, apesar do adiantado da hora, Manuel Valente pediu voluntários para formar dois grupos para fazer uma batida pelos matos dentro, dos dois lados do caminho, tendo o pai do António Coelho se oferecido para participar as buscas.

Já muito tarde, noite dentro, o filho mais velho de Joaquim Coelho Pereira, Manuel Coelho, apareceu junto do grupo comandado pelo regedor, dizendo que o irmão António, já tinha aparecido em casa e que se encontrava muito alterado, sem dizer coisa com coisa. De imediato, todos se juntaram e seguiram para casa de Joaquim Coelho Pereira, no sítio do Jardim. Lá chegados, depararam-se com o jovem António, todo sujo, enlameado, descobrindo-se que tinha vestígios de sangue.

O interrogatório de António Coelho Pereira

O regedor mandou afastar toda a gente e chamou o pai e o rapaz à parte, e foram para a casa da eira interrogar o António. Naquele tempo, no essencial, os regedores garantiam a boa aplicação das leis e dos regulamentos administrativos e exerciam a autoridade policial no território da freguesia. Apertado pelo pai, o António acabou por dizer que tinha havido um acidente e que a menina tropeçou, caiu e bateu com a cabeça numa pedra do caminho.

A história do rapaz estava muito mal contada e, depois de uns açoites dados pelo pai que perguntava onde estava a menina, o rapaz confessaria o crime. Manuel Valente, o regedor, quis saber para onde tinha ele levado o corpo, uma vez que já tinham percorrido os caminhos dos matos à volta dos Quatro Caminhos e não tinham encontrado vestígios. Apertado novamente pelo pai, que dizia consternado – Isto é uma vergonha e uma infâmia para toda a nossa família! – o António acabou por confessar que a tinha levado para os matos de Inácio José Monteiro.

Com fortes ligações a Arrifana e Mosteirô, mais tarde elevado à categoria de comendador, Inácio Monteiro era um proprietário abastado, solteiro, cujas terras se estendiam desde a Agoncida junto aos Quatro Caminhos por Souto abaixo até ao lugar do Ferral, dessa freguesia. O Comendador Inácio José Monteiro, quando nasceu em 30 de Outubro de 1809, no lugar do Ferral, seria baptizado pelo Cura de Mosteirô, o padre José Leite de Oliveira, natural de Arrifana, tendo padrinhos o abade de Santa Maria de Arrifana, reverendo Manuel Domingos de Andrade e Bernardina Rosa de Jesus, mulher de Manuel Lopes dos Santos, do Lugar de Agoncida.

O Regedor leva o rapaz para a prisão da Vila da Feira

Apesar do adiantado da noite, o regedor decidiu ir com o rapaz e com o pai dele, mas sem a companhia dos outros elementos que o tinham acompanhado até à casa de Joaquim Coelho Pereira, verificar o local onde se encontrava o corpo da menina. Desceram os três até aos Quatro Caminhos e embrenharam-se por um carreiro no mato pertencente a Inácio Monteiro até à boca da mina de água.

Aí chegados, e constatando que, com aquela escuridão, seria impossível aceder a um poço de 20 metros e ver o corpo da menina, Manuel Valente tomou uma decisão de ir a pé, com o pai e o filho, pelo caminho das Carregueiras até à prisão da Vila da Feira para mandar encarcerar o rapaz, provisoriamente, enquanto o Administrador do Concelho não tomasse conta da ocorrência, o que só aconteceria já no dia seguinte.

De regresso a Mosteirô, alta madrugada dentro e sem dormir, o regedor mandou Joaquim Coelho Pereira avisar o Francisco Penteado, o José Francisco e o próprio Joaquim Vinagre para se encontrarem todos na Loja deste, antes do amanhecer, e para levarem cordas e um balde grande para fazerem subir o corpo da menina, caso o encontrassem.

À hora marcada dirigiram-se os cinco à mina de Inácio José Monteiro montando um sistema de roldana que permitisse fazer descer um dos homens, tarefa que calhou ao mais levezinho, o José Francisco. Este desceu, enrolado na corda, até atingir a água da mina e procurou às apalpadelas o corpo da menina. Quando o encontrou, pediu para fazerem descer o balde, tendo depositado o corpo de Maria, que seria subido primeiro e, depois, foi a vez de fazer subir próprio José Francisco, com a ajuda dos homens que puxavam as cordas.

1851 - Maria - nascimento 2

A menina Maria tinha nascido no dia 25 de Dezembro de 1851, há precisamente 168 anos, e era filha de Manuel Pereira e de Ana Maria da Silva. Era neta paterna de Ana Maria Galante e neta materna de João Pereira e de Ana Maria, do lugar de Agoncida. Foi baptizada na Igreja de Mosteirô pelo padre Manuel Gomes Alberto, tendo como padrinhos os seus tios José Pereira e Maria Pereira, e como testemunhas António Rodrigues e António José dos Santos, todos do Lugar de Agoncida.

O horror e a consternação

Quando a notícia se espalhou, o horror e a consternação geral tiveram um impacto imediato que ultrapassou largamente as fronteiras da freguesia, sendo um dos casos mais badalados da época, desde Souto a S. Vicente Pereira e Fornos e mesmo na Vila da Feira e Cucujães. Entretanto, o Regedor mandou um homem avisar Inácio José Monteiro do sucedido, o dono dos matos, uma vez que o corpo da menina tinha sido encontrado nas suas terras.

Os trâmites legais implicavam a presença do Administrador do Concelho, que tinha também sido avisado pelo Regedor de Mosteirô, o qual compareceu no local em que tinha sido encontrado o corpo de Maria, tendo mandado lavrar os respectivos Autos Judiciais, os quais iriam servir para levar a julgamento o rapaz e entregar o corpo da menina à família para se proceder ao seu sepultamento.

O funeral de Maria contou com a presença de um infindável número de curiosos vindos de todas as redondezas, que passaram a contar as mais estranhas histórias acerca deste abominável crime.

1809 - Comendador Inácio José Monteiro1844 - 27 - António, o assassino 2

Destaque

É triste ser pobre e morrer em Dezembro

Durante séculos, os muito pobres, enjeitados, menores de idade e anjinhos recém-nascidos, normalmente não tinham ofícios de Corpo presente, na hora de irem para a sepultura

Foi no último mês do ano, o Inverno chegava e já não faltava muito para chegar ao Natal, no ano de 1852, quando Francisco António, do Lugar do Monte, de cerca de sessenta anos de idade, faleceu e foi sepultado na Igreja de Santo André de Mosteirô. Por ser muito pobre, não teve acesso a qualquer ofício religioso, segundo conta o pároco da época, o padre Manuel Gomes Alberto, o que era natural naqueles tempos em que as pessoas muito pobres não tinham possibilidades de pagar os ofícios religiosos. Francisco António tinha nascido a 4 de Outubro de 1793, filho de Manuel Dias da Fonseca e Maria dos Santos. Não se sabe grande coisa sobre as circunstâncias da sua morte, uma vez que o registo do seu falecimento é parco em informações.

Este procedimento era habitual por parte do clérigo. Meses antes, o mesmo tinha acontecido com Manuel Gomes, que vivia em casa do Capitão João Ribeiro Leite, no Lugar da Murtosa, e que veio a falecer com sessenta anos de idade no dia 5 de Setembro de 1852, sendo sepultado na Igreja de Mosteirô depois de ter recebido os sacramentos da penitência. Conta o pároco Manuel Gomes Alberto que o mesmo Manuel Gomes “não teve ofício algum por ser pobre” e que, pela mesma razão, não terá feito testamento.

Durante toda década de 1850 são inúmeros os casos em que os falecidos muito pobres não tinham ofícios religiosos devido às suas reduzidas possibilidades económicas ou dos seus familiares. Os registos relativos a esta década revelam que cerca de metade eram muito pobres, enjeitados, menores de idade e anjinhos recém-nascidos, que normalmente não tinham missas de Corpo presente. Da outra metade, uma grande parte teve acesso a um ofício de Corpo presente, enquanto os restantes tiveram possibilidades de pagar várias missas ao longo dos anos seguintes.

Já em 1854, segundo conta o padre da época, seria a vez de “Joana Maria, viúva, do Lugar do Monte, desta freguesia de Mosteirô, que faleceu da vida presente no dia treze de Maio de 1854 e teria de idade 55 anos, pouco mais ou menos, e não teve ofício algum por ser pobre.” Era viúva de Manuel Pereira e filha de Joaquim Ferreira e de Maria Teresa, todos do Lugar do Monte.

No mesmo ano, também por ser pobre, não teria ofício algum “José Francisco das Almas, do Lugar de Proselha desta freguesia de Santo André de Mosteirô, que faleceu da vida presente sem sacramentos, no Lugar de Abolembra, de S. Martinho da Gândara, no dia três de Setembro de mil oitocentos e cinquenta e quatro”. Os familiares foram buscar o corpo do falecido à referida freguesia, vindo a ser sepultado na Igreja de Mosteirô.

Em 1855, por  caridade, o padre Manuel Gomes Alberto abriria uma excepção. Tal foi o caso de “Teresa de Jesus, viúva, por apelido a Viana, assistente no Lugar do Monte, desta freguesia de Santo André de Mosteirô, que faleceu da vida presente com todos os sacramentos no dia trinta e um de Maio de mil oitocentos e cinquenta e cinco, tendo de idade mais de oitenta anos, sendo sepultada no adro da Igreja.” Apesar de ser pobre, “eu disse-lhe uma missa de Corpo presente, por caridade”, acrescenta o pároco de Mosteirô.

Tal não seria o caso, porém, de João Pereira, o Válega, solteiro, de quarenta anos, do Lugar e da Freguesia de Santo André de Mosteirô, o qual não veio a ter a mesma sorte de Teresa de Jesus e que falecera “com todos os sacramentos, no dia catorze de Fevereiro de mil oitocentos e cinquenta e cinco e foi sepultado no Adro da Igreja.” Mas, mais uma vez, “não teve sufrágios alguns por ser muito pobre”, acrescenta o padre Manuel Gomes Alberto.

1857 - 130 - D. Margarida Carvalho Assis

Ser rico é uma vantagem: o caso de Margarida Carvalho Assis

Esta era uma prática comum em Mosteirô ao longo dos séculos. Quem era rico abastado, eclesiástico ou ligado ao poder sempre tinha direito a ser tratado de forma diferente, tanto devido ao seu estatuto social como devido aos bens que possuía e que lhe permitiam “comprar” os favores dos padres da época. Foi esse o caso de Margarida de Carvalho Assis, filha de um dos homens mais ricos do Lugar da Murtosa, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, e neta de Salvador de Carvalho, o senhor da Murtosa, dono da Capela de Nossa Senhora do Carmo, da Casa dos Coelhos, hoje Casa do Ratão, e das terras que iam desde o Aguincheiro até Proselha.

Conta o Padre Manuel Gomes Alberto que celebrou um Primeiro ofício de 16 padre-nossos e mais dois Ofícios de 9 padre-nossos. O registo de falecimento é o documento bastante elucidativo e muito mais desenvolvido do que os registos dos restantes aqui referenciados. Diz então o pároco de Mosteirô:

“Dona Margarida Maximina de Sá Barbosa de Carvalho Assis, desta freguesia de Santo André de Mosteirô, faleceu da vida presente de idade de sessenta anos, no dia 19 do mês de Maio de mil oitocentos e cinquenta e sete, e não recebeu os Sacramentos por morrer de um ataque apoplético, quase de repente. Fez Testamento e deixou por sua Alma, e de seus Pais e Irmãos Francisco e José, quinhentas Missas, e uma de Legado perpétuo, mandada dizer pela Confraria do Santíssimo desta freguesia, a qual deixou seis alqueires de milho, de legado para sempre impostos numa propriedade sita no Lugar das Presas desta freguesia. E para constar, fiz este assento.”

Margarida tinha nascido, no Lugar da Murtosa, no dia três de Julho de 1797, e era filha do referido Manuel Pereira de Carvalho e de Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha. Era neta paterna do Senhor da Murtosa, Salvador de Carvalho, e de Florência da Silva Reis (neta do Capitão Manuel da Silva Grilo) e neta materna de Sebastião Alberto Pacheco Varela e de Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, da freguesia de Arrifana.

Não é difícil concluir que, ao longo dos séculos, na hora da sua morte, os muito pobres, os deserdados da terra, não tinham acesso aos trâmites oficiosos que a Igreja concedia aos outros, bem mais poderosos, e que podiam pagar o preço.

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Destaque

O major Salvador morre no Furadouro

Foi no fim do Verão de 1867 que, com enorme estupefacção, se soube em Mosteirô que o Major de Cavalaria Salvador de Carvalho, do Lugar da Murtosa, tinha morrido na praia do Furadouro

A notícia correu rapidamente por toda a freguesia, quando foi anunciado que o Major de Cavalaria Salvador Carvalho de Assis, um dos donos da Capela da Murtosa, tinha morrido na Praia do Furadouro, onde se encontrava a banhos, no final do Verão de 1867, quando os dias ainda são quentes, na transição para o Outono.

Conta o pároco da freguesia, Manuel Gomes Alberto, que ”aos quinze dias do mês de Setembro de 1867, pelas onze horas da noite, no sítio do Furadouro, da freguesia de Ovar, bispado do Porto, faleceu sem sacramentos, onde estava a tomar banhos, um indivíduo do sexo masculino por nome Salvador Carvalho de Assis, de idade de setenta e dois anos.”

E o padre Manuel Alberto conta ainda que Salvador Carvalho de Assis era “natural desta freguesia, morador no Lugar da Murtosa, de profissão Major reformado de Cavalaria, filho legítimo de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de Dona Maria Inácia Pacheco Varela, natural da freguesia de Arrifana, de profissão e de Nobreza, o qual fez testamento, não deixou filhos, e foi sepultado no cemitério público, e para constar lavrei em duplicado este assento.”

Ferido em combate em Valongo

Muitos anos antes da sua morte, Salvador Carvalho de Assis deixa Mosteirô, para seguir a carreira militar, e terá ingressado no Exército por volta de 1810, uma vez que em meados de 1809 ainda permanecia no Lugar da Murtosa, tendo sido testemunha do baptizado de Tomé, filho de Manuel Dias Valente e de Ana Maria Teresa, nascido no dia 15 de Maio de 1809, neto paterno de Manuel Gonçalves Valente e de Teresa Dias e neto materno de José Rodrigues e de Maria Teresa, gente bem conhecida da freguesia naquela época.

No seu trajecto na instituição militar, Salvador irá fazer parte dos quadros do ramo de Cavalaria, no quartel de Chaves, subindo na hierarquia até atingir o posto de Major. Já com o posto de Capitão irá participar na Batalha de Ponte Ferreira, na freguesia de Campo, em Valongo, cujos combates mais violentos tiveram lugar nos dias 22 e 23 de Julho de 1832, e deixaram um rasto de centenas de mortos, feridos e desaparecidos, segundo os cronistas da época.

1832 - Capitão Salvador de Carvalho ferido na batalha de Valongo - Ponte Ferreira

Como se sabe, a guerra entre liberais e absolutistas foi travada entre 1832 e 1834, depois de o príncipe Miguel ter renegado o juramento que tinha feito de respeitar e cumprir a Carta Constitucional de 1826. A região do Porto seria uma das que mais sofreu com a guerra entre liberais e absolutistas, com a cidade capital do Norte a desempenhar um papel fundamental na luta pela liberdade.

Conta um dos cronistas que, na Batalha da Ponte Ferreira, “o sangue fratricida tingiu as calmas águas do Ferreira que, indiferentes, procuravam caminho entre os corpos que, no seu leito, se amontoavam. Os combates só iriam terminar na noite de 23 de Julho”.

Salvador Carvalho de Assis ficou ferido nos combates de Valongo, juntamente com outros oficiais de Cavalaria de Chaves. Não se conhece a trajectória seguinte de Salvador de Carvalho, mas sabe-se que sobreviveu aos ferimentos e atingiu o posto de Major de Cavalaria. Sabe-se igualmente que regressava amiúdo à terra Natal, visitava os familiares e amigos do Lugar da Murtosa, participando por vezes em cerimónias públicas religiosas da época na Igreja de Mosteirô.

Testemunha do casamento da irmã de Sousa Brandão

Foi durante a década de 1850 que Salvador de Carvalho Assis regressa de vez à terra que o viu nascer e passa a viver na casa dos seus antepassados em frente da Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa, a Casa dos Coelhos, hoje mais conhecida como Casa do Ratão, e participa em diversos eventos públicos da época, para os quais era convidado.

Capela e Ratão

Tal foi o caso do casamento de uma irmã do general Sousa Brandão. De regresso definitivo a Mosteirô, já como Major Salvador Carvalho de Assis, aos 63 anos de idade, irá apadrinhar o casamento de Maria Amália.

Conta o pároco Joaquim Gomes Alberto que no dia 6 de Janeiro de 1858, na sua presença, “e das testemunhas, o Major Salvador de Carvalho Assis e o Capitão João Ribeiro Leite do lugar da Murtosa desta mesma freguesia, por palavras de presente em face da Igreja;” 

“Se receberam António Nunes Alves, filho legítimo de José Nunes Alves e de Teresa Simões Nogueira, da freguesia de Nossa Senhora das Neves da vila de Angeja, neto paterno de António Alves Picado e de Maria Nunes Marques; e materno de José Simões Amaral e de Teresa Nogueira, todos desta freguesia.” 

“Com Dona Maria Amália de Sousa Brandão Campelo, filha legítima de Manuel Ferreira de Sousa Brandão e de Dona Maria José Custódia de Sousa Campelo, do Lugar da Murtosa da freguesia de Santo André de Mosteirô, neta paterna de Domingos Ferreira Brandão e de Dona Ana Maria Correia de Sousa, da mesma freguesia e bispado do Porto, e neta materna do capitão Carlos José de Pinho e Sousa e de Dona Luísa Bernarda de Almeida Campelo, da Ínsua da freguesia de Carregosa, bispado de Aveiro, e receberam as bênçãos no dia sete do dito mês e ano, conforme os ritos da Santa Madre Igreja.”

Naquela época, os nomes nem sempre se apresentavam da mesma forma, dependendo muito de quem fazia o registo, neste caso do padre da freguesia. Enquanto o nome próprio permanecia quase sempre ao longo da vida, já os apelidos iam variando, consoante se escolhiam os do pai, os da mãe ou os de ambos.

O nascimento do neto do Senhor da Murtosa

Sendo o quarto filho-homem da família a nascer foi, desde logo, decidido dar-lhe o nome do avô paterno, falecido dez anos antes, em homenagem ao senhor da Murtosa e dono da Capela da Senhora do Carmo. Assim, Salvador Carvalho de Assis, nasce no dia 5 de Novembro de 1795, segundo conta o padre Caetano José da Costa, e foi baptizado no dia oito do mesmo mês.

Era “filho legítimo de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher Dona Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, do Lugar da Murtosa desta freguesia”. Diz o padre Caetano que o recém-nascido era “neto paterno de Salvador de Carvalho e de sua mulher Dona Florência da Silva Reis, do dito lugar”. E era neto materno de “Sebastião Alberto Pacheco Varela, da Vila de Arrifana, e de sua mulher Dona Maria de Sá Mascarenhas. Foram padrinhos o seu avô materno e madrinha devota Senhora das Dores. Testemunhas o Reverendo José Leite de Oliveira e Domingos, solteiro, familiar da Casa, do dito lugar”.

O nascimento de Salvador Carvalho de Assis foi um acontecimento celebrado por toda a família na época, pelo que foi decidido, desde logo, dar-lhe o nome do avô paterno.

A sua morte, porém, estaria envolta em tragédia, ao morrer na Praia do Furadouro, onde se encontrava a banhos, não deixando descendentes.

Nascimento e morte do irmão José Manuel

1793 - 14 - José, nascimento1793 - 15 - José, nascimento

Vinte e dois anos antes da morte de Salvador, tinha falecido o seu irmão mais velho dois anos, José Manuel Assis de Carvalho Pereira, Major de Cavalaria, que tinha sido quem o incentivou a seguir a carreira das armas e a ingressar no Exército.

José Manuel faleceu com apenas 51 anos de idade, no dia 28 de Novembro de 1844, tendo sido sepultado no Adro da Igreja de Mosteirô. Não fez testamento, pelo que não se sabe quem nomeou como herdeiros dos seus bens patrimoniais existentes no Lugar da Murtosa.

O Major José Manuel Assis de Carvalho tinha nascido a 27 de Março de 1793, no Lugar da Murtosa, e o seu baptizado, presidido pelo cura Caetano José da Costa, foi uma ocasião festiva em que acorreram numerosos familiares, não apenas de Mosteirô, mas também de Arrifana, de Souto e de Carregosa. Teria como padrinhos, o seu tio-avô Manuel José de Carvalho Perira da Silva Coelho, que veio expressamente de Carregosa, e madrinha Quitéria Joaquina Rosa Felizarda de Azevedo, casada, do Lugar de Macieira, em Souto. Como testemunhas do baptismo aparecem o Doutor Fernando José Marques Soares, da freguesia de Arrifana, e Manuel José de Oliveira Dias, da freguesia de Mosteirô.

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Destaque

Antero Andrade e Silva, emigrante nos EUA

A sua passagem por New York e New Jersey ficou registada em livro de memórias a que deu o nome de “Recordation Book of U.S.America 1920-1933”

No princípio da sua actividade adulta, sem amarras que o prendessem à terra, Antero Andrade e Silva decidiu emigrar para os Estados Unidos da América à procura, naturalmente, de mudar as circunstâncias da sua vida em Mosteirô.

Tinha somente 18 anos de idade quando chegou a Nova Iorque.

Aí permaneceu durante três anos, mudando com frequência de emprego, tal como todos os outros emigrantes, muitas vezes aceitando trabalhos pesados, sempre com um objectivo em mente, o de amealhar o dinheiro que lhe permitisse voltar para Portugal e lançar o seu próprio negócio.

As dificuldades encontradas não o fizeram esmorecer. Com efeito, o relato da passagem pelos Estados Unidos deste nosso conterrâneo, conforme ele próprio nos conta, mostra que a sua vida não foi isenta de escolhos, os quais foi ultrapassando, nem se viria a tornar numas férias do outro lado do Atlântico.

A tenacidade não era a sua única virtude. O rigor que colocava na sua actividade e no relacionamento com os amigos, tornou-o uma pessoa parcimoniosa, em que cada cêntimo contava, e conseguindo, no fim desta etapa, amealhar uma quantia suficiente para regressar a Portugal e montar a sua própria empresa.

À medida que ia ganhando dinheiro, ia saldando dívidas contraídas e enviando para Portugal o remanescente. Neste período enviou algumas quantias para um conjunto de pessoas, as quais lhe tratavam de assuntos em Portugal, nomeadamente a irmã Luciana, Arnaldo Resende, Dr. Rodrigo, Cândido Andrade, Maria Neta, Dr. Aquiles ou António Peralta.

Quando desembarcou em Lisboa, tinha completado 21 anos de idade.

No preâmbulo do seu livro “Recordation Book of U.S.America 1920-1933”, publicado em 1999, o seu filho Terinho escreve que, para apreciar a forte personalidade de Antero Andrade e Silva, “importa conhecer as dificuldades nos primórdios da sua vida e a coragem, ânimo e fé com que encarou situações críticas e dolorosas”.

As dificuldades iniciais nos Estados Unidos

Antero Andrade e Silva chegou aos Estados Unidos, à cidade de Nova Iorque, no dia 13 de Dezembro de 1920. E conta que “no dia 14 do mesmo mês, fui ter com o Alfredo a Elizabethport”, uma cidade do Estado de New Jersey na época com cerca de 95.000 habitantes e que dista 30 quilómetros de Manhattan, atravessando o Rio Hudson, e no dia seguinte iria encontrar-se com Silvério Semana em Brooklin, do outro lado do East River.

Passou alguns dias viajando de um lado para o outro “a ver se conseguia trabalho, o que me foi impossível”, voltando por isso para Elizabethport.

Não encontrando trabalho, viu-se na contingência de pedir dinheiro emprestado aos amigos Alfredo, 20 dólares, e ao João Pedro, 50 dólares, tendo pouco depois saldado as dívidas. Já no princípio de 1921, conta no seu livro:
“Cheguei a princípios de Março desempregado. No dia 11 do mesmo mês, empreguei-me numa fábrica de fazer brinquedos, em Elizabethport. Estive na dita fábrica até ao dia 11 de Maio. Aqui ganhei 142,70 dólares”.

Como o trabalho na fábrica não compensava, Antero pede novo empréstimo de 35 dólares ao amigo Alfredo e vai à procura de emprego para Mount Kisco, uma pequena cidade do Estado de Nova Iorque que, naquela altura, tinha cerca de 4.000 habitantes, e dista 70 quilómetros de Manhattan.

No dia 22 de Maio de 1921 arranjou trabalho numa pedreira daquela região e ali ficou a trabalhar até ao dia 3 de Novembro desse ano, onde ganhou 546,35 dólares, liquidando a dívida que tinha para com Alfredo, e regressando a Elizabethport no dia seguinte.

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Cidade de Mount Kisco

Vida de emigrante: Trabalhos mal pagos

A vida de emigrante do nosso conterrâneo por terras da América não foi fácil. Tal como uma grande parte dos nossos compatriotas por esse Mundo fora, Antero teve de procurar empregos que lhe pagassem melhor e, muitas vezes, sujeitar-se a trabalhos duros e mal pagos. Passou meses em deslocação, sobretudo entre New Jersey e Mount Kisco, em busca de oportunidades com melhoria salarial.

Para tal, trabalhou numa fábrica de alcatrão em Elizabeth, ao dia nas granjas e pedreiras de Mount Kisco, em fábricas de brinquedos e de sabão, em todo aquele tipo de empregos a que os emigrantes estão sujeitos, não só nos Estados Unidos mas também em qualquer país da Europa.

No final de 1921, escreve Antero Andrade e Silva: “Empreguei-me no dia sete deste mesmo mês de Novembro numa fábrica de fazer pixe (alcatrão preto proveniente da destilação da hulha). Saí da fábrica do pixe em 7 de Janeiro de 1922 e trabalhei na dita fábrica 2 meses. Empreguei-me na fábrica dos brinquedos a 16 de Janeiro de 1922. Desempreguei-me da fábrica de brinquedos, por ganhar pouco, no dia 1 de Março de 1922.”

Esta situação, fez com que tivesse de deixar Elizabethport e regressar a Mount Kisco no dia 5 de Março, indo trabalhar para uma granja “no dia 7 do mesmo mês; estou ganhando 2,50 dólares por dia”, tendo passado a ganhar 3,50 dólares na mesma granja. “No dia 14 de Junho mudei da farm para a pedreira, a ganhar 15,00 dólares a trabalhar com uma máquina”.

Porém, durou pouco tempo e, no dia 2 de Julho, saiu outra vez de Mount Kisco e regressou uma vez mais a Elizabeth. Seria na Procter & Gamble que encontraria o trabalho mais estável nos três anos em que foi emigrante nos Estados Unidos.

“Empreguei-me na Grasselli no dia 5 do mesmo mês. Saí da Grasselli para a Procter Gamble Co, fábrica de sabão, em 12 de Julho de 1922, até vir para Portugal, em 9 de Novembro de 1923. Saltei em Lisboa a 20 de Novembro de 1923. Cheguei a Mosteirô a 22 de Novembro de 1923, coloquei-me a passear e a dormir, continuei a falar com a Felisberri até Junho de 1924”, conta Antero Andrade e Silva.

Durante toda a sua estadia nos Estados Unidos, Antero iria manter uma rigorosa contabilidade de todo o dinheiro que pedia emprestado, daquele que ia ganhando e do que foi amealhando ao longo dos três anos. Quando chegou finalmente a Portugal tinha ganho, a trabalhar no duro nos Estados Unidos, um total de 5.890,66 dólares, equivalente a 113.971 dólares de 2019.

O nascimento e a escola primária

Antero Andrade e Silva nasceu em Mosteirô, no Lugar de Agoncida, no dia 24 de Outubro de 1902, pelas seis horas da manhã. Era filho de Josefino da Silva Bento, canteiro, com uma pedreira em Mosteirô, e de Maria d’Andrade de Jesus, natural de Ovar, e moradores no referido lugar. Foram padrinhos os avós maternos, João da Graça Affreixo e Ana Maria de Jesus, lavradores de Ovar.

Viveu em casa dos pais no lugar de Agoncida e, aos 7 anos de idade, matriculou-se na Escola Pública mista de Mosteirô, que funcionava no Lugar de Proselha, no dia 5 de Outubro de 1909, para frequentar a Primeira Classe, tendo no final do ano escolar passado para a Segunda Classe. Frequentou a escola até à quarta classe. Décadas mais tarde a escola de Proselha passou a ser unicamente para rapazes.

Nos registos da escola aparece como Anthero da Silva Bento, o que era comum naquela época em que se atribuíam aos rapazes os apelidos do pai e às raparigas os apelidos da mãe. Ainda frequentou durante algum tempo a mesma escola com as suas irmãs Luciana, Aurora e Emília. Mais tarde, os irmãos mais novos já vão aparecer nos registos escolares com o apelido de Andrade e Silva.

O regresso à terra natal e as dificuldades iniciais

Após o seu regresso a Mosteirô, em 9 de Março de 1924, Antero tomou conta da pedreira do pai, Josefino da Silva Bento, a qual se situava no Lugar do Monte, e dedicou-se ao trabalho da construção civil, como empreiteiro. E conta que “em Setembro de 1924, dei princípio a uma nova obra no lugar do Aguincheiro.” E acrescenta: “Termino o ano de 1924 com a obra a receber as últimas padieiras, continuando eriçado namoro com Deolinda Serrano.”

O ano de 1925 iria começar “com bastantes complicações na vida e falta de serviço”, conta Antero Andrade e Silva. Entretanto o namoro com a jovem da família Serrano vai tendo desenvolvimentos e a 7 de Janeiro desse ano decidem casar-se. O casamento teve lugar no dia 14 de Janeiro de 1925, na Igreja de Souto, com “a senhorita Deolinda Ferreira Brandão Andrade e Silva, passando a residir em Souto”, em casa própria.

Antero Andrade e Silva e Deolinda Ferreira Brandão Serrano

A 1 de Março desse ano conta uma nova peripécia: “passava eu de bicicleta no Lugar do Morouço quando atropelei a Joaquina do Tamanqueiro, deixando-a em estado grave de saúde.”

Os problemas não acabaram por ali, diz o nosso conterrâneo. “Em princípios de Março adoeceu a Deolinda”. Para piorar a situação, “a 8 de Julho estive entre a vida e a morte, com um grande ataque de pleuresia friorite. Esta doença durou-me aproximadamente dois meses, estando um mês de cama, sofrendo bem.”

No dia 3 de Outubro, Antero e Deolinda mudaram-se para o Lugar de Agoncida, em Mosteirô, “com a casa ainda por terminar, de trolha”. No dia 10 Dezembro desse ano dá-se um acontecimento feliz, aquando do nascimento “às dez horas da manhã desse dia” do primeiro filho do casal que seria “baptizado a 6 de Janeiro, dando-se-lhe o nome de Porfírio”.

No entanto, as coisas não correram bem, uma vez que “a Deolinda esteve bastante doente do parto; foram necessárias 10 visitas médicas e mais coisas”, segundo conta o marido.

Conflitos entre comerciantes

“A 16 de Janeiro, abri o meu novo estabelecimento e mercearia, isto, já em 1926, estando na nossa companhia a minha cunhada Emília”. Esta iniciativa não seria, no entanto, do agrado dos comerciantes da terra, que sempre odeiam o aparecimento da concorrência. “Passados dias desta data, todos os negociantes cá da terra me queriam mal, em virtude de eu ter aberto o meu novo estabelecimento”.

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Pedreiras de Mosteirô

“Em Março deste ano de 1926, fiz novo contrato com o meu pai, da pedreira, ficando com todo o serviço e ele com metade dos lucros”.

No entanto, as relações entre ambos não corriam bem e “em 29 de Maio, deixei a pedreira ao meu pai em virtude de eu não gostar das palavras que ele me dirigiu nesse dia.”

Antero foi continuando com o negócio de mercearia e vendendo algumas pedras por fora. Mas, a 3 de Setembro de 1926, os problemas batem-lhe novamente à porta. “Caio de novo na cama, com um ataque de gripe passando a uma pleuresia esquerda, de que resultou a pulsão de dois litros e meio de água e em princípios de Outubro, encontro-me bastante melhor”.

Não foi o único a ficar doente, porquanto no mesmo período Deolinda e o filho também são apoquentados pela doença, com uma forte interite.

“Ainda não estava restabelecido, quando sou mais uma vez atingido por uma forte febre que se elevou aos 40 graus. Melhorei após uns vinte dias de cama e mais visitas ao médico.”

A 29 de Dezembro de 1926, Deolinda daria à luz uma menina à qual foi dado o nome de Eulália e que seria baptizada a 6 de Janeiro do ano seguinte.

Em Julho de 1927, Antero Andrade e Silva iria dar início a uma empreitada em S. João de Ovar. Conta que se deslocou com Deolinda a Lisboa, no final desse ano, para receber o pagamento da obra, tendo liquidado as dívidas que tinha acumulado até aquela data.

A 16 de Março de 1928, nasceria o segundo filho do casal a quem foi dado o nome de Fausto.

Manuscrito do livro de memórias

Acidente em Fornos e o drama da morte de Deolinda

A 15 de Agosto desse ano, depois de ter iniciado uma empreitada da estrada do Sobral, foi com toda a família às Festas da Senhora da Saúde, na vizinha freguesia de Fornos, “no automóvel do António, apanhando um choque com a camioneta do Inácio, do qual resultou ficar o carro bastante danificado e nós ligeiramente feridos”.

Mas este não seria o único acidente. Meses mais tarde, um mais grave iria atingir a cunhada Emília, quando esta “ia tirando de um tambor de carboneto um resto que havia no fundo, levando consigo uma vela, este explodiu, queimando-a toda no rosto, pescoço, braços, etc., melhorando depois.”

Este acidente e as suas sequelas fizeram com que a cunhada Emília Serrano tivesse uma aprendizagem de tratamento de feridas provenientes de queimaduras graves e se tornasse posteriormente em alguém a quem as pessoas da aldeia recorriam em casos semelhantes.

Infelizmente, o pior ainda estava para vir. “ No dia 3 de Fevereiro de 1929 , pelas onze horas da noite, a Deolinda deu à luz um menino, do que resultou a morte dela no dia 12 do mesmo mês, e mesma hora, apesar da assistência de três médicos, e um, duas vezes diárias.”, conta-nos Antero no seu livro de memórias.

Para Antero Andrade e Silva seria um choque tremendo, ao ver que Deolinda não se salvou, a mulher que ele “mais amava no Mundo”. No seu desespero, clama contra tal “injustiça”, dizendo: “Morreu aquela santa, precisamente no dia e hora em que completava 29 anos de idade; e saiu o funeral, no dia e hora em que fazia 4 anos que jurámos de mãos juntas pelos Santos Evangelhos que nos amaríamos e seríamos dois num só corpo. Assim foi, mas Deus só nos quis ver juntinhos 4 anos, deixando-me com os quatro filhinhos, e a pobre irmã também sem pais.”

A 14 de Fevereiro seria baptizado o recém-nascido, a quem foi dado o nome de Antero, pois teria sido essa a última vontade de Deolinda.

O desespero resultante deste drama dar-lhe-ia vontade de voltar a emigrar, segundo conta: “Continuei com a triste vida de ver os meus quatro filhinhos sem mãe na terra, desorientado, pouca vontade de trabalhar, vontade de embarcar para o Brasil ou África, do que fui desviado por meus irmãos.”

Casa com Emília e aplica a energia nos negócios

A pedido de Deolinda, antes de falecer, Antero casa com a cunhada Emília, considerando que esta seria a pessoa mais adequada para estimar e educar os filhos. Deste casamento nasceriam sete filhos

Seria depois do nascimento de Nuno, o seu primeiro filho com Emília, que começou “a trabalhar com mais energia em pedreiras e grandes fornecimentos de cascalho. Lança-se nos negócios, adquirindo propriedades e participando em empreitadas de estradas da Câmara de Ovar e conseguindo uma grande empreitada fora da região, em 1932, de calçada à portuguesa da Estrada Nacional Nº 10, a antiga estrada do Algarve, que lhe foi adjudicada por 438 contos e que lhe traria “um bom lucro.”

É por esta altura que forma uma sociedade para exploração de pedreiras e para as empreitadas com o seu irmão Gil Andrade e Silva e com o cunhado Manuel Gonçalves, marido da sua irmã Aurora, “mas este apenas nas empreitadas”.

“Em Setembro deste mesmo ano”, diz-nos Antero Andrade e Silva, “comprei um automóvel e fiz uma troca de mota por outra nova, em virtude das muitas e longas viagens que venho realizando”.

Mais tarde, nos anos 1950, a sua paixão pelos grandes carros americanos, que herdou da sua passagem pelos Estados Unidos, levá-lo-ia a adquirir um Chevrolet Impala, um carro único em toda região.

No final de 1932, escreve Antero, “concorri a uma grande empreitada de Estarreja à Béstida, onde se diz que vou perder muito dinheiro, que ficarei desgraçado com esta empreitada, etc. Fechei o ano com lucros razoáveis.”

“Ao princípio de 1933, dei começo aos trabalhos na empreitada de Estarreja com grande afã, com receio que saísse acertado o que dizem os meus colegas e mais povo, que irei perder nesta empreitada mais de 300 contos.” E finaliza acrescentando: “Tudo correu regular durante este ano, mas com algumas doenças em casa.”

Os anos da prosperidade e da amargura

Termina aqui o manuscrito das memórias de Antero Andrade e Silva. Fica a imagem de um português arrojado, um empreendedor que assume os riscos, um self made man que, apesar de vir de um mundo rural e pobre, parte para terras distantes, com outra língua, mas uma terra de oportunidades, e enfrenta os desafios que lhe vão colocando a vida e os concorrentes.

Fica também a imagem de alguém que sofre, aos 27 anos de idade, uma espécie de abalo telúrico com o desgosto da morte de Deolinda, que o tornará um homem amargurado para o resto da vida.

A sua estadia nos Estados Unidos dar-lhe-ia competências que dificilmente teria adquirido na sua aldeia natal e fazem com que se torne num homem cosmopolita, com uma visão que vai para além das Terras de Santa Maria e das querelas mais provincianas.

Os trabalhos nas pedreiras de Mount Kisco e na fábrica de alcatrão de Elizabethport vão-lhe dar o suporte para a ousadia de se lançar como empreiteiro de obras públicas em Portugal.

Luanda
Porto de Luanda, anos 1950

A sua impaciência lavá-lo-á a procurar desbravar novos desafios – mesmo depois de os irmãos se oporem à sua ida para África – e ir instalar-se em Angola. Quando aí chega em 1950, encontra um país onde é quase preciso começar do zero. Diz o pintor Cruzeiro Seixas que, naquela altura, havia somente 70 quilómetros de estrada alcatroada em toda a colónia portuguesa.

Para ir para Angola, fretou um barco para levar, além de pessoas, toda a maquinaria que era necessária para fazer as obras. Muitas pessoas que seguiam no barco, senão a totalidade, eram de Mosteirô. Da família, quem partiu inicialmente seria o casal Antero e Emília, e os filhos Terinho, Ivo e Celina, esta ainda bebé.

Angola ainda não tinha um aeroporto mas era uma terra de oportunidades, na visão de Antero, e aí iria começar com uma empresa de obras públicas. Estava tudo por fazer. As estradas entre as principais cidades eram em terra batida, as famosas picadas. Com muito trabalho, transformaria a empresa inicial numa das maiores de toda região africana. A empresa passou a sociedade anónima, com os filhos a entrarem como acionistas e fazendo questão de dar participações a todos os trabalhadores que tinham ido de início com ele de Portugal, uma iniciativa própria do capitalismo popular em voga nos Estados Unidos.

Antero Andrade e Silva faleceu na Vila da Feira no dia 19 de Novembro de 1974, após doença prolongada. Não chegou, por isso, a assistir ao que aconteceu em Angola nos anos seguintes.

A casa de Agoncida na actualidade e em construção em 1925

Destaque

Vida e morte dos filhos da escrava mulata Teodósia

Foi o primeiro baptismo realizado na Igreja Nova de Mosteirô, ou um dos primeiros, logo a seguir à inauguração do templo no ano de 1764

Corria o mês de Agosto de 1764, por altura da inauguração da Igreja Nova de Mosteirô, em Proselha, quando se soube em toda a terra que Teodósia, mulata, escrava em casa de Domingos Ferreira Brandão, na Quinta da Murtosa, teve um filho.

Muito se especulou acerca de quem seria o pai da criança mas o facto é que no seu registo de nascimento diz-se que o progenitor não foi identificado. Ao que parece a criança nasceria debilitada pelo que foi decidido baptizá-la em casa do dono da escrava, e de seguida baptizada pelo cura da paróquia com todos os trâmites da época na própria Igreja.

Tratou-se possivelmente do primeiro baptismo realizado na Igreja Nova, ou um dos primeiros realizados logo após a inauguração do templo. Conta o padre da época que:

“Lourenço, filho natural de Teodósia, mulata, escrava de Domingos Ferreira Brandão, do Lugar da Murtosa, freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, nasceu aos dez dias do mês de Agosto de 1764 e foi baptizado sub condicione por mim o padre Joaquim José Henriques, cura desta dita freguesia, por necessidade Ana Maria Correia de Sousa mulher de Domingos Ferreira Brandão, dito acima, o baptizara em casa e por ter dúvida sobre o seu valor e que sub condicione o baptizei e pus os santos óleos aos treze dias do dito mês e ano. Foram padrinhos João da Silva, solteiro, Barbeiro, filho de António da Silva Barbeiro, desta dita freguesia, e madrinha a dita Ana Maria. E testemunhas, o reverendo padre António Leite Gomes e José de Resende, desta freguesia, e declaro que não deu pai, em verdade de que fiz este assento.”

Murtosa

A especulação no Lugar da Murtosa ainda durou algum tempo, uma vez que se dizia que o menino seria filho do próprio Domingos Ferreira Brandão, o proprietário da escrava Teodósia, facto que nunca seria comprovado, tanto mais que, dois anos depois, o menino viria falecer certamente devido às debilidades encontradas após o parto. Teve um funeral digno de filhos de gente importante como atesta o registo do seu falecimento realizado pelo mesmo padre que o tinha baptizado e que reza o seguinte:

“Lourenço, filho de Teodósia, escrava de Domingos Ferreira Brandão, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, faleceu da vida presente aos vinte e seis dias do mês de Julho de 1766. Tinha de idade um ano e onze meses.”

Lourenço seria sepultado dentro da Igreja da Mosteirô, tendo o seu funeral sido acompanhado por três padre-nossos e por uma missa cantada da Irmandade do Mártir. E acrescenta o Padre Joaquim José Henriques “que tudo pagou o dito Domingos Ferreira Brandão e também pagou as ofertas”.

Pouco depois, no dia 10 de Março de 1768 viria a falecer o próprio dono de escravos, Domingos Ferreira Brandão, com a idade de 57 anos, em sua casa do lugar da Murtosa. Deixaria a sua mulher Ana Maria Correia de Sousa como testamentária responsável por cuidar dos seus bens da alma, com ofício de corpo presente, 21 padre-nossos e ofícios gerais com música.

Teodósia dá à luz mais um filho

Quatro anos depois da morte de Lourenço e dois anos depois do falecimento do dono da Quinta da Murtosa, a escrava Teodósia iria dar à luz mais um filho que viria a ser baptizado pelo mesmo padre de Mosteirô, que conta o seguinte no registo de baptismo:

“Simão, filho natural de Teodósia, escrava de Ana Maria Correia de Sousa, viúva que ficou de Domingos Ferreira Brandão, do Lugar da Murtosa, desta freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, nasceu aos vinte e seis dias do mês de Outubro de mil setecentos e setenta. Foi baptizado solenemente aos vinte e oito dias do dito mês e ano, por mim padre Joaquim José Henriques, cura da dita freguesia. Foram padrinhos Álvaro José de Azevedo, da freguesia de Macieira de Cambra, e Teresa, filha de Manuel Soares, da freguesia de Ossela, ambos do bispado de Coimbra, e testemunhas João Lopes, de Proselha, e António Valente, solteiro, do Barreiro.”

Como era tradição naquela época, um filho de escravo ficava automaticamente a pertencer ao dono de escravos, a menos que aparecesse um pai a reclamar o filho, e ficava a viver e trabalhar nas terras desse proprietário.

Foi o que aconteceu com Simão, o filho de Teodósia e irmão do já falecido Lourenço, que cresceu na Quinta da Murtosa e ali começou desde muito cedo a trabalhar na casa de Ana Maria Correia de Sousa.

1770 - 72 - Simão, filho da escrava Teodósia

No entanto, a sua vida seria bem curta, uma vez que viria a morrer aos 12 anos de idade, na casa que o viu nascer. Curiosamente, o registo da sua morte, embora sendo realizado pelo mesmo padre que o baptizou, já não faz qualquer referência à sua mãe, a escrava mulata Teodósia. Conta o dito assento:

“Simão, escravo de Ana Maria Correia de Sousa, viúva do Lugar da Murtosa, desta freguesia de Mosteirô, comarca da Feira, faleceu da vida presente aos cinco dias do mês de Janeiro de 1783, com os sacramentos da penitência e da extrema-unção. A dita Ana Maria lhe mandou cantar uma missa de corpo presente de três padre-nossos, no coro.”

A morte da senhora da Murtosa

Só muito mais tarde, já em pleno século XIX, é que viria falecer Ana Maria Correia de Sousa, 46 anos depois da morte do marido.

Já o padre Joaquim José Henriques também tinha falecido e coube ao padre João Pereira Gomes registar o acontecimento:
“D. Ana Maria Correia de Sousa, viúva da Murtosa, freguesia de Santo André de Mosteirô, faleceu a 14 de Setembro de 1814, tendo recebido todos os sacramentos, e foi sepultada dentro desta igreja, de idade de 80 anos, e dizem que o seu filo Manuel Ferreira é obrigado a fazer os seus bens da alma”, acrescentando à margem do registo: “Teve 1º ofício de 40 padre-nossos, 2º e 3º de 17 e foi sepultada na sua sepultura particular da sua casa.”

Os avós paternos do General Sousa Brandão, Domingos Ferreira Brandão e Ana Maria Correia de Sousa, tinham casado na Igreja de Mosteirô a 25 de Junho de 1756. Domingos Ferreira Brandão, natural de Ossela, nessa época pertencente ao bispado de Coimbra, e Ana Maria Correia de Sousa, natural de Arrifana, tiveram como padrinhos do casamento o Alferes Estêvão Gomes Correia e António Gomes da Costa.

Na altura do casamento, a avó de Sousa Brandão, Ana Maria Correia de Sousa, vivia na Casa da Murtosa, pertencente ao seu tio, o Alferes Estêvão Gomes Correia.

A avó do general Sousa Brandão, Ana Maria Correia de Sousa, era filha do Capitão Manuel Tomé de Pinho e de Maria Teresa de Sousa, e neta de João de Sousa e Luísa Gomes, todos da Arrifana. Por sua vez, o capitão Manuel Tomé de Pinho era filho Manuel Tomé e Isabel de Pinho, também da Arrifana.

1814 - 56 - Ana Maria Correia de Sousa2

O avô de Sousa Brandão, Domingos Ferreira Brandão, era filho de Domingos Fernandes e de Maria Brandão, neto paterno de Pedro Jorge e Águeda Fernandes e neto materno de João Fernandes e Maria Ferreira Brandão, todos de Ossela, do bispado de Coimbra.

O primeiro habitante da Casa da Murtosa foi justamente o Capitão Carlos Correia de Sousa, a quem em 1549 o Rei D. João III concedeu o brasão dos Correias, que se encontra actualmente na fachada da casa de Sousa Brandão e que se pode ver claramente por cima da capela.

Os baptismos na Igreja Nova

Por altura da inauguração da Igreja Nova de Mosteirô no Verão de 1764, foram baptizadas três crianças, embora não se saiba ao certo se terão sido baptizadas ainda na Igreja Velha, uma vez que apenas se sabe que o primeiro funeral realizado na Igreja Nova ocorreu a dez de Setembro desse ano e o último realizado na Igreja Velha tinha sido em Julho.

De qualquer modo, entre Agosto e Dezembro de 1764, foram baptizadas ao todo seis crianças na Igreja Nova, possivelmente logo após a sua inauguração, uma obra monumental para a época, tanto mais que se tratava de uma freguesia pequena que teria pouco mais de 290 habitantes.

Para além daqueles que tinham pai e mãe, naquele ano houve dois casos pouco comuns na nossa aldeia, como foi o caso do nascimento do filho da escrava Teodósia e do aparecimento de uma menina enjeitada em Agoncida à porta das filhas de Manuel da Silva

Assim, a 13 de Agosto desse ano, seria a vez de se realizar o baptismo de Manuel, filho de Manuel Ferreira dos Santos e de Joana da Silva, do Lugar do Campinho. Era neto paterno de Manuel Ferreira e de Josefa dos Santos, de Mosteirô, e neto materno de Manuel da Silva e de Ana Francisca, do lugar do Ferral, em Souto. Foi baptizado a 17 de Agosto pelo mesmo padre cura. Foram padrinhos Manuel José de Resende, do lugar de Proselha, e Maria, filha de António Soares, do lugar do Monte. As testemunhas seriam o dito António Soares e Manuel Gonçalves Valente, todos da freguesia.

Por sua vez, a 21 de Agosto de 1764, nasceria Maria, filha de António Ferreira e de Maria Valente, neta paterna de Gregório Rodrigues e de Catarina Ferreira, do lugar de Cabomonte, freguesia de Souto, e neta materna de Manuel António e de Maria Valente, de Mosteirô. Foi baptizada pelo dito padre cura no dia 26 de Agosto desse ano. Foram padrinhos António, filho de Manuel Francisco, e Maria, filha de Maria de Jesus, viúva que ficou de Manuel de Azevedo. Foram testemunhas Manuel, filho de Maria de Jesus, e o dito Manuel Francisco.

A 3 de Outubro, seria a vez de Ana, filha de Alexandre Pimentel de Sousa e de Maria Teresa de Jesus, do lugar de Mosteirô, neta paterna de António do Couto Pimentel e de Felícia Teresa de Jesus, do lugar de Agoncida, e neta materna de Manuel António Martins e de Caetana de Pinho, do Lugar do Monte. Foi padrinho o capitão Manuel Marques Ferreira e testemunhas António Soares e António Manuel de Resende.

Entretanto, a 8 de Outubro do ano da inauguração da Igreja Nova de Mosteirô, nasceria António, filho de Domingos Pereira e de Teresa Francisca da Silva, do Lugar do Vale, da freguesia de Mosteirô. Era neto paterno de Francisco Pereira e de Maria da Costa, do mesmo lugar, e neto materno de Manuel da Silva e Ana Francisca, do lugar do Ferral, em Souto. Foram padrinhos António Vieira dos Santos, solteiro, filho de Domingos Vieira, do lugar do Ferral, e Ana, filha de Manuel António dos Santos, de Mosteirô, sendo testemunhas Manuel José de Sousa, do lugar da Sernada, e José Rodrigues, de Mosteirô.

Maria, enjeitada

No último mês do ano, na noite de quatro para cinco de Dezembro de 1764, é deixada uma criança recém-nascida no Lugar de Agoncida à porta da casa de Joana Gomes da Silva e das suas irmãs, filhas de Manuel da Silva. Não era acompanhada de cédula nem sinal algum que a pudesse identificar ou que pudesse informar se teria sido baptizada.

De pronto, o irmão de Joana, Estêvão Gomes da Silva, dirigiu-se à Igreja de Mosteirô solicitando o auxílio do padre Joaquim José Henriques, tendo este mandado outro padre tratar do assunto. Coube ao padre Bento Gomes Brandão, também ele de uma família do lugar de Agoncida, proceder ao respetivo baptizado, que se realizou no dia cinco de Dezembro.

Registada como Maria, enjeitada, teve como padrinhos Manuel da Silva de Carvalho, solteiro, filho que ficou de Manuel Gomes, e Maria de Pinho, mulher de Estêvão Gomes da Silva, do lugar de Agoncida, e como testemunhas António Soares, mestre pedreiro da freguesia do Couto de Grijó, e Estêvão Gomes da Silva, já referido.

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Destaque

O Primo Armindo

Aos domingos, na Rua do Molhe, no Porto, Armindo de Bastos Dias e a sua mulher Maria José Duarte Ribeiro costumavam reunir os familiares e amigos num almoço de confraternização

O primo Armindo não era obviamente um personagem queiroseano, antes pelo contrário, era sobretudo o típico homem do campo que foi para a cidade com a miragem de uma vida diferente daquela que sempre conheceu na sua terra natal, em Mosteirô.

Até aos 12 anos de idade não teve tempo para ir à escola, trabalhou no campo ajudando a mãe nas tarefas diárias da lavoura e ajudou igualmente o pai na profissão de canteiro, indo regularmente à ferraria do Ti Isaac levar e buscar os picões e os cinzeis ou indo a casa buscar o almoço do dia.

Foi por volta dessa idade que o tio Aurélio propôs ao pai levar o Armindo para o Porto, arranjar-lhe lá trabalho e fazendo-o ingressar na escola nocturna para poder completar a quarta classe, pois só assim poderia encontrar um emprego a condizer.

Com a anuência dos pais, foi viver para casa do Tio Aurélio, na Rua Pero de Alenquer, em Nevogilde, tendo trabalhado até aos 14 anos, na freguesia, como auxiliar numa mercearia, onde tinha essencialmente de carregar e descarregar sacos e de levar as encomendas às casas da zona da Foz do Douro.

Foi ao completar os 14 anos que apareceu uma oportunidade que o tio Aurélio lhe proporcionou. Ir trabalhar como cantoneiro de limpeza nos serviços da Câmara Municipal do Porto. Tratava-se de um emprego que lhe iria permitir viver dignamente mas em que teria de se sujeitar à chuva, ao frio ou ao sol, de Inverno e de Verão, empurrando o carro típico daquela época, calcorreando as ruas do percurso diário que lhe era atribuído, e recolhendo todo o tipo de lixo ou de folhas de árvores que se encontravam amontoadas ou espalhados pelo chão.

E foi assim que Armindo de Bastos Dias, anos mais tarde, veio a conhecer Maria José Duarte Ribeiro, ela também uma funcionária das limpezas da Câmara do Porto, mais nova do que ele, e que era responsável pelos duches da Praia do Molhe, na Foz do Douro.

Farda e carro do cantoneiro
A farda e o carro do cantoneiro

Continuaram a namorar durante alguns anos e, já perto de completar os 30 anos, Armindo propôs casamento a Maria José. Meses mais tarde viriam a casar na Conservatória do Registo Civil do Porto no dia 17 de Junho de 1939. O enlace matrimonial contou com a presença dos familiares de Armindo Bastos Dias, que vieram expressamente de Mosteirô, e dos familiares de Maria José Duarte Ribeiro que vieram de Oliveira do Douro, concelho de Cinfães do Douro. O casamento teve ainda a assistência dos familiares e amigos de Nevogilde e da Foz do Douro, nomeadamente dos primos de Armindo Bastos da Rua do Molhe e da Rua Pero de Alenquer.

Os almoços de Domingo na Rua do Molhe

O primo Armindo era uma pessoa pacata e sensata, que não apreciava confusões. Mas ele e a mulher Maria José Duarte Ribeiro gostavam de reunir ao Domingo ao almoço os familiares para uma tarde de conversa e de confraternização.

Do casamento de Armindo e Maria José nasceria um filho, Jorge de Bastos, que ficaria a viver na casa dos pais, mesmo depois do seu casamento com Maria Aurora. Naquela época, quando se saía da beira-mar e se subia pela Rua do Molhe as casas de Nevogilde, tirando algumas da classe média, eram habitações pequenas, com uma sala, uma cozinha, dois ou três quartos, e um quarto de banho nas traseiras, normalmente onde era cultivada uma pequena horta. As habitações apalaçadas encontravam-se já perto da beira-mar, especialmente na Avenida de Montevideu, na Rua Marechal Saldanha e na Rua de Gondarém.

O casamento de Jorge de Bastos e de Maria Aurora teve lugar no dia 15 de Agosto de 1961, e contou com a presença de muitos familiares, tanto moradores no Porto como os que vieram expressamente de Mosteirô e de Oliveira do Douro.

Quanto aos almoços de Domingo juntavam sempre mais de uma dezena de pessoas, em particular a prima Maria da Silva Bastos que morava na Rua Pero de Alenquer, o Tio Aurélio que morava na mesma rua, numa casa ao lado, a prima Rufina Correia que morava na Rua Marechal Saldanha, para além de outros elementos que vinham de eléctrico para o convívio. Maria da Silva Bastos, na altura a trabalhar na TAP, costumava contar histórias das suas viagens, embora o que todos queriam saber é quando ela “ iria assentar e casar”, uma vez que se pensava que ela namorava um piloto da TAP que se chamava João Paulo, coisa que nunca ninguém conseguiu comprovar.

Praia do Molhe
A Praia do Molhe

O Primo Armindo gostava de estar de acordo com toda a gente. Se lhe perguntavam
oh Primo, você não acha que este ano a procissão foi fraquinha?
Ele respondia:
Também achei o mesmo.
Mas se viesse alguém, passado um bocado, que lhe dissesse:
oh senhor Armindo você não achou que a nossa procissão este ano foi das melhores?
Olhe que penso o mesmo, respondia ele.
Fazia-nos lembrar a Ti Escolástica, lá de Mosteirô, que aparecia ao Domingo, de porta em porta, a vender café e regueifa e que também tinha o mesmo registo, e dizia “amém” com todos.

A única pessoa que ele às vezes contradizia era o Tio Aurélio. Estiveram quase três anos sem se falarem e, quando fomos ver a Fórmula Um à Boavista, o Primo Armindo não nos quis acompanhar. Era quase uma posição de princípio.

Tudo começou por ocasião das eleições em que Humberto Delgado concorreu. O Tio Aurélio “era do contra” e tinha participado no ajuntamento que houve no descampado junto ao Mercado do Bom Sucesso, na Boavista, e no grande comício do general na Praça Carlos Alberto. Quando voltou do comício, o Tio Aurélio trazia uns papeis a apelar ao voto em Humberto Delgado e deu um ao Primo Armindo. Foi a gota de água.

Você sabe que eu sou um funcionário público e não posso fazer política! Exclamou Armindo.

Tu queres viver sempre a apanhar o lixo e a viver à rasca? Perguntou Aurélio.
Você sabe que as paredes têm ouvidos e eu posso ser despedido por ter um papel desses cá em casa.

O Tio Aurélio, irado, saiu porta fora, levando com ele os panfletos. A partir daquele dia, não se falavam e deixaram de frequentar a casa um do outro, até que um dia muito mais tarde, um primo vindo da terra quase que os obrigou a se reconciliar. Creio que foi por ocasião do casamento filho Jorge de Bastos com uma moça da Foz, de nome Maria Aurora e que, pelo casamento, passou a chamar-se Maria Aurora de Bastos.

Nesses almoços de Domingo, na Rua do Molhe, às vezes um acontecimento especial despertava a atenção, nomeadamente as festas, as procissões e o S. João do Porto. Foi o caso do Domingo de 14 de Agosto de 1960. Nessa vez, fomos quase todos para uma casa do Tio Aurélio que ele tinha na Avenida da Boavista. Era uma casa pequena mas que tinha um terraço virado para a Avenida que permitia ver, em lugar privilegiado, o Grande Prémio de Portugal do Campeonato de Mundo de Fórmula Um. Conseguia-se ver perfeitamente os carros a chegarem na curva do Castelo do Queijo e acelerarem pela Avenida da Boavista acima até à Avenida Antunes Guimarães. Dessa vez, levou-se um farnel para poder assistir a toda a corrida que foi ganha por Jack Brabham, seguido de Bruce McLaren e de Jim Clark.

Só o Primo Armindo não nos acompanhou, pois continuava “de mal” com o Tio Aurélio.

10 - pessoal da Foz - 3
Na foto, as primais Maria José Duarte Ribeiro, Maria Aurora e Rufina Correia, com vizinhas

Naquela época, a Foz do Douro, junto ao molhe, era um dos locais privilegiados para se ir passear. O passeio mais comum era o de percorrer os jardins desde a praia do Molhe, passando pelo Homem do Leme, até à praia do Castelo do Queijo, e depois voltar. Outra alternativa era ir desde a Praia do Molhe até ao molhe da foz do rio Douro, passando pela Pérgola. Mas, muitas vezes, o passeio consistia em ir apenas “molhar os pés” à Praia do Molhe, que se encontrava bem à mão.

Mesmo depois da reconciliação o Primo Armindo e o Tio Aurélio, aquando do casamento do primo Jorge de Bastos com Maria Aurora, eles continuaram de costas voltadas, já não havendo aquele clima anterior dos almoços de Domingo e dos passeios à tarde.

De qualquer modo, em Maio de 1962, a antipatia entre os dois foi reforçada por causa da greve do pessoal da Carris do Porto. No Domingo seguinte, o caso veio à baila durante o almoço.

Os teus amigos lá do governo voltaram a fazer das deles, torturando e espancando os funcionários da Carris. Disse o Tio Aurélio.

Foi a gota de água. A partir daquele dia, acho que os dois nunca mais se falaram.
Eu ainda pensei dizer alguma coisa mas, para eles, era apenas um miúdo, pelo que fiquei calado.

É que eu tinha assistido a tudo. Nessa altura, eu trabalhava na Rotunda da Boavista, mesmo ao lado do Tabernáculo Baptista. Quando saímos à hora de almoço para tomar café no Peninsular, que fica do outro lado da Rotunda e do jardim da Boavista, eu e os meus colegas de trabalho deparámos. As oficinas e os armazéns de recolha dos eléctricos eram ali mesmo ao lado, no sítio em que se encontra hoje a Casa da Música, pelo que assistimos à carga da GNR sobre o pessoal da Carris e à intervenção de elementos à paisana da PIDE e da Legião Portuguesa, que espalharam o terror. Junto ao Tabernáculo havia uma carrinha que já se encontrava repleta de homens ensanguentados, com as cabeças partidas, a espera de serem conduzidos para os calabouços da PIDE.

Do outro lado, junto à entrada da estação de caminhos de ferro da Boavista, o cenário era idêntico, enquanto nos jardins da Rotunda, se multiplicavam as correrias dos homens da Carris a fugir à frente da GNR e dos polícias atrás deles para os prenderem.
Nem chegámos a ir tomar café. Um dos tipos à paisana veio perguntar o que é que a gente queria e o que estava ali fazer, ao que um dos meus colegas mais velhos respondeu que só queríamos ir tomar café.

Curiosamente, nesse dia também iria fazer greve. Eu estudava à noite na Escola Oliveira Martins, na Batalha. Quando lá cheguei, perto das seis da tarde, deparo com um ajuntamento de alunos, junto à entrada do edifício. No cimo das escadas, encontrava-se um dos colegas mais velhos a fazer um discurso e a dizer que a nossa escola estava em greve. Passado pouco tempo, o pessoal começou a desmobilizar e a ir embora. Foi a minha primeira greve.

10 - A
Com o primo Jorge de Bastos

O primo Armindo nasceu em Agoncida em 1908

Armindo Bastos Dias nasceu no dia 22 de Janeiro de 1908, no lugar de Agoncida, filho de José António Dias, pedreiro, e de Joaquina Pereira de Bastos. Era neto paterno de Manuel António Dias e de Ana Maria Angelina, e neto materno de Francisco de Bastos e de Ana Pereira Coelho. Teve como padrinho António de Bastos, canteiro, e como madrinha a sua mulher Maria Correia da Silva, moradores no lugar da Agoncida.

Armindo Bastos Dias tinha um irmão, António Bastos Dias, com uma oficina de calçado no lugar de Agoncida, também conhecido por António Magina, e quatro irmãs: Carolina, Josefina, Laurentina e Maria. O casamento dos pais de Armindo Bastos – José António Dias e Joaquina Pereira de Bastos – tinha acontecido ainda no final do século XIX, mais precisamente no dia 17 do mês de Novembro de 1895, na Igreja de Mosteirô. Como se tratava de parentes em terceiro grau de consanguinidade, foi necessária uma autorização especial por parte da Nunciatura Apostólica da petição solicitada, uma vez que eles eram netos dos irmãos Joaquim Coelho Pereira e José Coelho Pereira. Foram padrinhos do casamento os irmãos José António dos Santos e Domingos António dos Santos, lavradores da freguesia.

Os pais do primo Armindo eram descendentes de antigas famílias de Mosteirô e do lugar de Agoncida. Com efeito, o pai José António Dias tinha nascido a 21 de Novembro de 1869, filho de de Manuel António Dias, pedreiro de profissão, e de Ana Maria Angelina, ambos naturais e moradores no lugar de Agoncida, neto paterno de Domingos António Dias e de Teresa da Silva, e neto materno de Joaquim Coelho Pereira e de Ana Maria Angelina. Por sua vez, a mãe, Joaquina Pereira de Bastos tinha nascido a 7 de Janeiro de 1872, filha de Francisco de Bastos, pedreiro de profissão, e de Ana Maria Angelina (tal como aparece no registo), neta paterna de Joaquim de Bastos e de Mariana Rosa da Conceição, e neta materna de José Coelho Pereira e de Joana Maria da Silva. Estes últimos eram igualmente os pais de Maria Joana Pereira dos Santos, mais conhecida como a Mãe Velha, todos do lugar de Agoncida.

Com a passagem dos anos, a ligação à terra natal do Primo Armindo foi-se perdendo. Após a morte dos pais, a única coisa que o ligava a Mosteirô era um pequeno mato, contíguo às terras das primas Palmira Pereira dos Santos e Deolinda dos Santos, no Lugar de Agoncida, do qual veio a desfazer-se mais tarde, vendendo-o a um outro familiar. Veio a falecer na freguesia de Nevogilde no dia 30 de Junho de 1979.

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Destaque

O terrível ano de 1815 em Mosteirô

Uma epidemia devastadora trouxe o sofrimento ao povo da nossa terra, no ano fatídico que atingiu Portugal e provocou milhares de mortos em todo o País

As invasões francesas deixaram um rasto de mortandade entre as crianças e os recém-nascidos de Mosteirô, atingindo a sua máxima intensidade no fatídico ano de 1815, no qual 13 das 20 pessoas que faleceram eram crianças até aos dez anos de idade, incluindo um número significativo de recém-nascidos, em condições deploráveis, devido ao esforço de guerra e às condições que daí resultaram.

Numa época em que a população de Mosteirô atingia um pouco mais de 400 pessoas, naquele ano de 1815 morre quase 5% da população da nossa terra. E, nos nove anos somados, desde o início das invasões francesas, entre 1809 e 1818, pereceram 33 menores, num universo de 107 pessoas falecidas em Mosteirô.

A epidemia de 1815 em Mosteirô atingiu toda a população, mas quem mais sofreu foram as crianças, afectadas por verminoses (provocadas por lombrigas e outros vermes intestinais), a varíola, o sarampo e a escarlatina.

Este surto epidémico e as condições em que as invasões francesas deixaram Portugal, os saques perpetrados pelos franceses em todo o país, com a destruição das colheitas e o roubo do gado, tornaram a vida, já de si difícil existente nos campos, cidades e vilas, ainda mais problemática, com a fome a imperar.

Os maus anos agrícolas que provocavam a fome, aliados às péssimas condições de salubridade e à alimentação rudimentar, à base de couves, batatas e farinha, deixavam todos muito mais vulneráveis às epidemias, especialmente as crianças. A falta de proteínas fazia o resto.

Saldo negativo na evolução da população

Pode-se dizer que nessa época o crescimento da população de Mosteirô parou, havendo mesmo uma regressão em vários desses anos, tal como houve em muitas outras localidades do País. Entre 1809 e 1818 morreram 107 pessoas e nasceram somente 89, com um saldo negativo de 18 pessoas, o que nos dá ideia precisa da dimensão da desgraça que atingiu a população da freguesia nos anos em que duraram as invasões e nos anos seguintes.

Essa comparação fica ainda mais evidente quando verificamos o saldo dos 18 anos anteriores. Com efeito, entre 1791 e Dezembro de 1808, tinham nascido 201 crianças em Mosteirô e tinham falecido 128 pessoas de diversas idades, entre as quais 36 crianças, uma média de 2 crianças por ano, o que significou um aumento efectivo da população, com um saldo positivo de 73 pessoas nesse período. Assim, por altura da Segunda Invasão Francesa, no início de 1809, a população de Mosteirô deveria rondar as 425 pessoas.

Convém recordar que a estatística mais conhecida, anterior a estes anos, data de 1758, o ano em que o padre Joaquim José Henriques, cura da Igreja Antiga, escreve as Memórias Paroquiais de Mosteirô em que nos dava conta da existência de uma população de 288 habitantes na freguesia. Esse é o ponto de partida para podermos comparar e perceber o que aconteceu como resultado das invasões francesas.

Naquela época, para além das mortes em consequência da guerra, as epidemias foram sempre o principal obstáculo ao crescimento da população. Diz Maria Hermínia Vieira Barbosa, da Universidade do Minho, que “relativamente ao século XIX, em Portugal vivia-se, na primeira metade, um período de crise generalizada, sentindo-se um mal estar da sociedade e da economia que se reflectia na evolução da população. Dominavam as grandes crises provocadas pelas Invasões Francesas e o seu rasto de tifo exantemático, pela Guerra Civil, pela epidemia de cólera, pelos motins populares e pelos surtos de varíola. Na segunda metade de Oitocentos, crises epidémicas violentas marcaram as populações: cólera, febre-amarela (geograficamente limitada), varíola e influenza.”

Quanto à epidemia que assolou o País e à sua repercussão no distrito de Aveiro, diz Hermínia Vieira que ”enquanto em 1806, a morte vitimou sobretudo a população adulta com mais um surto de paludismo, em 1815, atingiu preferencialmente as crianças, afectadas por verminoses, varíola, sarampo e escarlatina”.

Ricos ou pobres, ninguém escapava

Estes surtos epidémicos atingiram quase todas as famílias e de todos os lugares, não fazendo distinção entre ricos e pobres. As famílias mais atingidas nesse período entre 1809 e 1818 foram as do Resende com 8 pessoas falecidas e do Valente, com sete pessoas, mas também a de Sousa Brandão, Pereira dos Santos, Gomes Leite, Ferreira Soares, Leite de Pinho, a de Salvador de Carvalho, dono da Capela da Murtosa, a do Azevedo ou de Ferreira dos Santos. Muitas poucas famílias escaparam e o enunciado seria longo das que sofreram tal como os Alves, Fonseca, Silva, Reis, Fernandes, Martins, Vinha, Correia, Rodrigues, Oliveira ou Almas. Uma família em especial seria seriamente atingida, a de Gomes Brandão, de Agoncida, com 4 membros falecidos, dois dos quais fuzilados pelos franceses no massacre da Igreja da Arrifana.

Invasões

A juntar às mortes provocadas pela guerra, por causas naturais devido à velhice, ou devido às epidemias que grassavam por todo o País e atingiam a nossa população, houve vários casos de mortes provocadas por acidentes e ainda aqueles que morriam “de repente” sem terem tempo de receber a extrema-unção.

No período anterior às invasões franceses, uma das pessoas bem conhecidas da terra que iria falecer, de causas naturais, em consequência da idade, foi a do padre Joaquim José Henriques, aquele que tinha realizado o levantamento das Memórias Paroquiais de Mosteirô. Aconteceu no dia 14 de Dezembro de 1783, com a idade de 73 anos, no Lugar da Murtosa, onde o padre Henriques vivia. Em testamento, deixou como herdeiro o sobrinho João José Marques, da freguesia de Sanfins, a quem incumbiu de distribuir aos pobres quatro mil reis, e de mandar rezar um conjunto de missas pela sua alma e pelas almas do purgatório. Deixou também a incumbência de mandar realizar uma missa cantada numa sexta-feira da Paixão, “com sermão feito pelo reverendo reitor de Souto”. Deixou ainda 25 mil reis para “um cortinado do Arco Cruzeiro desta igreja” e, caso não tivesse sido feito ao fim de três anos, seriam esses “vinte e cinco mil reis aplicados em missas pelas almas do fogo do purgatório”.

Mas além deste tipo de óbitos, no caso dos que morreram em acidentes, aparecem, por vezes, algumas descrições bastante curiosas como a de Custódio, de trinta e poucos anos, em que se diz que a 15 de Janeiro de 1794 “sem sacramento algum faleceu da vida presente repentinamente, vindo abaixo de um carro de tojo, Custódio solteiro, mudo, filho de Manuel Francisco, do Lugar da Quintã desta freguesia de Mosteirô.”

Outros acidentes mais frequentes aconteciam nas pedreiras ou nos rios e represas. Assim, o padre Caetano José da Costa conta que “a dezoito dias do mês de Outubro de 1794, sem sacramentos faleceu da vida presente debaixo de uma pedreira, João da Costa Viana da freguesia de S. Miguel de Souto. Foi sepultado dentro da Igreja desta freguesia com acompanhamento de três padre-nossos, e sem mais algum bem da alma, por ser naturalmente pobre.” Quanto a acidentes que envolveram afogamentos aparecem vários entre 1791 e 1820, como foi o caso de António Leite, do lugar do Morouço, que apareceu afogado na sua presa do lugar de Agoncida, em Outubro de 1805, ou o de Maria Custódia, como o conta o padre da época, José Leite de Oliveira:

Aos doze dias do mês de Novembro do ano de mil oitocentos e dez faleceu da vida presente, afogada no moinho de Fornos, Maria, filha de Manuel António Machado e de Ana Custódia de Assunção, da Cidade do Porto, e neta de Custódia Maria, do lugar de Agoncida, desta freguesia, de idade de oito anos, e foi sepultada dentro desta igreja no dia treze do dito mês e ano.”

Tudo isto que ocorreu entre 1791 e 1820, mostra-nos que as tragédias tanto podem ter origem em acidentes que vitimam pessoalmente algum indivíduo ou originadas por causas exteriores provocadas pela guerra, pela fome e miséria, por calamidades naturais ou por epidemias que, por vezes, surgem num dado país e se estendem a quase todo o planeta, provocando milhares e milhões de mortos.

A epidemia de 1815 viria a provocar a morte de muitos milhares de pessoas em todo o País, com uma região atingida com maior incidência, como foi o caso da Ilha da Madeira, provocando a morte de mais de 2.000 pessoas que, naquela altura, representava uma parte importante da população madeirense.

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Destaque

A primeira Escola Pública de Mosteirô

A primeira escola pública de Mosteirô data do final do século XIX, uma escola mista que iniciou a sua actividade em 10 de Outubro de 1896.

Foi um acontecimento muito festejado, esperado havia anos, pois iria permitir pela primeira vez a possibilidade de se aprender oficialmente a ler e a escrever, através do acesso à escola primária da maioria dos rapazes e das raparigas de Mosteirô.

A afluência no primeiro ano superou largamente a expectativas, com 54 inscrições nesse ano escolar de 1896-1897, das quais 21 foram de raparigas e 33 de rapazes, alguns já com 12 anos de idade, nascidos em 1884. A grande maioria, 46 alunos, era a primeira vez que frequentava uma escola pública, pois apenas uma minoria, 8 alunos, já tinha frequentado um estabelecimento de ensino, mas noutra freguesia, especialmente na da Vila da Feira.

Em 1894, a Reforma do ensino primário vai permitir a extensão às freguesias das escolas, sendo posteriormente feita nova reforma do ensino primário, após a implantação da República, datada de 1911, englobando o ensino infantil e o ensino normal primário. Dois conhecidos escritores e pedagogos estão por detrás desta reforma, João de Barros e João de Deus, este último autor da famosa “Cartilha Maternal”, método de ensinar a ler que foi utilizado até aos anos 30. Com a reforma de 1911 é igualmente fundado o ensino infantil particular, com a criação dos primeiros “Jardins Escola”, ainda hoje existentes, com métodos pedagógicos inovadores e onde as primeiras noções de liberdade, civismo e solidariedade eram ministradas.

De qualquer modo, vamos assistir em Mosteirô a um grande entusiasmo inicial pela aprendizagem das “primeiras letras”. Esse entusiasmo esmorece um bocado, após o impulso inicial, devido à falta de hábito e às necessidades de força de trabalho, especialmente no sector agrícola, em que desde cedo eram usadas as crianças, a partir dos seis e sete anos de idade.

Nas matrículas, havia uma particular atenção em saber se a criança era vacinada ou não, mostrando o cuidado que já existia naquele tempo e que hoje há quem conteste. No primeiro ano escolar em que arrancou a Escola Públia de Mosteirô, a maioria das crianças não tinha sido vacinada. Tal situação, altera-se radicalmente no ano seguinte de 1897-1898, em que os pais foram informados da obrigatoriedade de vacinação de todas as crianças que viessem inscrever-se, e a grande maioria das matrículas assinalava que a criança era vacinada. Finalmente, no ano escolar de 1898-1899, já a totalidade dos alunos inscritos tinham sido vacinados, o que mostra um esforço elevado por parte de todos.

A primeira escola mista de Mosteirô funcionou no Lugar de Proselha, em terrenos da Igreja Antiga, pertencentes à paróquia. Mais tarde, estas instalações passaram a ser usadas como escola dos rapazes até 1957, tendo em 1939 sido inaugurada a Escola Feminina, junto ao cruzeiro, dado que o Estado Novo não apreciava particularmente o ensino misto e não fomentava as “misturas”.

Muitos nomes conhecidos

Merece a pena conhecer as pessoas que inauguraram a Escola Mista de Mosteirô em 1896, pela ordem de matrícula:

1.Maria Rosa de Jesus
2.Emília Ferreira
3.Maria de Jesus Ferreira Alves
4.Ana Duarte Guterres
5.Adozinda Baptista Leitão
6.Joaquina Ferreira dos Santos
7.Florinda Gomes da Silva
8.Maria Joana de Resende
9.Alfredo Correia
10.Josefino Correia
11.Manuel Pereira dos Santos
12.Joaquim Ferreira Soares
13.Manuel Luís Pinto
14.Manuel Gomes Resende
15.José Gomes de Resende
16.Manuel Pereira
17.Francisco da Silva Bento
18.Francisco Ferreira dos Santos
19.Manuel Correia da Silva
20.Maria Correia de Oliveira
21.António Leite de Pinho
22.Manuel Gomes Leite
23.Crispim Gomes Leite
24.António Gomes de Andrade
25.José Gomes de Andrade
26.Manuel Carvalho de Assis
27.Manuel Correia dos Santos Valente
28.Ermelinda Luísa
29.Manuel da Silva Serafim
30.Carolina Correia Ribeiro
31.José Gomes da Silva
32.Teodósio Ferreira dos Santos
33.Manuel Rodrigues
34.António Alves
35.Manuel Bento de Assunção
36.Manuel Fernandes de Assunção
37.Ana Maria de Resende
38.Ana Clementina
39.Maria Amélia da Costa
40.Aníbal Rodrigues Laranjeira
41.Manuel da Silva
42.Francisco dos Santos
43.Adelino da Silva Serafim
44.António Pereira dos Santos
45.Joaquina Rosa de Jesus
46.Olinda Rosa de Jesus
47.Maria Joaquina dos Reis
48.Manuel da Silva Bento
49.Severino Gomes de Resende
50.Ana Rosa de Jesus
51.Francisco Leite de Pinho
52.Rosa Ferreira dos Santos
53.Amélia Ferreira de Jesus
54.Joaquim Ribeiro da Costa

Escola Mista 1896

Havia um grande número de desistências, tanto a meio do ano quando surgia a necessidade braços para os trabalhos agrícolas como no final da época escolar. Assim, no ano escolar seguinte existem 64 matrículas, das quais 30 pertencem a novos alunos da primeira classe. Nos quatro anos seguintes regista-se uma queda grande nas matrículas, especialmente por parte de raparigas que acabam por desistir para se dedicarem às tarefas domésticas.

Quadro

O novo século assiste a uma recuperação

Durante os primeiros cinco anos aparecem muitos nomes que mais tarde se tornam conhecidos, como os de Crispim Gomes Leite, Manuel Carvalho de Assis, Manuel Bento de Assunção, António Pereira Leal, Manuel Francisco das Almas, Palmira da Silva ou Joaquim Ferreira Soares.

O início do século traz outros nomes que serão igualmente conhecidos da maioria dos mosteirenses, como são os casos de:
Cândido Luís de Andrade e Maria Rodrigues Laranja, que mais tarde vão casar
Hermenegildo da Silva Bento, filho de Josefino da Silva Bento, das pedreiras do Monte
Manuel Alves Barbaças, das pedreiras da Agoncida
Deolinda Coelho, filha de António Santos, Tamanqueiro
Rosa Leite de Azevedo, da família do Lizura, filha de José António Azevedo, canastreiro
Palmira dos Santos e Deolinda dos Santos, da Agoncida (filhas da Mãe Velha)

O ensino não sendo obrigatório, a partir do ano escolar de 1905-1906 regista-se uma nova quebra nas matrículas durante três anos, tanto na primeira classe como nas seguintes, com apenas três raparigas inscritas, facto que se repete no ano de 1907-1908 a apresentar valores igualmente baixos.

Entre 1908 e 1911, dá-se uma recuperação, com valores bem mais simpáticos, sobretudo graças à entrada de um número razoável de raparigas em cada um dos anos escolares.

Todavia, o número daqueles que ia a exame e passava continuava a ser extremamente baixo. Com a implantação da República, as coisas vão melhorando e vamos encontrar um grande número que consegue passar a terceira e chegar à quarta classe, muitos deles de família bem conhecidas, tais como:
Crispim Gomes Leite
Rosa Leite de Azevedo
José Pereira
Manuel Francisco das Almas
António Rodrigues Nogueira
Elvira Gomes Leite
Olinda Marques
Cândido Luís de Andrade
Albina Pereira Leal
Manuel Dias de Resende
José Ferreira Soares
Benjamim Correia da Silva
Luciana da Silva Bento
Isaac Rodrigues da Cruz
Aurora Correia da Silva
Constantino Luís de Andrade
Armando Carvalho de Assis
Antero de Andrade e Silva
Pedro Gomes Leite
Felisberta Gomes Leite
Adelaide Rodrigues da Cruz
Emília Andrade e Silva
Esther Marques dos Santos Terra
Caridade Gomes Leite
Florentino Andrade e Silva
Maria Carvalho
Américo Correia de Andrade
Cipriano Pereira Leal
Porfírio Marques Gomes Alberto
Celanira Aires dos Santos
Palmira Alegria dos Santos
Rufina Correia dos Santos

O método de ensino: a Cartilha de João de Deus

A Cartilha Maternal é uma obra de natureza pedagógica, escrita pelo poeta e pedagogo João de Deus e publicada em 1876, que se destinava a servir de base a um novo método de ensino da leitura às crianças. A Cartilha Maternal é uma das obras mais vezes reimpressas em Portugal, tendo sido extensivamente usada nas escolas portuguesas por quase meio século, ainda mantendo alguns seguidores, particularmente em estabelecimentos de ensino particular.

Quando, no ano imediato ao da morte de Castilho, João de Deus apresentou a sua Cartilha Maternal, a intelectualidade e o professorado já estavam preparados para aceitar a alteração metodológica. A partir de 1877, começa a difundir-se o chamado método João de Deus e em 1882, por decisão parlamentar, é decretado o uso generalizado da cartilha maternal nas escolas portuguesas. Esta obrigatoriedade seria mantida até 1903, quando o método se tornou facultativo.

A publicação da Cartilha Maternal, que tem o subtítulo de Arte de Leitura, foi saudada de forma entusiástica por um país onde o analfabetismo era uma tragédia nacional
A expansão do método, para além da extraordinária reputação de João de Deus, beneficiou da fundação em 1882 da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus. Estas escolas funcionaram até 1921, tendo sido frequentadas por perto de 30 000 alunos.

A Cartilha Maternal foi precursora de uma enorme variedade de cartilhas, as quais até ao final dos anos de 1930 foram dos livros com maior tiragem em Portugal e no Brasil, ainda sendo reeditadas na actualidade.

O Método de Leitura de João de Deus apresenta, de uma forma progressiva e correcta do ponto de vista pedagógico, as dificuldades da língua portuguesa. A criança, desde a primeira lição, é convidada e estimulada a ser «analista da linguagem», porque as dificuldades são explicadas por regras que satisfazem o raciocínio e o pensamento lógico do aluno. O uso de mnemónicas na formação temporária das consoantes «incertas» e a apresentação das palavras segmentadas silabicamente (recorrendo ao uso do preto/cinzento), sem quebrar a unidade gráfica, são duas das principais linhas de força que caracterizam o Método.

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Destaque

Dois casamentos, quatro nascimentos e dois funerais

António da Silva, trisavô de Maria Joana Pereira da Silva, a Mãe Velha, teve uma vida atribulada, envolta em tragédia, desde o dia em que casou com Maria Antónia, a 18 de Fevereiro de 1727. Mal adivinhava ele o que estava para vir e a “cruz” que iria carregar até ao fim dos seus dias.

Foi um casamento concorrido, uma vez que os pais dos noivos pertenciam a famílias de agricultores bem conhecidas do Fundo de Mosteirô. O padre Manuel Ferreira das Chagas, cura da Igreja de Santo André de Mosteirô, a Antiga, presidiu à cerimónia e conta que esta se realizou de acordo com os cânones estabelecidos, feitas as denunciações nesta igreja somente na forma do sagrado concílio Tridentino e da constituição do bispado do Porto, de onde os contraentes “são naturais e moradores”.

Sem se descobrir qualquer impedimento, e na presença de familiares, vizinhos, amigos e de numerosas testemunhas, nomeadamente de Domingos de Azevedo e de João de Azevedo, do mesmo lugar, o Padre Chagas prosseguiria com a cerimónia e casava solenemente António da Silva, filho de João da Silva e de Domingas Antónia, já defuntos e moradores que foram do Lugar do Outeiro, na Murtosa, com Maria Antónia, filha de Manuel Dias, de Santiago de Riomeão, e de Maria Antónia, do Lugar do Fundo da Aldeia, moradores nesta freguesia de Mosteirô. E o padre Manuel Ferreira das Chagas acrescenta na terminologia da época “e logo lhes dei as bênçãos conformes aos ritos e cerimónias da Santa Madre Igreja.”

António da Silva e Maria Antónia seguiriam em cortejo desde a Igreja em Proselha até ao chamado lugar do Fundo da Aldeia e à casa dos pais de Maria Antónia onde se seguiu um grande repasto, bem regado, que contou com a presença do Padre Chagas.

A tragédia bate à porta

António e Maria ficariam a viver bem perto dos pais dela mas depressa se constatou que Maria Antónia sofria, especialmente no Inverno, de doença pulmonar. A tosse e a falta de ar apareciam sistematicamente, em particular nos dias muito quentes de Verão.
Durante meses, António Silva e Maria Antónia percorriam a estrada até à Vila da Feira para se dirigirem a um médico que existente que se dizia “percebia dessa coisa da falta de ar”. Foi no começo das primeiras chuvas de Outono que a situação de Maria Antónia se complicou e, no início de Outubro, foi levada num carro de bois para o hospital da Vila da Feira.

Infelizmente, os médicos não conseguiam estancar a hemorragia que, entretanto, foi atacando os pulmões de Maria Antónia e foi decidido trazer de volta à aldeia a doente. Passados dois dias, dava-se um desenlace fatal, com a morte prematura de Maria Antónia, após doença pulmonar que a vitimou. Diz o padre Manuel Ferreira das Chagas:

“Aos 12 dias do mês de Outubro de 1728 anos, faleceu da vida presente Maria Antónia, mulher de António Silva, do lugar e freguesia de Mosteirô, com todos os sacramentos. Teria de idade quarenta anos, pouco mais ou menos, e deixou o seu marido com obrigação de tratar dos bens da alma e dos pagamentos paroquiais, conforme costume desta dita freguesia.”

Terminava assim de forma trágica o casamento que duraria pouco mais de um ano e meio. A morte da Maria Antónia deixou António Silva extremamente abalado. O sentimento de perda irreparável e de luto foi dando progressivamente lugar ao desespero e ao pessimismo. Os sentimentos de culpa, de inutilidade e de desamparo começaram a apossar-se dele. Tinha dificuldade em dormir e à noite vagueava pela casa, cismando no que tinha acontecido.

1728 - 223 - óbito de Maria Antónia, primeira mulher de António Silva - 12-10

Com uma angústia extrema e sem vontade para nada, com a cisma a aumentar de dia para dia, António Silva decidiu fugir dali para fora. Deixou a casa que lhe trazia constantemente à memória a sua Maria Antónia, deixou as terras e os animais à guarda de familiares e desapareceu por algum tempo, sem se saber por onde ele andaria. Tinha então 37 anos.

Aos familiares chegavam relatos de terras vizinhas por onde ela de vez em quando era avistado, desde Ovar a Manhouce, só que normalmente já se tinham passado vários dias ou semanas e não adiantava ir à sua procura. Até que um dia, passado quase um ano, chegou a informação sobre o seu paradeiro e um dos primos de Maria Antónia tomou a iniciativa de ir à sua procura. Foi encontrá-lo junto à Igreja de vizinha freguesia de São Vicente Pereira Jusã e procurou convencê-lo a voltar para sua casa e a tomar conta da sua vida e das suas propriedades.

– Tu ainda és novo e tens muito tempo pela frente, tens de voltar e procurar uma mulher para te ajudar a levar a vida por diante. Disse-lhe o primo Henrique.
– Eu passo a vida a cismar não tenho vontade para fazer nada, não me interessa a vida, devia ter sido eu a morrer. Responde-lhe António.
– Não digas uma coisa dessas. Deus pode-te castigar!
– Ainda queres mais castigo do que eu já tive?

Henrique tentou demovê-lo, conseguindo finalmente, que António Silva voltasse para o Fundo de Mosteirô, quase um ano depois de ter abandonado tudo, e que ele retomasse a sua actividade agrícola. Passou a frequentar assiduamente a igreja, onde ia pedir perdão no túmulo de Maria Antónia.

Um segundo casamento com outra Maria Antónia, prima em quarto grau

Os anos passaram até que encontrou outra mulher, também de nome Maria Antónia, uma prima afastada, 14 anos mais nova do que ele e, ao fim de dois anos de se frequentarem, resolveram dar o nó. Foi uma cerimónia que juntou a maior parte das gentes da terra que, na altura, andaria pelos 200 habitantes, todos curiosos para ver o desenlace.

Já o padre tinha sido mudado e, no dia 13 de Dezembro de 1738, realiza-se o casamento de António Silva com Maria Antónia. O assento do matrimónio rezava o seguinte:

“Aos treze dias do mês de Dezembro de 1738, de manhã, nesta igreja de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, feitas as denunciações nesta igreja de Santo André de Mosteirô, de onde os contraentes são moradores e naturais, em forma do sagrado concílio tridentino e constituição deste bispado, sem se descobrir outro impedimento mais do que serem parentes em quarto grau de afinidade, de que alcançaram sentença de dispensa de Sua Santidade, que me apresentaram, em presença de mim o padre Domingos Ferreira, cura actual desta dita freguesia, e de Manuel e de Simão, filhos que ficaram de Manuel Fernandes, lavrador do lugar de Mosteirô, testemunhas abaixo assinadas, se receberam em face da igreja, por palavras de presente, António Silva, filho legítimo de João da Silva e de sua mulher Domingas Antónia já defuntos, do lugar de Mosteirô, com Maria Antónia, filha legítima de António João, já defunto, e de sua mulher Domingas Antónia, do dito lugar de Mosteirô. O contraente foi uma primeira vez casado com Maria Antónia, filha legítima de Manuel Dias, de Riomeão, e de sua mulher Maria Antónia, já defuntos, e moradores que foram do dito lugar de Mosteirô, todos desta freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto.”

Os festejos deste casamento, apesar de despertarem a curiosidade geral, foram mais recatados e na boda estiveram presentes apenas os familiares moradores na freguesia e alguns amigos mais chegados. António Silva tinha então 46 anos de idade, enquanto Maria Antónia tinha 32 anos.

O nascimento da primeira filha, Maria Antónia

Com o nascimento da primeira filha a quem foi dado igualmente o nome de Maria Antónia, a alegria voltou às faces de António Silva que reencontrou o equilíbrio e a serenidade, deixando para trás o desespero e o pessimismo e procurando esquecer a cisma resultante do falecimento da primeira mulher.

O padre Domingos Ferreira regista o seu baptismo nos seguintes moldes:
“Maria, filha legítima de António da Silva e de sua mulher Maria Antónia, do lugar e freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, nasceu aos sete dias do mês de Março de 1739 e foi baptizada na igreja paroquial de seus pais aos quinze dias do dito mês e ano por mim padre Domingos Ferreira, cura actual da dita freguesia. Foram padrinhos Manuel António, solteiro, filho de Domingas Antónia, viúva, e Maria, solteira, filha de Manuel António, do Fundo de Mosteirô. Testemunhas, o dito Manuel António, do Fundo, e Manuel Francisco, o Paciência, todos desta freguesia.”

1739 - 74 - Maria, filha de António Silva e de Maria Antónia

Maria Antónia iria crescer como uma criança saudável, apaparicada e acarinhada por todos. Já gatinhava pela casa toda e começava a dar os primeiros passos quando nasceu a sua irmã Mariana a 16 de Abril de 1740, que iria ser baptizada a 23 do mesmo mês, pelo mesmo padre Domingos Ferreira, o qual começa a ser mais preciso nos nomes dos lugares, pois dá como local onde moravam os pais das crianças, o Lugar do Serrado, que se situa no Fundo de Mosteirô, também conhecido naquela época como lugar do Fundo da Aldeia. Foram padrinhos de baptismo de Mariana, Pascoal de Oliveira, casado com a Maria da Silva, do lugar do Outeiro, e Rosa, solteira, filha de Manuel António e de Sebastiana Francisca, do Lugar do Fundo de Mosteirô. Teve como testemunhas do referido Manuel António, do Fundo, e um outro Manuel António, casado com Maria Valente, do lugar Serrado. Muitas vezes, estes baptizados eram aproveitados para juntar um padrinho e uma madrinha para ver se pegava namoro.

Maria Antónia costumava brincar na eira junto à casa, tendo começado muito cedo a dizer as primeiras palavras. Com menos de dois anos já conhecia os vizinhos e quando Salvador Carvalho por ali passava, ela sempre lhe dizia:

– Olha o Bador!

Irrequieta e temperamental, Maria teve de imediato ciúmes da irmã Mariana, pois agora as atenções dividiam-se e estavam focadas na nova membro da família de António Silva e de Maria Antónia. Por vezes fazia birras e recusava-se a comer e, passado algum tempo, já com fome, deixava a brincadeira mas já não havia nada no prato. Ela lamuriava-se e gritava:

– Comeram-me tudo!

Os pais riam-se dela, o que a irritava ainda mais.

Um parto com problemas

Entretanto, nasce uma nova irmã, Ana, que iria baralhar a situação e fazer com que a atenção e o carinho dos pais tivesse de ser repartido por mais um membro da família.
Mas o parto de Ana não foi fácil e a criança corria perigo de vida, o que era o pão nosso de cada dia naqueles tempos. Assim, foi decidido baptizá-la à pressa e chamar posteriormente o padre Domingos Ferreira, cujo assento de baptismo diz o seguinte:

“Ana, filha legítima de António da Silva e de sua mulher Maria Antónia, do lugar e freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, bispado do Porto, nasceu aos nove dias do mês de Janeiro do ano de 1742, e foi logo baptizada em casa por parecer perigosa (correr perigo), por Manuel António, o Novo, do Serrado, desta mesma freguesia. Aos treze dias do dito mês e ano, se lhe fizeram os exorcismos e puseram os santos óleos, na igreja paroquial dos seus pais, por mim o padre Domingos Ferreira, cura desta freguesia. Foram padrinhos João da Silva, do Serrado, e Quitéria, solteira, filho de António da Silva Barbeiro, do Outeiro. Testemunhas: António da Silva Barbeiro e Manuel António, o Novo.”

À medida que aumentava a família de António Silva aumentava também a sua satisfação e a lembrança do seus desespero e da sua cisma já se tinha desvanecido com o tempo, deixando de pensar na sua primeira Maria Antónia e focando toda a sua atenção agora nas suas três filhas. Havia, no entanto, duas questões que apoquentavam: o perigo que correram com o parto de Ana e não ter ainda nenhum filho varão. António pensava nesses momentos:

– Ainda vamos conseguir!

O nascimento do filho varão

E foi assim que, de facto, no Outono de 1742, Maria Antónia apareceu novamente grávida. Ainda tentaram saber se era menino ou menino, pois havia uma mulher da Arrifana que costumava “adivinhar”, e a ela se dirigiram em Dezembro de 1742. A referida mulher, já informada por vizinhos sobre o que o casal andava à procura, assegurou-lhes que iria ser um menino, para contentamento de António e de Maria.

Regressaram a Mosteirô, o tempo foi passando, Maria Antónia com queixas e dores, até que no dia 19 de Abril de 1743 finalmente nasceria o seu filho Manuel, o único filho varão, uma vez que anteriormente já tinham nascido as três irmãs: Maria, Mariana e Ana. O registo de novo padre da freguesia, Manuel Rodrigues Henriques, conta o seguinte:

“Manuel, filho legítimo de António da Silva e de sua mulher Maria Antónia, do lugar de Mosteirô desta freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira e bispado do Porto, nasceu aos dezanove dias do mês de Abril de mil setecentos e quarenta e três anos e foi baptizado aos vinte do mesmo por mim, o padre Manuel Rodrigues Henriques, cura da dita freguesia. Foram padrinhos Manuel, solteiro, filho de Gabriel João, viúvo, e Maria, solteira, filha de Pascoal de Oliveira, defunto, e de sua mulher Maria de Oliveira. Foram testemunhas Manel António e António da Silva, todos do lugar de Mosteirô, da referida freguesia de Santo André de Mosteirô e que todos assinaram comigo.”

A tragédia bate de novo à porta

Na sequência do parto, houve um desenlace fatal que iria afectar António da Silva para o resto da sua vida. A tragédia bateria de novo à porta de António Silva, do Fundo da Aldeia, com a morte prematura após o parto, no dia 20 de Abril de 1743 da sua segunda mulher Maria Antónia, de 36 anos de idade, com quem tinha casado cinco anos antes.

Foi o padre Manuel Rodrigues Henriques que nos conta o que aconteceu:
“Aos vinte dias do mês de Abril de mil setecentos e quarenta e três anos, faleceu da vida presente Maria Antónia, mulher que foi de António da Silva, do lugar de Mosteirô, freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira e bispado do Porto, com todos os sacramentos da Santa Madre Igreja. Teria de idade 32 anos, pouco mais ou menos. Fez disposição verbal (testamento verbal) na qual deixou a sua fazenda aos seus filhos e disse que lhe fizesse os ofícios de cinco padre-nossos. Declaro que fez disposição verbal na qual assistiram Domingos Alves e Manuel, solteiro, filho de Gabriel João. E a estas pessoas disse que deixava a sua fazenda a seus filhos e que deixaria os seus ofícios de cinco padre-nossos. Não se lhe fez acompanhamento nem ofício algum de presente. Foi seu corpo sepultado dentro desta igreja onde era freguesa, do que fiz este assento.”

É possível imaginar o que terá passado pela cabeça de António Silva, 15 anos depois do infortúnio que lhe tinha roubado a sua primeira mulher Maria Antónia, o qual nunca mais se refez deste novo acontecimento.

De qualquer modo, antes de falecer, a segunda mulher de António Silva, também de nome Maria Antónia, fez questão de chamar os seus irmãos Joana, a mais velha, Manuel e António para lhes dar indicações sobre as suas últimas vontades, pedindo-lhes que tomassem conta dos seus filhos até eles atingirem a idade adulta, uma vez que desconfiava seriamente da sanidade mental do marido.

Fez questão igualmente de chamar pessoas da sua confiança, Domingos Alves e Gabriel João, para lhes ditar um testamento em que deixava todos os seus bens aos seus filhos, o que seria confirmado pelo próprio padre Manuel Rodrigues Henriques, não deixando nada ao marido.

1738 - 179-180 - casamento de António Silva e Maria Antónia - 13-12-1738

Destaque

Crispim Rodrigues de Oliveira

Lembrar um destacado opositor ao regime de Salazar de Mosteirô, promotor do associativismo agrícola e um homem muito considerado na freguesia, é uma questão de elementar justiça.

Os anos do salazarismo

Sendo um conhecido agricultor da freguesia, da Casa do Alexandre, Crispim Rodrigues de Oliveira encabeçaria a oposição em Mosteirô ao regime do Estado Novo, liderando um grupo de democratas que participaria nas “eleições” nada livres que então tinham lugar.

Em 1958, com um grupo local de anti-salazaristas, desenvolveu a campanha para a eleição de Humberto Delgado à Presidência da República que, como se sabe, terminaria numa fraude eleitoral, a qual resultaria na “eleição” de Américo Tomás.

O então Presidente Francisco Craveiro Lopes entrou em conflito com Salazar e não procurou obter um segundo mandato. O candidato do regime de Salazar e da União Nacional, o partido único, foi o ministro dos assuntos navais, almirante Américo Tomás.

A oposição democrática apoiou o general Humberto Delgado, que concorreu como candidato independente numa tentativa de mudar o regime. As eleições presidenciais portuguesas de 1958 realizaram-se no período denominado Estado Novo, o regime liderado por António de Oliveira Salazar. O acto ocorreu no dia 8 de Junho de 1958.

Crispim Rodrigues de Oliveira, juntamente com os seus apoiantes, aderiu ao apoio ao General e participou activamente na campanha eleitoral, fazendo reuniões da oposição, distribuindo na freguesia a propaganda da comissão eleitoral de apoio a Humberto Delgado, nomeadamente panfletos e cartazes que seriam colados em diversos locais de Mosteirô.

Durante o Estado Novo, Crispim Rodrigues de Oliveira sempre foi um destacado activista contra a ditadura até à sua morte em 1968, membro dos grupos da oposição democrática, participando nas reuniões a nível concelhio e distrital e organizando reuniões numa casa do Fundo de Mosteirô em que participava amiúdo o conhecido opositor Alcides Strecht Monteiro.

A acção desenvolvida durante a campanha eleitoral em Mosteirô pelos democratas, com Crispim de Oliveira à cabeça, valeria uma reacção violenta por parte dos apoiantes do regime, que chamaram um grupo numeroso de “jagunços” para arrancarem todos os cartazes espalhados pela freguesia, o que terminaria em confrontos físicos junto ao cruzeiro frente à escola das raparigas.

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Mas não seria apenas na política como opositor ao regime salazarista que Crispim Rodrigues de Oliveira se destacaria. Numa altura em que o cooperativismo era olhado de través pelo regime, este agricultor, juntamente com a grande maioria dos lavradores de Mosteirô, constituiria uma cooperativa agrícola, conhecida como Sociedade do Gado, na tradição do associativismo desenvolvido entre as classes trabalhadoras, muito em voga durante o século XIX.

Crispim Rodrigues de Oliveira era conhecido como um homem vertical, procurando preservar os bens comuns como foi o caso da Fonte do Barreiro, e muito rigoroso nas contas e na gestão da Sociedade do Gado que, na realidade, era uma organização mutualista que procurava apoiar os seus membros em momentos de dificuldade.

Fonte do Barreiro (Ricardo Alex Rocha)

Composta por cerca de 40 membros activos, de todos os lugares da freguesia, e todos possuidores de juntas de bois e com criação de gado, nomeadamente de vacas leiteiras, esta Sociedade acorria a apoiar algum dos seus membros quando surgia uma situação difícil. Todos os membros pagavam uma quota mensal em função do número de cabeças de gado que possuíam, constituindo um Fundo mutualista destinado a socorrer os seus associados, nomeadamente quando acontecia a morte de uma rês ou apareciam eventuais despesas com o tratamento veterinário dos animais.

Com a morte do seu mentor e o advento do 25 de Abril de 1974, a Sociedade de Socorros Mútuos da Agricultura, acabaria por se extinguir. O abandono da agricultura acabou por fazer o resto.

Um casamento que acaba prematuramente

Crispim Rodrigues de Oliveira nasceu no dia 15 de Agosto de 1880, no Lugar de Mosteirô, sendo baptizado no dia 29 do mesmo mês. Era filho de João Rodrigues de Oliveira, lavrador, e de Ana Margarida Alberto de Oliveira, lavradora, ambos naturais da freguesia de Mosteirô. Era neto paterno de Manuel Rodrigues e de Jacinta Maria de Oliveira, e neto materno de Alexandre Gomes Alberto e de Maria Rosa de Resende e Oliveira. Foram padrinhos o avô paterno Alexandre Gomes Alberto e Maria Joaquina de Oliveira.

Casou aos 37 anos de idade com Elvira Augusta da Conceição Moreira na Conservatória do Registo Civil da Vila da Feira no dia 1 de Fevereiro de 1918. Deste casamento nasceriam três filhas.

Infelizmente, este casamento duraria pouco mais de seis anos, uma vez que a desventura bateu-lhe à porta, e Elvira Augusta viria a falecer prematuramente no dia 30 de Outubro de 1924, sendo sepultada no cemitério da freguesia.

O marido, Crispim Rodrigues de Oliveira, não viveria o suficiente para comemorar o 25 de Abril de 1974 e o fim da ditadura, e viria a falecer na freguesia de Mosteirô muitos anos depois da esposa, aos 88 anos de idade, no dia 28 de Outubro de 1968, ficando na mesma sepultura em que ela se encontrava.

1880 - 114 Crispim Rodrigues de Oliveira

Destaque

Quem foi Numa Gomes da Silva

Murteira, Resende, Gomes Leite, Ferreira são alguns dos apelidos dos antepassados de Numa, um nome próprio muito pouco comum por estas bandas

O nome próprio de Numa aparece pela primeira vez nos registos de Mosteirô no início de século XX, sem que se encontre qualquer outro registo com este nome, na nossa freguesia, antes dessa data. Por se tratar de um nome pouco usual, exótico e quase desconhecido, procurámos saber mais sobre o assunto tendo, por uma feliz coincidência, encontrado descendentes no Lugar de Agoncida.

Assim, no dia 24 de Agosto de 1901, o nome de Numa Gomes da Silva aparece em destaque em Mosteirô, quando encontrámos o registo do seu casamento na Igreja Nova com Emília de Resende, de uma família bem conhecida da freguesia. Tratou-se do casamento de dois artistas de profissão, segundo dados da época, e tinham ambos 18 anos de idade, tendo sido necessário o consentimento dos pais para o efeito. Foram testemunhas deste evento Manuel Dias de Resende e Crispim Gomes Leite.

Numa Gomes da Silva tinha nascido a 24 de Março de 1883, em Souto, tendo origens em Mosteirô por parte do pai, Manuel Gomes da Silva, natural desta freguesia, sendo a mãe Emília Gomes da Luz, natural da freguesia de S. Miguel de Souto, ambos de profissão lavradores, do lugar do Ferral. Era neto paterno de António Gomes da Silva e de Maria Luísa, naturais de Mosteirô, e neto materno de José Gomes Leite, do Lugar da Murtosa, em Mosteirô, e de Dona Maria Gomes da Luz, natural da freguesia de Cacia. Foram padrinhos José Maria Huet e Dona Eugénia Augusta da Silveira Huet.

Quanto a Emília de Resende, era natural do Lugar de Proselha, filha de Domingos Ferreira dos Santos, pedreiro, e de Maria de Resende, costureira, onde tinha nascido a 17 de Janeiro de 1883. Era neta paterna de Domingos Ferreira dos Santos e de Joana Ferreira de Andrade, e neta materna de Manuel José Dias de Resende e de Claudina Rosa de Jesus, tendo tido como padrinhos Manuel Dias de Resende e Emília Rosa de Jesus, todos do Lugar de Proselha.

1901 - Casamento de Numa - 1901

A filha Maria irá casar com Manuel Murteira

Em 4 de Junho de 1902 nasce em Souto a primeira filha do casal, Maria Gomes de Resende, que viria a casar em 1921 com Manuel da Silva Murteira, filho de José da Silva Murteira, carpinteiro, de Ovar, e de Maria Ventura Alves Moreira, da Vila da Feira. Manuel Murteira era mais velho cinco anos, pois tinha nascido em Souto a 27 de Abril de 1896. Era filho de José da Silva Murteira, natural de Ovar, e de Maria Alves Ventura Moreira, da Vila da Feira, residentes no Lugar de Cabomonte. Era neto paterno de Manuel da Silva Murteira e de Joana Rosa de Jesus e neto materno de Vitorino Alves Moreira e de Joana de Jesus. Foram padrinhos Manuel da Silva Murteira e Maria Rosa de Jesus, jornaleiros, do lugar de Cimo de Vila, em Ovar.

O casamento de Maria Gomes de Resende, de 19 anos, com Manuel da Silva Murteira, de 24 anos, iria ter lugar na Igreja paroquial de Mosteirô no dia 27 de Março de 1921. Manuel da Silva Murteira viria a falecer em Souto, com 67 anos de idade, em 21 de Agosto de 1963.

Por sua vez, os pais de Manuel da Silva Murteira – José da Silva Murteira e Maria Alves Ventura Moreira – tinham casado no dia 25 de Julho de 1895, na igreja paroquial da freguesia de S. Cristóvão, da Vila, concelho e comarca de Ovar. O pai, José da Silva Murteira, pertencia a uma família antiga de Cimo de Vila, Ovar, onde tinha nascido a 18 de Novembro de 1869.

Os antepassados de Numa da Silva

Procurando as origens de Numa, e os seus antepassados mais afastados, vamos encontrar duas famílias distintas: a família de José Gomes Leite, do Lugar da Murtosa, em Mosteirô, e a família de Dona Maria Gomes da Luz, da região de Aveiro, nomeadamente de Cacia e Salreu, com ligação à família Huet, da região de Aveiro.

Oa padrinhos de baptismo de Numa eram justamente José Maria Huet e Dona Eugénia Augusta da Silveira Huet, familiares da sua avó Dona Maria Gomes da Luz, casada em primeiras núpcias com João Huet de Bacelar Botelho e de quem era viúva.

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A família Huet Bacelar encontra-se espalhada entre Portugal e Brasil, para onde se deslocou aquando das invasões francesas. Segundo um dos seus descendentes, José Huet de Bacelar:
“José Maria Huet de Bacelar, nasceu em Cacia (Aveiro) a 31 de Janeiro de 1850, irmão de meu trisavô João Huet de Bacelar, ambos filhos de João Huet de Bacelar Botelho Pinto Guedes Sotto Mayor e de sua segunda mulher Dona Maria Gomes da Luz.
O José Maria foi para o Brasil, e sei que faleceu em Monte Alegre, era casado com D. Maria Loureiro, sendo vivo ainda em 12 de Outubro de 1897, data em que passou uma procuração a seu meio-irmão Duarte Huet de Bacelar, morador na cidade do Porto.”
José Huet de Bacelar acrescenta ainda que:
“O ramo brasileiro dos Huets, é apenas considerado, o dos descendentes de João Huet que foi para o Brasil com a familia Real, tendo lá sido o fundador do ramo brasileiro, com imensa descendência no Rio de Janeiro, S. Paulo, Porto Alegre, Teresópolis, etc. Se o José Maria, for o que eu penso, faz parte do Ramo da Vila da Feira dos Huet de Bacelar, apesar de alguns deles actualmente estarem também radicados no Brasil.”

Deste modo, descobrimos que a mãe de Numa, Emília Gomes da Luz, sendo filha de Dona Maria Gomes da Luz, seria meia-irmã de José Maria Huet de Bacelar (padrinho de baptismo de Numa) e de João Huet de Bacelar, o que faz com que estes eram tios-avós de Numa, por parte da sua mãe.

3 - Salreu
Igreja de Salreu

Os casamentos de João Huet de Bacelar Botelho

No entanto, havia ainda mais algumas afinidades, uma vez que João Huet de Bacelar Botelho já tinha sido casado anteriormente com Maria Brizida de Vasconcelos, de cujo casamento nasceram:
1) Duarte, nascido em 1836 e falecido em 1921, ultimo senhor dos morgadios da familia, casado duas vezes e com numerosa descendência
2) Maria Henriqueta, nascida a 1840 e falecida a 1921, casada aos 60 anos e sem descendência.

Do seus segundo casamento com Dona Maria Gomes da Luz, que ainda não tinha completado 20 anos de idade, e realizado em Abril de 1847 na Capela de S. Bartolomeu, em Esgueira, Aveiro, nasceriam cinco filhos:
1) Maria Teodora, nascida em 1848, que vivia no Brasil ainda em 1920, casada em 1866, na Vila da Feira, com Francisco José de Oliveira, e com 3 filhos pelo menos.
2) João, nascido em 1848 e falecido em 1898, casado com Maria José Augusta da Silveira, e com  numerosa descendência (alguma dela a viver no Rio de Janeiro e em S. Paulo)
3) José Maria
4) Antonino, morreu em criança com 31 meses em 1853.
5) Maria da Natividade, também morreu em criança com 14 meses em 1853.

Por sua vez, do casamento da avó de Numa, Dona Maria Gomes da Luz com o seu avô José Gomes Leite, iriam nascer mais três filhos, a saber:
1) José, nascido em 1855
2) Ana, nascida em 1857
3) e, finalmente, a 1 de Janeiro de 1860, Emília Gomes da Luz, a mãe de Numa Gomes da Silva.

Apesar destas peripécias, não se consegue perceber a razão do nome próprio de Numa que apareceu pela primeira vez no século XIX na nossa região. Mas, pelo menos, encontrámos muitos dos seus antepassados.

5 - Família Murteira

 

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Os primeiros sepultados na Igreja Nova

Resende, Valente, Ribeiro, Gonçalves, Dias, Reis, Rodrigues, Fernandes e Gomes são alguns dos apelidos de familiares das primeiras crianças a serem sepultadas na Igreja Nova de Mosteirô entre Setembro de 1764 e Janeiro de 1765.

Os cinco primeiros funerais realizados na Igreja Nova foram de cinco crianças com idades entre os 3 meses e os cinco anos. A primeira criança a ser sepultada, Josefa, sê-lo-ia a 11 de Setembro de 1764. Tinha nascido a 16 de Junho desse ano e falecera com apenas três meses de idade. Era filha de Manuel José Fernandes e de Águeda Maria dos Reis, neta paterna de José Rodrigues e de Antónia Fernandes, de Mosteirô, e neta materna de José Ribeiro e de Maria dos Reis, da Vila da Feira.

O padre Joaquim Henriques dá um grande ênfase ao facto de se tratar do primeiro sepultamento no interior da Igreja Nova, ao registar o seguinte:

“faleceu da vida presente aos 10 dias do mês de Setembro de mil setecentos e sessenta e quatro anos, e tinha nascido aos dezasseis dias do mês de Junho do dito ano, e foi sepultada dentro da Igreja Nova, e foi a primeira vez que nela se sepultou, e de manhã, aos 11 do dito mês de Setembro, com acompanhamento de quatro padre-nossos e teve missa cantada que seu pai lhe mandou fazer”.

1764 - Registo de primeiro óbito de Josefa1764 - Registo de primeiro óbito de Josefa2

A este sepultamento dentro da Igreja Nova de Mosteirô segui-se-iam os de mais quatro crianças com idades compreendidas entre um e cinco anos: Arcângela, filha de João Manuel de Resende, do Lugar de Proselha, Josefa, filha de João Francisco, do Lugar do Barreiro, e de Rosa e Maria, filhas de Manuel Gonçalves Valente, do Lugar de Mosteirô.

A família de Arcângela Resende

Arcângela Resende, foi sepultada no interior da Igreja Nova no dia 31 de Outubro de 1764, com três anos e sete meses. Tinha nascido a 25 de Março de 1761, sendo filha de João Manuel de Resende e de Isabel Gomes de Jesus, do Lugar de Proselha. Os seus avós paternos eram Diogo Fernandes e Antónia Manuel, de Proselha, e os maternos eram José Soares e Maria Gomes, de Carregosa.

Os seus familiares terão sido pessoas de destaque em Mosteirô, naquela altura, uma vez que o seu baptismo envolveria personalidades bem conhecidas da terra. Assim, foram padrinhos de Arcângela Resende, o conhecido Salvador de Carvalho, um dos donos da Capela da Murtosa, representado no acto pelo padre António Leite, seu familiar e morador em casa de Salvador de Carvalho, e madrinha Arcângela, filha de Josefa Teresa, de Carregosa, representada por Dona Maria Bernarda, mulher do capitão Manuel Marques Ferreira, o outro dono da Capela de Nossa Senhora do Carmo. Para completar o lote de personalidades, a cerimónia teria ainda a assistir como testemunhas Manuel António Correia e o padre Bento Gomes Brandão.

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Até meados do século XIX os corpos eram sepultados no interior da Igreja

O infortúnio da família Gonçalves Valente

No mês de Janeiro de 1765, apenas quatro meses depois do primeiro funeral realizado na Igreja Nova, o infortúnio bateria à porta da família de Manuel Gonçalves Valente com a morte das filhas Rosa e Maria que faleceram em Janeiro, com um intervalo de apenas 13 dias. Assim, a quatro de Janeiro de 1765 foi sepultada no interior da Igreja Nova de Mosteirô a filha Rosa, com cinco anos e onze meses de idade, e a 17 de Janeiro dar-se-ia o falecimento da filha mais nova, Maria, com somente um ano de idade.

Eram filhas de Manuel Gonçalves Valente e de Teresa Dias Valente, do lugar de Mosteirô, e netas pela parte paterna de Domingos Gonçalves Valente e de Joana Francisca, naturais e moradores na freguesia de Carregosa. Eram netas pela parte materna de Manuel Valente e Antónia Dias, igualmente do lugar de Mosteirô.

A primeira pessoa adulta a ser sepultada na Igreja Nova não era de Mosteirô e seria Ana Maria, mulher de Constantino Gomes dos Santos, da freguesia de Fornos e moradores na Vila da Feira, e que faleceu a três de Março de 1765, em casa do Capitão Manuel Marques Ferreira, no Lugar da Murtosa, “por ter vindo para a dita casa para se curar de uma moléstia de que padecia”, sendo sepultada igualmente dentro da Igreja já em 1765.

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O primeiro casamento na Igreja Nova

A Igreja Nova recebeu as primeiras cerimónias em 1764. Como se sabe, quatro anos antes, em 1758, o Padre Joaquim José Henriques deu conta dos andamentos da construção da nova igreja, nas “Memórias Paroquiais”.

O primeiro casamento realizado na Igreja Nova de Mosteirô data de 1764 e seria o de Maria Soares com Manuel José da Silva, os quais dariam origem a uma numerosa família do Lugar de Agoncida. Com efeito, a 16 de Dezembro de 1764, Maria Soares daria o nó com Manuel José da Silva, neto de Diogo Alves e bisneto de Sebastião Alves.

Maria Soares e Manuel José da Silva eram os bisavós de Maria Joana Pereira da Silva, mais conhecida por Mãe Velha, falecida já em meados do século XX, mais precisamente no dia 18 de Abril de 1951, com 95 anos de idade, na sua casa do Lugar de Agoncida.

Este casamento necessitou de investigação apurada, às vezes habitual naquela época, que o mesmo padre Joaquim José Henriques reporta fielmente:

“Aos dezasseis dias do mês de Dezembro de 1764, feitas as denunciações nesta freguesia, de onde os contraentes são naturais e assistentes, e a contraente sempre assistiu e também feitas nas freguesias de Arrifana de Santa Maria e na de S. Miguel de Souto, onde o contraente assistiu algum tempo, de onde me apresentaram banhos corridos com certidões dos reverendos párocos das ditas freguesias, sem impedimento algum, e declaro que as ditas freguesias são desta comarca e bispado, e também me não surgiu impedimento algum (…)

Se receberam em face da Igreja e em presença de mim o padre Joaquim José Henriques, cura desta freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira, Bispado do Porto, e das testemunhas abaixo nomeadas, se receberam das três para as quatro horas da tarde do dito dia, mês e ano, e se receberam por palavras de presente Manuel José da Silva, filho legítimo de António da Silva e de sua mulher Maria Antónia, neto pela parte paterna de João da Silva e de sua mulher Domingas Antónia e pela parte materna de António João e de sua mulher Domingas Antónia, todos do lugar e freguesia de Santo André de Mosteirô, comarca da Feira e Bispado do Porto. 

Com Maria Soares, filha legítima de António Soares e de sua mulher Mariana de Azevedo, do Lugar do Monte desta dita freguesia, neta pela parte paterna de Manuel Soares e de Maria Francisca, da freguesia de S. Salvador do Couto de Grijó, neta de Fernando de Matos e de Mariana de Azevedo, do dito lugar do Monte e dita freguesia de Mosteirô, e admoestei aos contraentes, na forma que determina a constituição, para que não coabitem em tempo legítimo por não receberem as bênçãos e que as viriam receber dentro de oito dias passado o tempo pro libido que lhe dê dores (…) foram testemunhas Manuel José de Resende e José de Resende, do Lugar de Proselha.”

Não se conhecem as circunstâncias que levaram o padre Joaquim Henriques a impôr tal tempo de castidade e a solicitar as certidões aos párocos das terras vizinhas, talvez devido ao facto de o noivo ter vivido e andado por essas freguesias, e nunca se sabe o que ele terá andado por lá fazer e se não teria constituído anteriormente família nas suas andanças.

 

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Soldados de Mosteirô, mortos em Olivença

O drama atingiu Mosteirô quando o pai de António Dias foi informado da morte do seu filho nos combates durante a defesa de Olivença. Toda freguesia, que teria nessa altura uns 200 habitantes, entrou em alvoroço, tanto mais que havia outros jovens mancebos que tinham sido incorporados no Exército.

Conta o padre António de Freitas e Aguiar, cura da Igreja de Mosteirô, que António Dias, solteiro, filho de João Dias e de Isabel Gomes, do Lugar das Presas, desta freguesia, faleceu no Hospital da Praça de Olivença, “sendo nela soldado, adonde piamente suponho se lhe administraram os sacramentos conducentes a bem morrer. Seu pai lhe mandou fazer um ofício de quatro padre-nossos e mandou fazer este termo que assinei aos vinte e cinco dias do mês de Outubro de 1704”.

António Dias tinha somente vinte anos idade, porquanto nascera no dia 20 de Abril de 1684 e seria baptizado a 29 do mesmo mês, na Igreja antiga de Mosteirô, pelo padre Mateus Ferreira. Teria como padrinhos Bartolomeu Gomes, filho de André Gomes, do Lugar da Murtosa, e Maria Fernandes, mulher de Manuel Dias, do Lugar dos Moinhos, da vizinha freguesia de Fornos.

1704 - António Dias, Olivença

O Hospital de Olivença onde morreu António Dias, pertencia à Santa Casa da Misericórdia de Olivença, uma instituição de caridade dependente na altura da Santa Casa da Misericórdia portuguesa, mas actualmente sem qualquer dependência desta. Foi inaugurada por D. Manuel I em 20 de novembro de 1501, com a presença do governador da praça, do bispo, de militares e de uma grande parte da população. As primeiras reuniões, contudo, realizaram-se no edifício da então câmara municipal. Para este empreendimento, D. Manuel contou com a ajuda do seu escudeiro-mor Pedro da Guarda, que fundara pouco tempo antes a Confraria da Misericórdia de Olivença. Para além do hospital, a Santa Casa tinha ainda no século XVI a Igreja da Misericórdia, um asilo para idosos e um orfanato.

Entre 1704 e 1706 morreram em Olivença, Alentejo e Algarve quatro soldados do Exército português, naturais de Mosteirô, durante a chamada Guerra da Sucessão de Espanha.

Em relação à guerra da sucessão em Espanha, em que morreram os nossos conterrâneos, e de acordo com o relato do Tenente Coronel Mestre João Vieira Borges:

Guerra GRE

Assim, para o nosso País, a guerra teve início a sete de Maio de 1704, com a invasão do território nacional através de Salvaterra do Extremo e do Algarve. Com as operações fronteiriças que durariam entre 1704 e 1706, morreriam muitos soldados portugueses, entre os quais António Dias, das Presas.

O Tratado de Alcanizes, de 1297, estabelecia Olivença como parte de Portugal. Em 1801, através do Tratado de Badajoz, denunciado em 1808 por Portugal, o território foi anexado a Espanha. Em 1817 a Espanha reconheceu a soberania portuguesa subscrevendo o Congresso de Viena de 1815, comprometendo-se à retrocessão do território o mais prontamente possível. Porém, até aos dias de hoje, tal ainda não aconteceu.

António Fernandes, a vítima seguinte

Em Fevereiro de 1705, a desgraça bateu à porta de mais uma família de Mosteirô, desta vez de Manuel António, da Agoncida, ao receber a notícia da morte do seu filho António, igualmente soldado na Praça de Olivença, tendo o padre António de Freitas e Aguiar procedido aos trâmites habituais e igualmente a um ofício de quatro padre-nossos a mando do pai.

António Fernandes nasceu a dois de Maio de 1684 no Lugar de Agoncida e era filho Manuel António, do Couto de Cucujães, e de Maria Fernandes, do lugar da Agoncida. Foi baptizado pelo padre Mateus Ferreira a sete de Maio e teve como padrinhos André, filho de António Francisco, do lugar de Mosteirô, e Natália Francisca, mulher de Rafael Gomes, do Lugar de Agoncida, da freguesia de S. Vicente Pereira. Tinha vinte anos de idade no momento em que faleceu, supostamente em combate no território de Olivença.

1684 - António Fernandes, filho de Manuel António, da Agoncida

Infelizmente, as baixas continuariam a aumentar e, a 20 de Fevereiro de 1705, o padre da freguesia teria de acrescentar um novo assento com a informação da morte de Marcos Alves, do Fundo de Mosteirô, filho de António Dias e de Isabel Alves, já viúva, o qual se encontrava no Reino do Algarve. Os seus pais tinham-se casado na Igreja de Mosteirô no dia 20 de Agosto de 1679, na presença da maior parte das pessoas da freguesia que se encontravam presentes, uma vez que se tratava de um domingo.

E a 10 de Fevereiro de 1706, seria a vez da família de António dos Santos, do Lugar de Mosteirô, receber a notícia da morte do seu filho António que morreu no Hospital da Arraiolos, no Alentejo, onde se encontrava como soldado do Exército, provavelmente em consequência de ferimentos sofridos em combate.

António dos Santos, filho, nasceu a nove de Fevereiro de 1685, era filho de António dos Santos e de Grácia Leite, foi baptizado na Igreja antiga de Mosteirô a 18 do mesmo mês, pelo padre Mateus Ferreira, e teve como padrinhos o padre António Francisco, da freguesia de S. Vicente Pereira, e Isabel Dias, mulher de Domingos António da Quintã, do Lugar de Mosteirô.

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À procura do cónego Pantaleão

Nasceu em 1766 no Lugar da Murtosa e faleceu aos 66 anos de idade na cidade de Lamego

Depois de várias pesquisas que já duram há bastante tempo, conseguimos finalmente encontrar o rasto do cónego Pantaleão de Sousa, de Mosteirô, nascido no Lugar da Murtosa no seio da família Sousa Brandão.

A biografia do general Sousa Brandão, da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, dava-nos uma pista, ao relatar que “foi o seu tio Pantaleão de Sousa, cónego da Sé de Lamego, segundo crónicas da época, quem aconselhou, antes da sua morte, o sobrinho a seguir a carreira das armas e a juntar-se à defesa da causa da liberdade”.

Todavia, procurando sinais da sua passagem por Mosteirô, não se encontravam registos que atestassem esse facto, tanto mais que uma parte da família era oriunda Ossela, naquela altura pertencente ao bispado de Coimbra, e actualmente uma freguesia do concelho de Oliveira de Azeméis.

Passando a pente fino a segunda metade do século XVIII, acabámos por encontrar o registo do nascimento de Pantaleão de Sousa, com data de 12 de Setembro de 1766, e a justificação para o nome próprio pouco comum que os seus pais adoptariam.

O protonotário apostólico

Segundo o registo de baptismo, Pantaleão era filho de Domingos Ferreira Brandão e de Ana Maria Correia de Sousa, do lugar da Murtosa, da freguesia de Santo André de Mosteirô. Era neto paterno de Domingos Fernandes e de Maria Brandão, do Lugar da Ribeira, freguesia de Ossela, no bispado de Coimbra, e neto materno do capitão Manuel Tomé de Pinho e de Maria Teresa de Sousa, do Lugar de Manhouce, na Arrifana.

Conta o padre Joaquim José Henriques que Pantaleão “foi solenemente baptizado por mim, cura desta freguesia a 21 do mesmo mês e ano.” E acrescenta que “foram padrinhos o doutor Pantaleão Cardoso da Costa, protonotário apostólico de Sua Santidade, da cidade do Porto, que mandou procuração feita e assinada por sua letra, a Carlos José de Pinho, filho do Capitão Manuel Tomé, de Arrifana, desta comarca, para em seu nome fazer suas vezes, e madrinha D. Maria do Ó de Caminha, mulher de Vicente Pedro da Silva, da dita cidade do Porto, que também mandou procuração por si feita e assinada a José Alves Crespo, assistente na mesma cidade.” Os dois procuradores assistiram à cerimónia, a qual teve como testemunhas Manuel Gonçalves de Oliveira e seu filho João de Oliveira, do Lugar da Murtosa.

1766 -Pantaleão de Sousa

Protonotário de Sua Santidade, é na verdade um título eclesiástico de Monsenhor, um título de honra conferido pelo Papa a sacerdotes da Igreja Católica por serviços prestados à Igreja ou pelo exercício de funções eclesiásticas de governo ou de diplomacia. O título é normalmente abreviado por “Mons.”. Desde a reforma de Paulo VI o título de Monsenhor integra três classes: Protonotário Apostólico, Prelado de Honra e Capelão de Sua Santidade.

Com sua eleição em 2013, o Papa Francisco alterou profundamente as condições para se aceder a este título, tanto no que respeita à idade do pretendente como a quem pode obter este título de Monsenhor.

A influência de Pantaleão de Sousa no sobrinho

Por volta de 1830, Pantaleão de Sousa chamaria para junto de si o sobrinho Francisco de Sousa Brandão para cursar Humanidades, no Seminário de Lamego, passando a habitar em casa do tio, o qual, segundo a revista Ocidente, seria para ele “um segundo e desvelado pai”.

“Não obstante ser padre e cónego, era Pantaleão de Sousa um espírito levantado e liberal: morreu aconselhando o sobrinho a que seguisse a carreira das armas e defendesse a causa da liberdade”, conta a revista Ocidente.

O cónego Pantaleão de Sousa terá morrido por volta de 1833 como um defensor acérrimo da causa Liberal. Um ano antes, em 1832, o seu sobrinho Francisco Sousa Brandão, viu reforçados os seus ideias de liberdade, após o irmão do cónego Pantaleão e do seu pai, o seu tio, também padre, de nome José Maria de Sousa, ter sido fuzilado pelos miguelistas.

O padre José Maria de Sousa tinha nascido na Quinta da Murtosa a 4 de Junho de 1768 e seria baptizado três dias depois, tendo como padrinho Salvador de Carvalho, o dono da Capela de Nossa Senhora do Carmo, do Lugar da Murtosa, e como testemunhas Manuel José Carvalho da Silva e José Manuel Carvalho da Silva, filhos de Salvador de Carvalho, todos do Lugar da Murtosa. O padre José Maria de Sousa seria fuzilado aos 64 anos de idade pelas tropas miguelistas.

General Sousa Brandão2

A morte dos seus tios Pantaleão e José Maria iria precipitar a adesão de Sousa Brandão (na foto) à causa liberal. Conta a revista Ocidente que, em 1833, “a luta entre a causa do progresso e a da reacção empenhava-se naquele momento com toda a violência no cerco do Porto e sobre a cidade heroica choviam as granadas miguelistas.”

Foi aí que “Sousa Brandão atravessou as linhas como pode, penetrou na cidade, apresentou-se no quartel general e assentou praça no dia 26 de Fevereiro de 1834, ainda não tinha dezasseis anos”, diz a revista.

Estava cumprido o desejo do padre Pantaleão de Sousa, cónego da Sé Catedral de Lamego, de ver o seu sobrinho enveredar pela carreira das armas e tornar-se num dos maiores defensores da liberdade e da causa dos trabalhadores, que o distinguiu até ao fim da vida.

1768 - José Maria

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Bem pregava Frei André dos Reis

Quando o Frei da Ordem de Nossa Senhora do Carmo pregava por essas vilas e aldeias de Portugal ainda os pecados eram somente sete. Entretanto, os tempos mudaram e já existem mais seis

Frei André dos Reis aparece em Mosteirô para celebrar o nascimento do herdeiro da Casa dos Coelhos, hoje Casa do Ratão, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, e participar no respectivo baptismo. 

O reverendo padre pregador Frei André dos Reis pertencia à Ordem de Nossa Senhora do Carmo e, certamente, exercia a sua função pelo País fora, com sermões de que não temos registo, mas muito comuns naquela época.

Não sendo natural nem do Lugar da Murtosa nem da própria freguesia, Frei André dos Reis faria parte de um ramo da família dos pais do recém-nascido Manuel José, uma vez que, a partir de certa altura, a sua avó, Josefa Teresa de Jesus e Silva Reis e a sua própria mãe Florência aparecem com apelido Reis.

A tradição durante a Idade Média, que perdurou pelos séculos adiante, levava os pregadores a irem de terra em terra, pregar sermões que, invariavelmente, para além do proselitismo próprio daqueles tempos, invectivavam os pecadores e os seus pecados, particularmente os sete pecados mortais.

O proselitismo

O proselitismo consiste em levar a cabo a evangelização e a conversão daqueles que não pertencem a uma dada religião e que visa espalhar a verdadeira doutrina,  cativar novos adeptos. Esta vertente evangélica levou à criação de uma série de conflitos ao longo dos tempos, tanto durante a Idade Média, de que a Inquisição foi o período mais negro, como ainda hoje com religiões e seitas que aparecem e querem à viva-força endoutrinar e obrigar a seguir certos preceitos, um facto especialmente reforçado na actualidade pelos islamistas, os muçulmanos mais radicais.

Todavia, na Idade Média havia alguns livros elaborados pelos monges de Cister que compilavam os principais sermões da época, nomeadamente os Sermões do Domingo, os Sermões do Tempo, os Sermões de Nossa Senhora e os Sermões de Santo Agostinho. A um dado momento a Igreja Católica viu-se obrigada a denunciar os falsos pregadores, uma vez que havia muitos que começaram a inventar sermões da sua lavra, dando larga à imaginação.

Não se conhece a actividade de Frei André dos Reis, uma vez que ele só aparece em Mosteirô para ser padrinho de baptismo. Existe, no entanto, uma “carta de Frei André dos Reis, carmelita descalço, para o confessor Manuel Fernandes escusando-se de votar no negócio dos cristãos novos”, mas data de 1673 e não é do mesmo período.

O baptismo de Manuel

Foi o pároco de Mosteirô, padre Bento Gomes Brandão quem baptizou Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, filho de Salvador Gomes de Carvalho e de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, no dia 12 de Janeiro de 1752, o qual tinha nascido uma semana antes.

Era neto pela parte paterna de António Leite Gomes e Sebastiana de Pinho, moradores em Milheirós de Poiares, e possivelmente com laços às famílias Leite, Gomes e Pinho, que ainda hoje perduram no Lugar da Murtosa. Manuel, era neto pela parte materna do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira, natural da freguesia de S. Salvador de Carregosa, e de Josefa Teresa de Jesus e Silva Reis, natural do Lugar da Murtosa.

Foram padrinhos do recém-nascido o padre pregador Frei André dos Reis, da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, e a tia-avó Dona Maria Bernarda da Silva Reis, que aqui aparece com o referido apelido. Como testemunhas aparecem o Capitão Manuel Marques Ferreira, morador no Lugar da Murtosa e um dos donos da Capela, e o reverendo Padre Joaquim José Henriques, de Mosteirô.

Os sermões do século XX

No decurso de 1956, os pregadores que passaram por Mosteirô andaram particularmente atarefados. Do alto do púlpito pregavam contra as ameaças que representava o comunismo para a Igreja Católica. Os temas eram invariavelmente sobre a conversão da Rússia, sobre os males do comunismo, contra os hereges e os ateus.

No Outono desse ano tornaram-se particularmente virulentos. A Rússia tinha invadido a Hungria para esmagar a Revolta de Budapeste. Nas aldeias de Portugal os sinos tocavam a rebate durante a noite. Os pregadores multiplicavam-se. Quase todas as noites havia um novo em Mosteirô.

Uma dessas noites de frio, os miúdos da escola primária, saíram cá para fora e fizeram uma fogueira junto à igreja, do lado do salão paroquial.

No sermão da noite seguinte, tremeram de medo. O pregador que chegou nessa noite, lá do alto do púlpito, do lado esquerdo do templo, não fez a coisa por menos. O tema do sermão era mais uma vez o satânico comunismo. Vermelho de raiva, disse o pregador em abono do seu propósito:

Ainda ontem, aqui, na nossa igreja, os comunistas tentaram incendiá-la, pois querem fazer como na Rússia, onde os comunistas invadiram e destruíram todas as igrejas, mandaram prender e matar os padres e os cristãos. Mas estão enganados! O nosso Santo Salazar vai acabar com eles todos!

Como é natural, os miúdos da primária, que tinham feito uma fogueira para se aquecerem naquelas noites de frio, foram para casa aterrados e já não dormiram nessa madrugada com medo que os pais descobrissem que também eles tinham participado naquele acto malvado, encomendado pelo demónio e a soldo dos comunistas.

O Púlpito de onde pregavam os sermões

Tradicionalmente, os sermões visavam invectivar o pecado e os prevaricadores. Até há alguns anos atrás os pecados mortais eram sete. Mas, desde há 11 anos, foram acrescentados novos pecados capitais. A nova lista foi publicada no jornal ‘Osservatore Romano’, órgão oficial da Santa Sé, e atesta que o pecado passa a ter uma dimensão mais social do que, como até aqui, individual.

Aos tradicionais “sete pecados capitais”, soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça, tem de se acrescentar os novíssimos, pedofilia, poluição do meio ambiente, aborto, tráfico de droga, riqueza desmesurada e manipulação genética.

1752- Manuel José Leite de Carvalho Coelho - filho de Salvador

Destaque

O baptizado na Capela da Murtosa

Foi uma cerimónia que despertou a curiosidade das gentes do Lugar, pois contou com a presença altas individualidades, particularmente eclesiásticos da região

Numa cerimónia muito concorrida, com a presença de altas individualidades, realizou-se na Capela da Murtosa, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, com pompa e circunstância, a 12 de Janeiro de 1790, o baptizado da primeira neta de Salvador de Carvalho, dono do referido templo, filha de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, do Lugar da Murtosa, e de D. Maria Inácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, da vizinha freguesia de Arrifana.

De seu nome Maria, tinha nascido a 29 de Dezembro de 1789, em plena Revolução Francesa, que iria ter consequências nefastas para Portugal, e foi baptizada “na capela dos seus pais” pelo reverendo abade Inácio José Lopes de Puga, da vizinha paróquia de Arrifana, com autorização do pároco de Mosteirô, padre Caetano José da Costa.

Os padrinhos e testemunhas eram gente de peso naquele final do século XVIII, em Mosteirô e na região, e numa altura em que o Lugar da Murtosa tinha talvez alcançado o seu apogeu. Assim, o padrinho era nem mais nem menos que o Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira da Silva Coelho, tio-avô de Maria, natural da freguesia de Carregosa e irmão de Florência, a avó paterna da recém-nascida, e a madrinha seria D. Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, sua avó materna.

BrasõesComo testemunhas vão aparecer dois padres da região, o reverendo Padre José Leite, da mesma freguesia da Arrifana, e o reverendo Padre António Dias Manno, da freguesia de Carregosa.

Maria era neta paterna de Salvador Gomes de Carvalho e de D. Florência Maria da Silva Reis, já falecidos, e antigos moradores da Casa dos Coelhos, hoje Casa do Ratão, e neta materna de Sebastião Alberto Pacheco Varela da Cunha Cardoso e de sua mulher já referida D. Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges.

O facto de se tratar da primeira filha do casal e primeira neta de Salvador Gomes de Carvalho terá contribuído para que tal solenidade tivesse lugar na capela da família, à qual todos os seus ascendentes sempre estiveram muito apegados, e que se transformasse num grande acontecimento social da época.

O Lugar da Murtosa era, em finais do século XVIII, um dos locais mais procurados da região, onde se instalavam muitos dos militares de alta patente que passavam pela Vila da Feira, bem como outras individualidades daquela época, particularmente eclesiásticos, facto que irá permanecer no decurso do século seguinte.

1789 - Maria, filha de Manuel, neta de Salvador - 129 -1789 - Maria, filha de Manuel, neta de Salvador - 129 - 2

Destaque

O Senhor da Murtosa

É só na década de 1740 que aparece pela primeira vez o nome daquele que iria tornar-se um dos grandes do Lugar Murtosa, com propriedades que iam de Agoncida e Aguincheiro até Proselha, passando pelas Presas e pela Murtosa

Nasceu em Milheirós de Poiares, em 1704, aquele que viria a tornar-se, na realidade, o grande senhor da Murtosa. Para além da propriedade da Capela de Nossa Senhora do Carmo, Salvador Gomes de Carvalho, de seu nome, tornar-se-ia proprietário de um grande número de bens que lhe são deixados ou doados em vários testamentos ao longo do século XVIII.

Nas Memórias paroquiais de 1758, elaboradas pelo Padre Joaquim Henriques, o pároco da freguesia de Mosteirô refere-se a Salvador de Carvalho, dizendo que existe “uma capela no Lugar da Murtosa com título de Nossa Senhora do Carmo que mandaram fazer dois moradores do dito lugar os quais já faleceram e, de presente, estão senhores desta o Capitão Manuel Marques Ferreira e Salvador de Carvalho, ambos homens do lugar”.

Tal como o capitão Marques Ferreira, de Fornos, Salvador de Carvalho não tinha nascido em Mosteirô. Era natural de Milheirós de Poiares, onde nasceu a 21 de Maio de 1704, e filho de António Leite Gomes e Sebastiana de Pinho. O seu registo de nascimento começa por dizer que é filho de Salvador de Carvalho, corrigindo de seguida o nome do pai, especulando-se como posteriormente surge com o apelido de Carvalho.

O casamento com Florência

Terá sido por altura do seu casamento que Salvador adoptaria o apelido de Carvalho. Com efeito, o registo de casamento, datado de 4 de Setembro de 1748, reza que Florência Maria da Silva Carvalho Reis, de 21 anos, se casa com Salvador de Carvalho, de 44 anos, e, em registo posteriores, já aparece com o nome de Salvador Gomes de Carvalho. É possível que existissem laços familiares entre o pai, António Leite Gomes, e os Gomes da Murtosa, mas não foi possível confirmar tal parentesco, uma vez que os pais eram de Milheirós de Poiares.

Foi um casamento com pompa e circunstância, realizado na Igreja de Mosteirô, e presidido pelo tio de Florência Maria da Silva Reis, reverendo padre Manuel da Silva Grilo, prior do bispado de Coimbra. Florência era filha da irmã mais nova do padre Manuel, Josefa Teresa de Jesus e Silva Reis e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira, natural da freguesia de Carregosa, e era irmã do Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo.

Assistiram ao evento numerosos convidados tanto de Mosteirô como de Milheirós de Poiares e de Carregosa, e como testemunhas aparece o nome do capitão Manuel Marques Ferreira, tio de Florência, e o alferes Estêvão Gomes Correia, entretanto promovido a capitão, senhor da Quinta da Murtosa, tudo com a supervisão do pároco da freguesia Bento Gomes Brandão.

O primeiro dote recebido de Bartolomeu Gomes

Poucos meses depois do casamento, morre o tio-avô de Florência, Bartolomeu Gomes, a 7 de Março de 1749, tendo deixado uma escritura de dotes de todos os seus bens em favor de “seu sobrinho Salvador Gomes de Carvalho com a obrigação de casar com a sua sobrinha Florência” e nessa escritura “lhe impôs a obrigação de lhe mandar fazer seus ofícios conforme se fizeram às mais pessoas da casa já falecidas, com as suas ofertas costumadas” de 200 reis de pão e de vinho, “e de mandar dizer 10 missas por sua alma em altar privilegiado por uma só vez, e de pagar os nove alqueires de trigo que é costume pagar-se nesta freguesia por cada cabeceira que faleça. Teria de idade 95 anos pouco mais ou menos”, diz o cura Bento Gomes Brandão.

Na realidade, o irmão da avó de Florência, Bartolomeu Gomes, sendo já bastante idoso, quando faleceu tinha 86 anos de idade, uma vez que tinha nascido a 18 de Agosto de 1662, no Lugar da Murtosa, filho do patriarca da família André Gomes e de Maria Fernandes. Naquela época, não era costume ir à procura do registo de nascimento da pessoa, até porque seria difícil, e a terminologia existente dizia sempre que “teria pouco mais ou menos” um certo número de anos.

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Nicolau Gomes, amortalhado no hábito de Nossa Senhora do Carmo

A devoção da família Gomes a Nossa Senhora do Carmo, da Capela da Murtosa, fica bem patente no registo do falecimento de Nicolau Gomes. O testamento deixado por este membro da família Gomes, que morre solteiro, foi recolhido pelo então padre Joaquim Henriques e comprovado pelo escrivão da Vila da Feira, Luís Teixeira de Melo.

Nele são especificadas as suas últimas vontades, sendo explicitamente vincado que queria que “o seu corpo fosse amortalhado em um hábito de Nossa Senhora do Carmo”, diz o padre Joaquim Henriques, acrescentando ainda:
“que o acompanhamento para a sua sepultura e mais sufrágios e bens da sua alma fossem feitos na forma que se fizeram a seus irmãos e era costume da casa; e lhe mandasse dizer logo por uma só vez 50 missas em altar privilegiado e para satisfação de tudo isto e demais encargos deixava por seus herdeiros universais a Florência da Silva Reis e a seu marido Salvador de Carvalho, seus sobrinhos, de que os fazia seus testamenteiros universais”.

Diz o padre Joaquim Henriques que Salvador de Carvalho tratou da quitação do pagamento de todos os encargos respeitantes ao testamento de Nicolau Gomes, tio-avô de Florência Maria da Silva Carvalho Reis. Quando este morre a 7 de Setembro de 1754, deixa todos os seus bens aos seus sobrinhos, nomeadamente os bens que ele próprio tinha herdado do seu pai André Gomes, nomeadamente as casas dos Coelhos e as terras adjacentes, mas também a parte dos bens que o seu irmão Capitão Manuel Gomes lhe tinha deixado, e que incluía a Capela da Murtosa.

A herança deixada por Florência

Infelizmente, Florência não chegou a usufruir dos bens que o tio-avô Nicolau Gomes lhe tinha deixado nem tão-pouco do dote que o tio-avô Bartolomeu Gomes tinha oferecido aquando do seu casamento com Salvador Gomes de Carvalho.

Pouco mais de um mês depois da morte do tio-avô, regista o padre Joaquim Henriques o seu falecimento:
“Aos 27 dias do mês de Outubro de mil setecentos e cinquenta e quatro anos faleceu da vida presente Florência Maria da Silva Reis mulher de Salvador de Carvalho do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô com todos os sacramentos; teria de idade vinte e seis anos pouco mais ou menos, foi sepultada de tarde dentro desta igreja sem testamento. Salvador de Carvalho seu marido lhe mandou fazer os três ofícios gerais e teve acompanhamento de sete padre-nossos de tarde.”

Assim, em pouco mais de um mês, Salvador herda os bens do tio-avô de Florência, Nicolau Gomes, bem como todos os bens da própria mulher que já lhe tinham deixado os seus avós, Isabel Gomes e Capitão Manuel da Silva Grilo, e o seu tio-avô Bartolomeu Gomes.

O nascimento dos filhos de Florência e Salvador, um grande acontecimento

Quando morre em 1754, Florência deixa dois filhos menores, Maria de apenas cinco anos e Manuel de dois anos. O seu nascimento tinha sido motivo de regozijo e uma ocasião de celebração muito especial para toda a família Gomes, da Murtosa.

A 2 de Novembro de 1749, nasce no Lugar da Murtosa, Maria, a primeira descendente de Florência e Salvador. Não se sabe porquê, mas tratou-se de um grande evento da época. Assim, propositadamente, o tio de Florência, denominado no registo como Reverendo Doutor Manuel da Silva Grilo, tinha-se deslocado de Coimbra para ser ele próprio a baptizar a sua sobrinha, tal a importância que era dada ao acontecimento. Teve como testemunhas altas individualidades da região, nomeadamente o capitão Manuel Marques Ferreira, seu tio, e o Capitão Estêvão Gomes Correia, da Quinta Murtosa.

Os padrinhos foram escolhidos um de cada ramo da família, nomeadamente o reverendo padre António Leite Gomes, possivelmente tio da recém-nascida, que se deslocou para este efeito de Milheirós de Poiares, terra natal de Salvador de Carvalho, pai da criança, e Susana Gomes, da Murtosa, por sua vez tia de Florência.

A relevância do acontecimento é facilmente verificável pela importância dos padrinhos e das testemunhas, sobretudo quando comparada com outros registos da época, onde muitas vezes só aparece o nome do pai e dos padrinhos. É fácil encontrar registos onde se pode ler “filho de fulano de tal e de sua mulher”, sem identificar o seu nome.

Já o nascimento de Manuel, a 5 de Janeiro de 1752, o qual mais tarde irá aparecer com o nome de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, terá sido igualmente uma ocasião festiva e um grande acontecimento social, segundo a descrição do padre Bartolomeu Gomes Brandão, cura da paróquia de Mosteirô.

As heranças de Susana Gomes e de Maria Gomes

A três de Dezembro de 1752, o cura encomendado João Saraiva Valente dá conta do falecimento de uma tia-avó de Florência, Susana Gomes, solteira de 78 anos de idade, pouco mais ou menos. Curiosamente, Susana tinha nascido a quatro de Dezembro de 1678 pelo que teria 74 anos de idade.

Mas isso pouco importa para o caso. O cura regista que Susana “teve três ofícios por sua alma, de número de 20 padre-nossos cada um, e os mesmos de acompanhamento, além de vários que vieram mais, e não fez disposição alguma na hora da sua morte, nem consta que antes tivesse feito, o que tudo já tinha seu sobrinho Salvador de Carvalho e foi sepultada dentro da Igreja.”

Naturalmente, Susana teria tido pelo menos uma parte da herança dos pais e do seu irmão Capitão Manuel Gomes, o qual tinha explicitamente deixado todos os seus bens, a 7 de Março de 1735, a todos os seus irmãos e irmãs e ao seu cunhado Capitão Manuel da Silva Grilo.

Já relativamente a Maria Gomes, existe a referência ao seu testamento no registo do seu óbito realizado pelo cura da paróquia de Mosteirô, o padre Joaquim Henriques, em 12 de Dezembro de 1781 e conta o seguinte:

“Maria Gomes, solteira, assistente em casa de Salvador de Carvalho, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Mosteirô, faleceu da vida presente (…) com todos os sacramentos e teria de idade setenta anos, pouco mais ou menos. Tinha feito o seu testamento com que deixava seu universal herdeiro o dito Salvador de Carvalho, encomendando nele lhe tratasse o seu cadáver e alma, da mesma sorte e com a caridade com que sempre a tinha tratado em vida, e o mesmo Salvador lhe mandou fazer seu acompanhamento com ofício de corpo presente de seis padre-nossos.”

O falecimento do senhor da Murtosa

Quando morre em 18 de Agosto de 1785, na sua casa da Murtosa, Salvador Gomes de Carvalho era um dos homens mais poderosos de Mosteirô, principal herdeiro dos bens da família Gomes. Tinha acumulado um conjunto de heranças que incluíam a Capela da Murtosa, as casas em frente da capela, e as terras que iam de Agoncida até Proselha.

As duas mais importantes famílias da Murtosa, a família de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, da Casa dos Coelhos, hoje Casa do Ratão, e a família do Capitão Estêvão Gomes Correia, da Casa da Murtosa, hoje Quinta Sousa Brandão, tinham propriedades que se estendiam do Aguincheiro e Agoncida, pelas Presas abaixo, passando pela Murtosa, e iam até Proselha e ao Fundo de Mosteirô.

A importância de alguém é sempre uma apreciação relativa. Para os seus familiares, era tão importante a morte de Custódio Francisco, mudo, do Lugar da Quintã, que em 1794, aos 30 anos de idade, “morreu repentinamente ao cair abaixo de um carro de tojo”, como foi certamente a morte de Salvador de Carvalho para os seus filhos.

O padre Joaquim Henriques regista o falecimento do senhor da Murtosa do seguinte modo:
“Salvador de Carvalho, viúvo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô comarca da Feira e bispado do Porto; faleceu da vida presente, de repente, que nem deu tempo de se sacramentar, só por se achar presente o padre Manuel Leite da freguesia de Milheirós de Poiares o absolveu e logo faleceu sem ter feito disposição alguma, teria de idade oitenta anos pouco mais ou menos. Seu filho Manuel José Leite de Carvalho Coelho ficou herdeiro com obrigações aos seus bens da alma, e faleceu aos dezoito dias do mês de Agosto de mil setecentos e oitenta e cinco anos. Teve ofício de corpo presente de 75 padre-nossos e acompanhamento da maior parte desses.”

História Cronológica da família Gomes, da Casa dos Coelhos, da Murtosa

  • 24 de Julho de 1618, casamento dos avós de Mosteirô de Isabel Gomes, André Rodrigues e Maria Antónia Gomes
  • 11 de Abril de 1627, nasce André Gomes, pai de Isabel Gomes
  • 7 de Agosto de 1653, casamento de André Gomes com Maria Fernandes, de Cesár
  • 12 de Dezembro de 1658, nasce Manuel Gomes, que irá atingir o posto de capitão
  • 18 de Agosto de 1662, nasce Bartolomeu Gomes
  • 18 de Fevereiro de 1666, nasce Isabel Gomes, futura mulher do capitão Grilo
  • 15 de Março de 1669, nasce Domingos Gomes, que seria padre mais tarde
  • 1675, é construída a Casa dos Coelhos, que sofre remodelações e aumentos ao longo dos séculos, e hoje é conhecida como Casa do Ratão
  • 1677, é construída a mina de água até junto da pedreira da Etiópia, e a Fonte do Ratão que irá servir para abastecer as casas e alambique
  • 4 de Dezembro de 1678, nasce Susana Gomes
  • 27 de Abril de 1693, morre o patriarca da família Gomes, André Gomes, com 66 anos de idade
  • 31 de Agosto de 1698, casamento de Isabel Gomes com o capitão Manuel da Silva Grilo
  • 12 de Fevereiro de 1701, nasce Josefa Teresa de Jesus e Silva, filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo
  • 21 de Maio de 1704, nasce Salvador Gomes de Carvalho, em Milheirós de Poiares
  • 14 de Maio de 1725, casamento da filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, Josefa Teresa de Jesus e Silva com o Licenciado Constantino de Carvalho Pereira, de Carregosa
  • 14 de Julho de 1727, nasce em Carregosa Florência Maria da Silva Carvalho Reis, filha de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
  • 20 de Fevereiro de 1729, nasce em Carregosa Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, mais tarde Professo da Ordem de Cristo, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
  • 7 de Março de 1735, morre o capitão Manuel Gomes, tio e padrinho de Florência, e deixa os seus bens aos irmãos e ao cunhado capitão Manuel Grilo
  • 9 de Abril de 1735, morre Isabel Gomes, avó de Florência, deixa os seus bens ao marido Capitão Grilo
  • 19 de Julho de 1738, morre o Capitão Manuel da Silva Grilo, avô de Florência, e faz escritura em que deixa os seus bens aos seus filhos e genro Capitão Manuel Marques Ferreira
  • 19 de Novembro de 1738, nasce em Carregosa José Manuel da Silva Pereira, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
  • 4 de Setembro de 1748, casamento em Mosteirô de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, de 21 anos, com Salvador Gomes de Carvalho, de 44 anos
  • 7 de Março de 1749, morre Bartolomeu Gomes, tio de Isabel Gomes, tendo feito escritura de dote dos seus bens a Salvador Gomes de Carvalho com obrigação de casar com a sua sobrinha Florência
  • 2 de Novembro de 1749, nasce a primeira filha, Maria, de Florência Maria da Silva Carvalho Reis e Salvador Gomes de Carvalho
  • 5 de Janeiro de 1752, nasce o filho de Salvador Gomes de Carvalho e de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, a quem é dado o nome de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho
  • 3 de Dezembro de 1752, morre Susana Gomes
  • 7 de Setembro de 1754, morre Nicolau Gomes e deixa os seus bens à sobrinha Florência
  • 27 de Outubro de 1754, morre Florência Maria da Silva Carvalho Reis e deixa os bens ao marido Salvador de Carvalho
  • 12 de Dezembro de 1781, morre Maria Gomes, deixando herdeiro universal Salvador de Carvalho
  • 18 de Agosto de 1785, morre Salvador de Carvalho, deixando ao seu filho, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, todos os seus bens e a incumbência de cuidar pela sua alma, com uma missa de corpo presente e 75 padre-nossos

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Destaque

Mosteirô na Rota de Santiago de Compostela

Da próxima vez que for à Igreja de Mosteirô aproveite para observar com atenção e reparar bem nalguns pormenores esculpidos na pedra retirada das pedreiras da freguesia. Para além da magnífica cantaria, para além da grandiosidade de uma igreja construída para uma terra com uma população reduzida, de pouco mais de 280 pessoas naquela época, irá encontrar referências explícitas aos caminhos de Santiago de Compostela, vendo-se com abundância as vieiras ou conchas de Santiago.

Com efeito, Mosteirô faz parte de um dos caminhos mais antigos de Santiago que passa pelo concelho de Santa Maria da Feira, parte essa que ainda não foi identificada com a sinalética adequada, mas que irá certamente ser objecto de identificação. Existem diversas referências relativamente a este assunto, particularmente na própria Igreja e no Cruzeiro que se encontra no adro.

Ao analisar-se, a Igreja paroquial, no seu interior, apresenta nas laterais do altar-mor, o elemento identificador destes caminhos que é a vieira ou concha de Santiago, que se pode ver justamente por cima do altar de Santo André e do altar da Senhora de Fátima. O mesmo acontece no exterior, no frontispício da igreja, onde podemos ver este elemento decorativo no remate central das janelas, na pedra por cima da imagem de Santo André e mesmo no topo da frente da Igreja, em que surge esse elemento decorativo rematado com a cruz de Cristo.

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A imagem de Santo André tem por cima a vieira dos Caminhos de Santiago

Quanto à base do cruzeiro que se encontra no adro da igreja, esta remete-nos igualmente para a concha dos peregrinos dos Caminhos de Santiago. Datados de 1718, quarenta anos antes da construção da Igreja Nova, esta base e o respectivo cruzeiro encontrar-se-iam no adro da Igreja Antiga, junto à Via Antiga de Mosteirô. Curiosamente, a datação é semelhante à de uma lápide existente em Espanha.

Trezentos anos depois, aos olhos de quem olha para o nosso cruzeiro com maior atenção, aparece como uma quase certeza da passagem por Mosteirô de um dos principais itinerários dos caminhos de Santiago.

Assim, não terá sido por mero acaso que a paróquia de Mosteirô escolheu como padroeiro justamente Santo André. É que este santo está associado ao encaminhamento das almas do purgatório, uma vez que é irmão de S. Pedro, que tem as chaves do céu. Ora acontece que, tradicionalmente, os peregrinos que vão a Santiago de Compostela fazem o caminho para purificar a sua alma e, neste sentido, Santo André poderá ajudar nesta caminhada da purificação.

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Mais uma vez a vieira ou concha de Santiago como elemento central na frente da Igreja

A peregrinação a Santiago e os Caminhos da Vila da Feira

São muitos os símbolos que se podem encontrar actualmente em Mosteirô e que atestam que se tratava de um dos caminhos percorridos pelos peregrinos que seguiam para Santiago de Compostela para visitar as relíquias do santo.

Para esclarecer esta questão, solicitamos a ajuda ao Vereador do Pelouro da Cultura, Turismo, Bibliotecas e Museus, Gil Ferreira, que nos colocou em contacto com Ana José Oliveira, chefe de Divisão do Património Cultural, igualmente do Pelouro da Cultura, Turismo, Bibliotecas e Museus, da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.
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Na resposta ao nosso pedido, a qual agradecemos, Ana José de Oliveira, diz-nos que Mosteirô faz parte de um dos caminhos mais antigos de Santiago que passa pelo concelho de Santa Maria da Feira, fornecendo os dados acima expostos e que estão patentes na simbologia da Igreja de Mosteirô e acrescentando:

“Quanto ao cruzeiro, parece-me também uma concha e é um bom indicador sobre o caminho de Santiago. A sua utilização é muito frequente, mesmo antes da devoção a este santo e poderá haver essa ligação. Já nos sarcófagos romanos e nos nichos de jardins e altares de Lares, elas eram usadas profusamente, sobretudo nos zonas internas dos arcos. Continuou a ser usada e aumentou o seu uso, ainda mais, a partir do Renascimento, com o aumento da imitação da antiguidade.”

A concha ou vieira constitui por excelência um dos símbolos do Caminho de Santiago. Existe uma grande variedade de opiniões sobre a origem da integração da concha como símbolo das peregrinações a Santiago. A concha passou a chamar-se Concha de Santiago porque quando os peregrinos chegavam a Santiago de Compostela recebiam um pergaminho e colocava-se sobre o chapéu ou sobre a capa uma concha que, entre outras coisas, demonstrava a sua presença em Santiago de Compostela. Servia também como amuleto de justificação no regresso dos peregrinos à sua terra de origem provando assim a realização de um mérito pessoal.

As conchas
A concha ou vieira: 1718, base do Cruzeiro da Igreja de Mosteiro * 1700, sinalética dos Caminhos de Santiago em Espanha

Tempos houve em que a comercialização das conchas fora da cidade de Santiago de Compostela foi proibida sob ameaça de excomunhão por parte da Igreja Católica. Nos dias de hoje é comum ver-se peregrinos com este elemento simbólico nas suas mochilas ou nas bagagens das bicicletas embora, por desconhecimento, a vieira deveria ser adquirida uma vez chegando a Santiago de Compostela e dando por concluído o seu Caminho.

Os Caminhos de Santiago estão referenciados por toda a Espanha mas igualmente em Portugal e em França. Hoje em dia, são percorridos por muitos peregrinos que se dirigem a Santiago de Compostela e também por muitos turistas que querem desfrutar da caminhada e do conhecimento de percursos históricos. O trajecto que passava por Mosteirô aparece naturalmente uma vez que se encontrava na Via Antiga de Mosteirô que ligava ao Castelo da Terra de Santa Maria por onde passariam os caminhantes que vinham das terras do Vouga e necessitavam de pernoitar junto ao Castelo ou na Vila da Feira ou para aí se reabastecerem para a jornada.

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França: Vitral com a imagem de Santo André na igreja de Saint Thégonnec, Bretanha, França

O papel de Santo André entre os apóstolos

Como todos sabemos, o Dia de Santo André celebra-se a 30 de novembro. André era o irmão mais velho de Pedro, e foi um pioneiro entre os 12 apóstolos a seguir Cristo e a trazer outros para as hostes do novo pregador que surgia na terra de Israel. Com efeito, André tornou-se no primeiro dos apóstolos a reconhecer Jesus como o Messias e apresentou-o ao seu irmão Pedro. Ambos os pescadores abandonariam os seus bens para seguirem o Messias. André viveu junto de Cristo durante três anos, assistindo aos seus milagres e escutando os seus inúmeros sermões.

Até ali, André tinha sido discípulo do mestre João Batista, tal como João Evangelista. E foi através de João Baptista que ambos ouviram o testemunho do mestre sobre Jesus. Os dois apóstolos, André e Pedro, foram os primeiros a acreditar e a seguir Cristo nas suas pregações. André nasceu em Betsaida, nas margens do Mar da Galileia. Tanto ele como o seu irmão Pedro eram pescadores e, segundo a tradição, Jesus tê-los-ia chamado para serem seus discípulos dizendo que faria deles “pescadores de homens”. André também teria ocupado a mesma casa que Jesus, no início da vida pública deste, em Cafarnaum.

Assim, Santo André começou por ser um discípulo de S. João Baptista, um pregador com formação religiosa nas sinagogas da época, onde aprendeu a ler, a escrever e a interpretar as Escrituras Antigas. João nasceu no ano 7 (Antes de Cristo) numa pequena aldeia chamada Aim Karim, a cerca de seis quilómetros de distância a oeste de Jerusalém.

Como era prática ritual entre os judeus, o seu pai Zacarias terá procedido à cerimónia da circuncisão, ao oitavo dia de vida do menino. A sua educação foi grandemente influenciada pelas acções religiosas e pela vida no templo, uma vez que o seu pai era um sacerdote e a sua mãe Isabel, era prima de Maria, mãe de Cristo, e pertencia a uma sociedade chamada “as filhas de Araão”, as quais cumpriam com determinados procedimentos importantes na sociedade religiosa da altura.

João Baptista chegou a ter cerca de 30 seguidores e era conhecido por proceder ao baptismo, como forma de purificação. E foi assim que o próprio Jesus Cristo quis ser baptizado por João nas margens do Rio Jordão.

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Alminhas da Rua de Mosteirô: Almas que ides passando lembrai-vos das que estão penando

Para além do “encaminhamento das almas do purgatório” que a Igreja Católica consagrou, Santo André teve um papel importante, no início, de juntar os apóstolos seguidores de Cristo. O martírio de Santo André data de 30 de novembro do ano 63, sob o império de Nero. O Dia de Santo André é feriado em países como a Escócia e a Roménia e é um dia de festa em localidades portuguesas como Mosteirô. A imagem do santo aparece em numerosas igrejas, nomeadamente na região da Bretanha, em França. As relíquias de Santo André encontram-se na igreja de Patras, terceira maior cidade na Grécia, da qual é patrono.

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Destaque

A constituição de famílias de Mosteirô no século XVII

Estas famílias aparecem em todos os lugares mas existe uma predominância dos lugares de Proselha, da Murtosa e de Mosteirô.

O povoamento de Mosteirô tem um grande impulso nos anos de 1600, com o crescimento da população. Os números de 1527 dão-nos conta da existência de somente 19 casas e de um número de residentes que não chegaria às 100 pessoas.

No Foral da Feira fica patente que as terras de Mosteirô estariam nas mãos de apenas 14 famílias, aquelas que estavam obrigadas a pagar o foro ao rei, e que eram as de Gil Afonso, João Anes, João Vaz, Sebastião Álvares, Afonso Fernandes, Pedro Vaz, Rodrigues Anes, Pedro Afonso, Álvaro Gonçalves, Álvaro Esteves, Francisco Álvares, Álvaro Fernandes, Diogo André e Gregório Álvares, alguns dos quais provavelmente nem sequer viveriam na terra.

Durante o século XVII, desde que existem os registos paroquiais em Portugal, entre 1604 e 1700, formaram-se cerca de 160 novas famílias em Mosteirô. Este número corresponde a cerca de 900 nomes de pessoas que aí aparecem, seja do noivo e da noiva, seja os dos pais do noivo e dos pais da noiva. Alguns aparecem repetidos quando se trata de pais de noivos que casam mais de um filho ou filha, ou quando se trata de alguém que se entretanto ficou viúvo e se casa de novo.

Os apelidos mais comuns que aparecem neste século são os seguintes: Fernandes, Gomes, Dias, Gonçalves, Santos, Valente, Alves, Silva, Leite, Azevedo, Rodrigues, Henriques, Martins, Pinho, Fonseca, Coelho, Correia e Pires. A grande maioria desses apelidos vão continuar durante os séculos seguintes de XVIII, XIX e XX e muitos são aqueles que se mantêm nos nossos dias. Estas famílias aparecem em todos os lugares mas existe uma predominância dos lugares de Proselha, da Murtosa e de Mosteirô.

A lista completa dos casamentos do século XVII, ordenados pelo nome completo do marido tal como aparecem nos registos da época, pode ser consultada através do link Casamentos do século XVII – ordenados pelo nome do marido

Em alguns casos, não aparece o registo completo devido às folhas se terem deteriorado com o tempo, noutros faltam os nomes dos ascendentes e existe mesmo um que falta até o nome da noiva. Todos os registos individuais podem ser consultados directamente no Arquivo das Memórias Paroquiais da Torre do Tombo.

A listagem dos apelidos das famílias mais antigas de Mosteirô pode ser consultada nas páginas deste blogue.

Destaque

300 anos da capela da Murtosa, dedicada a Nossa Senhora do Carmo

São mais de três séculos de História de um templo que ganhou nova vida graças ao empenho do seu novo proprietário, Durbalino Oliveira, para preservar um local emblemático de culto da freguesia

Dedicada a Nossa Senhora do Carmo e possivelmente construída no século XVII, a Capela da Murtosa foi reconstruida na primeira metade do século XVIII, por decisão do Capitão Manuel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, seu cunhado, em nome de todos os membros da família Gomes, daquele lugar. O local onde se encontrava, no sítio do Outeiro (que aparece igualmente com a grafia Iteiro e Oiteiro), situa-se mesmo defronte da casa onde viviam os seus pais, irmãos e cunhados, a antiga Casa dos Coelhos, casa esta cuja construção inicial data de 1677.

Tratava-se de um local com todas as condições para ser conhecido e frequentado. Para além de ficar mesmo em frente da casa e das terras da família, a Capela de Nossa Senhora do Carmo permitia aos numerosos viajantes, habitantes ou forasteiros que por ali passavam, na Via Antiga de Mosteirô, ou mesmo os peregrinos que percorriam os Caminhos de Santiago, de terem um momento de recolhimento, tão tradicional naqueles tempos com as preocupações da salvação da alma e da preparação para o fim do Mundo.

Na realidade, a renovação da capela aparece numa época áurea tanto do Lugar como da própria freguesia e que culmina com a construção da Igreja Nova, no lugar de Proselha, com vista para o mar, como dizia o Padre Joaquim Henriques em 1758, nas Memórias Paroquiais de Mosteirô. É possível que tenha surgido igualmente como uma necessidade para todos os moradores da Murtosa, uma vez que a Igreja Antiga se tornara demasiado pequena para as celebrações daqueles tempos.

Não se sabe quantos habitantes existiam no lugar no início da primeira metade do século XVIII, possivelmente uns sessenta ou setenta, tendo em conta que em toda a freguesia haveria pouco mais de 200 pessoas, mas caberiam certamente todos dentro da capela. Em 1700, as famílias mais conhecidas do Lugar eram os Gomes, Carvalho, Pinho, Leite, Correia, Ferreira, Grilo, Fernandes e Gonçalves.

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O interior da Capela da Murtosa após o restauro do século XX

O restauro dos finais do século XX

Durante longos anos e décadas, a Capela de Nossa Senhora do Carmo esteve sem realizar qualquer culto, verificando-se uma acentuada deterioração da construção, do seu interior e de todo o espaço envolvente.

A capela pertencera aos herdeiros de Lucinda Machado Brandão de Andrade, falecida em 1961, os quais se encontravam dispersos entre Cucujães, Lisboa e Rio da Janeiro e, com a sua ausência, não tinham possibilidade de cuidar de um templo destinado ao culto por eles denominado de “CAPELA ANTIGA”.

O local do Outeiro e o templo foram vendidos e, foi graças ao empenho do seu novo proprietário, Durbalino Correia de Oliveira, e a um trabalho de recuperação extraordinário mandado executar pelo próprio, que a Capela da Murtosa voltou a apresentar-se como um templo digno do culto católico.

Para o efeito, Durbalino Oliveira solicitou o apoio técnico do Igespar, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, para que as obras de restauro fossem executadas de acordo com as regras de preservação do património e tivessem o sucesso necessário. Convém esclarecer que a capela se encontrava totalmente degradada, como atesta a imagem abaixo, sobretudo no exterior e coberta de terra e de poeira no seu interior.

Com supervisão de diversos profissionais qualificados, foi possível a total recuperação do seu interior, sobretudo dos retábulos que se encontravam cobertos por uma espessa camada de pó e que ficaram com todo o seu esplendor de outrora, melhorados com o brilho dos dourados.

Murtosa - capelaCapela restaurada

Capela da Murtosa em 1993 e quatro anos depois, após o seu restauro em 1997

 

A equipa que acompanhou todo o trabalho de recuperação da capela da Murtosa contava com a experiência e os conhecimentos de reputados especialistas tais como Mário Zagalo, no que toca aos retábulos, Pedro Santa Bárbara, na parte da cerâmica, e o historiador Roberto Reis.

A parte de alvenaria no interior e exterior e as madeiras foram objecto de uma trabalho distinto, uma vez que o telhado deixava entrar a água das chuvas, estava desprovido de tecto, com a telha à vista, e na iminência de uma derrocada, conforme pudemos constatar em 1993.

Para além das obras no interior e no exterior das paredes e do telhado da própria capela, toda a envolvente, na frente e na antiga zona a que se chamava o Outeiro, por detrás da Capela, foi objecto de um trabalho de recuperação e de embelezamento que muito beneficiou todo o conjunto em termos paisagísticos, sempre com a supervisão dos técnicos do Igespar, e de acordo com o projecto da arquitecta Rosa Maria e do engenheiro António Basto, cunhado de Durbalino.

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O restauro do século XVIII: um templo carregado de História

No dia 9 de Janeiro de 1734, o bispo do Porto concedeu licença a favor do capitão Manuel Gomes e do capitão Manuel da Silva Grilo, da freguesia de Mosteirô, para iniciarem a reconstrução da Capela de Nossa Senhora do Carmo, também conhecida como Capela de Nossa Senhora do Ermo. Seria assim a primeira vez, de que se tenha conhecimento, que a Capela da Murtosa recebia autorização do Bispado do Porto para se poderem efectuar obras de restauro que dessem condições aquele templo para poder receber cerimónias religiosas adequadas.

Os autos de dote para a referida reconstrução reportam o seguinte:

“Dizem o capitão Manuel da Silva Grilo e o capitão Manuel Gomes, da Murtosa, freguesia de Santo André de Mosteirô, Comarca da Feira e do Bispado, que Vossa Mercê foi servido conceder-lhe licença para de novo edificar uma capela com o título de Nossa Senhora do Carmo, porque esta está muito capaz de nela de se poder dizer missa e tem todos os ornamentos necessários, só necessita de ser benzida e sendo-o a licença para se dizer missa nela pelo qual não duvida pagar logo o que se costuma.”

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Esta autorização é obtida um ano antes da morte do Capitão Manuel Gomes. O longo testamento deixado por este capitão tem diversas cláusulas com orientações precisas, quer em relação ao seu corpo, à sua alma, aos seus bens e, sobretudo, relativamente à capela que ficaria na posse dos seus familiares.

O capitão era casado com Susana Rodrigues mas, pelos vistos, nada indica que o casal tenha tido filhos, uma vez que em parte alguma das três páginas do testamento ele se refere a essa questão. Por isso, o capitão, enfermo, fez questão de mandar chamar o pároco, Padre Manuel Marques Ferreira, e, na presença de seis testemunhas, ditou as suas últimas vontades que o cura se encarregou de redigir circunstanciadamente.

Todas as orientações vão no sentido de deixar os seus bens, direitos de senhorio, foros e sobretudo a capela à sua mulher, aos seus irmãos e ao seu cunhado Capitão Manuel da Silva Grilo, os quais ficam igualmente encarregados de todas as questões relacionadas com a salvação da alma e a preparação para o Dia do Juízo Final e do Fim do Mundo.

Quanto às questões de carácter religioso, o documento estipula que os seus herdeiros ficam responsáveis por mandar rezar duas missas por mês, “no primeiro e no segundo Domingo de cada mês, na nossa capela defronte das casas em que moramos, quais missas será a do primeiro Domingo de cada mês em honra de Nossa Senhora do Carmo e a do segundo Domingo de cada mês pela salvação do Fim do Mundo, por sua alma e de seus pais e de suas obrigações e parentes e minha mulher e suas obrigações”.

O capitão queria que os seus ossos fossem levados para a dita Capela e reiterou que “esta era a sua última vontade”, embora tenha sido sepultado na Igreja antiga de Mosteirô. O testamento foi redigido e assinado pelo padre Manuel Marques Ferreira, na presença das testemunhas: Domingos Leite e Francisco Leite, solteiros do lugar da Murtosa, Amaro Manuel, Manuel Henriques, António, solteiro, filho de Joana Dias, viúva das Presas, e Manuel, filho de Maria de Oliveira, viúva, todos do Lugar da Murtosa.

Dois meses depois do falecimento do Capitão Manuel Gomes, veio a falecer a sua irmã Isabel Gomes, casada com o Capitão Manuel da Silva Grilo. Três anos depois morre o próprio Capitão Grilo e em testamento deixa todos os seus bens aos seus filhos e genro, o Capitão Manuel Marques Ferreira, possivelmente sobrinho do próprio padre.

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Uma família com apego à Capela da Murtosa e ao Culto de Nossa Senhora do Carmo

O Capitão Manuel Gomes deixa em testamento a sua parte relativa à Capela e outros bens à sua mulher, irmãos e cunhado. Mais tarde, os outros irmãos e o cunhado vão igualmente deixar os seus bens patrimoniais aos herdeiros de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo e a um outro sobrinho, Salvador de Carvalho.

É por esse motivo que, já na década de 1750, aparecem o capitão Manuel Marques Ferreira e Salvador de Carvalho, referidos pelo Padre Joaquim Henriques, como proprietários da Capela da Murtosa. Com efeito, enquanto o capitão Marques Ferreira era genro de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, já Salvador de Carvalho seria um sobrinho.

Isabel Gomes Coelho é um daqueles casos de famílias mais antigas de Mosteirô cuja trajectória percorre vários séculos e que se torna particularmente importante durante o século XVIII, tal como outras famílias da nossa terra naquela época.

Isabel nasceu a 18 de Fevereiro de 1666 no seio de uma família com um percurso que remonta ao século XVI. Quando morre aos 69 anos de idade, em 17 de Agosto de 1735, sem ter assistido ao casamento da sua segunda filha Maria Bernarda da Silva, deixa uma descendência com percursos e histórias diferenciadas, mas igualmente importantes.

No seu testamento, Isabel deixa todos os seus bens, incluindo a Capela de Nossa Senhora do Carmo, ao marido Capitão Manuel da Silva Grilo. O registo de óbito estipula as condições:

“Aos 9 dias do mês de Abril do ano de 1735, faleceu da vida presente e se sepultou aos 10 do mesmo mês e ano, Isabel Gomes, mulher do Capitão Manuel da Silva Grilo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô, e foi sepultada dentro desta igreja de Santo André de Mosteirô, com todos os sacramentos. Seria de idade de 70 anos, pouco mais ou menos, e fez o seu testamento verbal em que deixou o seu marido por seu herdeiro.”

E, na tradição daquela época, refere que o marido ficaria incumbido de cuidar das questões da sua alma por forma a atingir a santidade e “na forma que ela por ele faria caso ele morresse antes dela”, dando indicações concretas sobre este aspecto.

Toda a família de Isabel Gomes, incluindo os pais e os irmãos, nasceram no Lugar da Murtosa e viveram ao longo da vida na casa em frente à Capela de Nossa Senhora do Carmo, que no século XVII era conhecida como Casa dos Coelhos.

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Isabel casou aos 33 anos de idade com o Capitão Manuel da Silva Grilo, aquartelado na Vila da Feira, mas natural de Alvarelhos, nessa altura uma freguesia pertencente ao concelho da Maia. O casal era constantemente chamado a acorrer a situações que surgiam nas redondezas. Acolhia em sua casa as chamadas “assistentes” que iam iniciar uma aprendizagem, enquanto solteiras, para se prepararem para a vida de casadas, a qual poderia consistir em aprender a ler, escrever e contar, a cozinhar, bordar e receber toda a educação religiosa da época.

Isabel e o Capitão eram muitas vezes solicitados para serem padrinhos de baptismo de recém-nascidos de toda a freguesia, assim como os seus filhos quando atingiam a idade adequada, o que aconteceu mais de 40 vezes entre 1699 e 1739, durante quarenta anos.

Também socorriam pedintes que por ali passavam ou acolhiam em sua casa carenciados, como foi o caso do bebé enjeitado que tinha sido deixado numa noite de Inverno à porta da casa da viúva Domingas Antónia daquele lugar, embrulhado nuns panos velhos, quase morto de frio e sem qualquer alimento, a quem deram o nome de Leonardo.

A família de Isabel Gomes aparece a desenvolver-se na segunda metade do século XVI e durante o século XVII. Nos anos de 1500, os familiares mais antigos de Isabel Gomes, por parte do pai, eram naturais e moradores da freguesia de Santo André de Proselha (Mosteirô).

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Os seus pais casaram na Igreja Antiga de Mosteirô no dia 7 de Agosto de 1653. O pai, André Gomes, nasceu na Murtosa e foi baptizado a 11 de Abril de 1627, tendo tido como padrinhos Domingos António e Mónica Fernandes. Era o filho mais novo de André Rodrigues e de Maria Antónia Gomes. A mãe de Isabel, Maria Fernandes, era natural de Cesár e filha de António Alves e Lucrécia Fernandes.

Anteriormente, os avós do lado paterno de Isabel Gomes tinham casado na Igreja de Santo André de Proselha em 24 de Julho de 1618. André Rodrigues e Maria Antónia Gomes eram naturais do lugar da Murtosa, onde nasceram durante o século XVI. O avô André era filho de Domingos Rodrigues e de Domingas Jorge e, por sua vez, a avó Maria Antónia Gomes era filha de António Gomes e de Cristina André, todos da freguesia de Santo André de Proselha e nascidos por volta dos anos de 1560/1570. Foram testemunhas do casamento dos avós, os moradores do lugar da Murtosa: Amaro André, António Rodrigues e Domingos Gonçalves.

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Trata-se sem dúvida de uma das famílias mais antigas de Mosteirô, cuja linhagem remonta ao século XVI, uma vez que os bisavós de Isabel Gomes já tinham nascido e eram moradores do Lugar da Murtosa na segunda metade desse século. Além de Isabel, os seus pais André Gomes e Maria Fernandes teriam mais quatro filhos: Manuel, Bartolomeu, Maria e Susana.

Manuel, Bartolomeu e Susana vão ter uma intervenção directa no futuro da Capela de Nossa Senhora do Carmo. Para além do dote do Capitão Manuel Gomes que tornou possível o restauro da capela mais antiga, os irmãos Bartolomeu e Susana vão fazer testamentos de doação da sua parte ao seu sobrinho Salvador de Carvalho. Quando morre em três de Dezembro de 1752, Susana faz questão de especificar essa doação. De igual modo, Bartolomeu Gomes deixa explícito aquando da sua morte em sete de Março de 1749, que deixa todos os seus bens, incluindo a sua parte da capela, ao seu sobrinho Salvador Gomes de Carvalho como dote para este casar com a sua sobrinha Florência, irmã do Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho e neta de Isabel Gomes e do capitão Manuel Grilo. Florência tinha nascido a 18 de Maio de 1727, em Carregosa, na Quinta da Póvoa, e teve como padrinho o tio, capitão Manuel Gomes, do Lugar da Murtosa.

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Quanto ao Capitão Manuel da Silva Grilo, morreria três anos depois de Isabel Gomes e o documento relativo ao seu falecimento é bem mais extenso e circunstanciado, foi escrito pelo novo padre cura da paróquia, padre Domingos Ferreira e conta o seguinte:

“Aos 19 do mês de Julho de 1738, faleceu da vida presente o Capitão Manuel da Silva Grilo, viúvo do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô com todos os sacramentos da Santa Madre Igreja, sendo sepultado o seu corpo de dentro da Igreja da dita freguesia. Não fez testamento, tinha feito escritura dos seus bens a seus filhos e genro Capitão Manuel Marques Ferreira, com obrigação de lhe fazerem os bens da alma e pagarem os mais costumes conforme fez sua mulher Isabel Gomes. E logo se fez acompanhamento de tarde de 18 padre-nossos, em que veio uma oferta de 200 reis em pão e vinho e carneiro, e fez-se o primeiro ofício de trinta padre-nossos com oferta de 200 reis. Do qual defunto ouvi dizer que tinha 73 anos, pouco mais ou menos, e fiz este assento que assinei.”

Desta forma, todos eles mostraram o seu apego à Capela da Murtosa e que o seu restauro não tinha sido uma acção de circunstância, mas sim um acto deliberado de preservação de um bem pelo qual tinham uma alta consideração.

As tradições religiosas e militares da família Gomes

Os descendentes de André Gomes, do Lugar da Murtosa, e os familiares que entretanto se incorporaram, tiveram naturalmente percursos diversos mas vamos encontrar duas características que perduraram no tempo: a carreira militar e a carreira eclesiástica.

Assim, para além do Capitão Manuel Gomes, filho mais velho de André Gomes, que seguiu a carreira militar, vão fazer parte da família os capitães Manuel da Silva Grilo e Manuel Marques Ferreira. Já no que toca às questões religiosas, para além da salvaguarda da capela da Murtosa, vamos encontrar um dos filhos do capitão Grilo e de Isabel Gomes, igualmente de nome Manuel Silva Grilo, que irá enveredar pelo sacerdócio e o neto Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, primo de Salvador de Carvalho, que abraça a carreira de uma ordem militar-religiosa, a Ordem de Cristo, par além de um outro familiar, o Padre Domingos Gomes.

Em 1708, os capitães Manuel da Silva Grilo e Manuel Gomes iriam ter um papel de testemunhas. Com efeito, a casa dos Condes da Feira vagou para a Coroa por morte do Conde D. Fernando Forjaz Pereira, pelo que D. João V fez dela doação a seu irmão o infante D. Francisco, por carta dada em Lisboa em 10 de Fevereiro de 1708, embora declarando-se ali estivesse em litígio essa casa. D. Francisco passou procuração ao Provedor da Comarca de Esgueira, para tomar por ele posse, em Lisboa, em 3 de Maio de 1708, posse que foi tomada em 18 de Maio nas casas da câmara da Vila da Feira. O capitão da Vila da Feira, Manuel da Silva Grilo, e o capitão de Pereira Jusã (S. Vicente Pereira), Manuel Gomes, seu cunhado, estiveram presentes como testemunhas nesta tomada de posse.

Isabel Gomes Coelho e o capitão Manuel da Silva Grilo tiveram seis filhos – Manuel, Josefa, Caetana, Maria Bernarda, Caetano e Rosa – todos nascidos no Lugar da Murtosa, na Casa dos Coelhos, e todos baptizados na Igreja Antiga. Um ano depois do seu casamento nasceria o seu primeiro filho, Manuel da Silva Grilo, a 17 de Agosto de 1699, que veio a ser baptizado a 5 de Setembro, tendo como padrinhos o Padre Domingos Gomes e Maria Gomes, mulher do Licenciado António de Pinho, do Lugar de Macieira, freguesia de Souto, sendo testemunhas João Dias, das Presas e Manuel Henriques, de Mosteirô.

O filho Manuel seguiria a carreira eclesiástica, aparecendo a partir de 1717 em diversos baptismos na Igreja de Mosteirô na qualidade de “clérigo in minoribus”. Naquela época, muitos jovens recebiam ordens menores, e por isso eram os “clerigos in minoribus”. Mais tarde poderiam aceder ao sacerdócio mas, para tal, requeria-se a habilitação “de genere”.

Através deste procedimento, criado durante a Inquisição, haveria uma averiguação para saber se o tonsurado era filho legítimo ou ilegítimo, se os seus ascendentes viviam nos princípios da religião católica, se não eram criminosos de lesa majestade, divina ou humana e se tinham incorrido em alguma infâmia pública ou pena vil. A partir de 1730, o filho Manuel já aparece como padre a participar em diversas celebrações e em registos de 1739 surge como “Reverendo senhor Doutor Desembargador Manuel da Silva Grilo” no baptizado do filho de Francisco Leite e de Rosa Gomes de Jesus, moradores no Lugar das Presas. Em 25 de Junho de 1758, o Padre Manuel da Silva Grilo seria nomeado pároco da freguesia de Cepelos, em Vale de Cambra.

A 12 de Fevereiro de 1701 nasceria a primeira filha do casal, Josefa Teresa de Jesus e Grilo, tendo tido como padrinhos Miguel da Silva Grilo, tio paterno da freguesia de Alvarelhos, e Susana Gomes, tia materna do lugar da Murtosa, sendo testemunhas o Capitão António Gomes Loureiro e o Licenciado António Pinho de Oliveira. O baptismo foi realizado a 20 do mesmo mês pelo Padre Domingos Gomes.

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Anos mais tarde, Josefa casaria com o licenciado Constantino de Carvalho Pereira, de Carregosa, freguesia para onde iria viver. Deste casamento nasceria o Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, e a filha Florência prometida mais tarde em casamento a Salvador de Carvalho.

A 13 de Junho de 1704 nasceu Maria Bernarda da Silva Grilo que teve como padrinhos de baptismo Bartolomeu Gomes, do Lugar da Murtosa e tio materno de Maria Bernarda, e Catarina de Jesus, mulher de Damião da Silva Grilo, tio paterno e morador na cidade do Porto. O baptismo foi realizado pelo Padre Manuel Marques, abade da Igreja de S. Salvador de Fornos.

Maria Bernarda casaria a 27 de Janeiro de 1737, na Capela de Nossa Senhora do Carmo, pertencente à família no Lugar da Murtosa, mesmo defronte da casa dos seus pais, a Casa dos Coelhos, com o Capitão Manuel Marques Ferreira, natural de Fornos.

1737 - casamento na Capela - reg. 1751737 - Casamento reg. 176

As cerimónias religiosas realizadas na Capela da Murtosa

Para se poder celebrar actos religiosos na Capela da Murtosa torna-se necessário que esta seja benzida pela entidade competente. Assim, a primeira cerimónia pública após o restauro efectuado nos anos 1990 teve lugar no dia 12 de Julho de 1997, presidida pelo Padre Paiva, e que contou com a participação do Bispo do Porto, Manuel Pelino Domingues.

Tratou-se da inauguração e da bênção da Capela de Nossa Senhora do Carmo, acto que teve a presença de outras individualidades e de numerosos convidados por parte dos novos proprietários deste testemunho da história de Mosteirô, Durbalino Correia de Oliveira e Conceição Bastos.

Tanto quanto se sabe, ao longo dos séculos, na Capela da Murtosa terão sido realizados casamentos, baptizados e talvez cerimónias fúnebres de membros da família do Capitão Manuel Gomes, bem como procissões, missas e outros actos de carácter religioso, tornando-se assim um templo carregado de história. Alguns desses eventos ficaram registados, sendo possível o seu conhecimento, enquanto doutros ter-se-á esfumado no tempo.

O total restauro da Capela da Murtosa, bem como de toda a zona envolvente, além de lhe retribuir o brilho de outrora, tornou possível dar continuidade à História deste templo através da realização já neste século de diversas cerimónias de carácter religioso, tal como missas, procissões ou casamentos.

Para além da Procissão das Velas no mês de Maio e da missa em honra de Nossa Senhora do Carmo, cuja comemoração anual a nível mundial é no dia 26 de Julho de cada ano, são organizados outros eventos com ligação à religião católica.

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O primeiro casamento do século XXI

Assim, em 25 de Outubro de 2003, tem lugar o primeiro casamento na rejuvenescida Capela da Murtosa, através do matrimónio do filho do Durbalino e de Conceição. Com efeito, ao meio-dia desse dia, teve lugar o casamento de Marco Ezequiel Ferreira de Oliveira com Catarina João Sá Resende, natural de Santa Maria da Feira, filha de José Armando Correia Resende e de Maria Idália Teixeira de Sá, o qual iria tornar-se um acontecimento social da época.

Na presença de mais de duzentos convidados, e no dia de aniversário de Catarina, dá-se o enlace matrimonial na Capela restaurada que, assim, acolheu o primeiro casamento deste século XXI. Foram padrinhos do casamento Porfírio Ferreira de Bastos, Donzília Ferreira Dias, José Teixeira de Sá e Maria Clara Gomes Oliveira Teixeira de Sá. Este evento social foi “brindado” com uma tempestade outonal, que desencadeou logo após a cerimónia uma chuva torrencial que caiu nesse dia e veio dar as boas-vindas ao novo casal. Esta cerimónia ocorre 266 anos depois de outro casamento aí realizado no século XVIII.

Com efeito, não seria esta a primeira vez que a Capela da Murtosa assistia a um casamento. Séculos antes, a 24 de Janeiro de 1737, três anos depois do primeiro restauro, realizava-se o casamento da filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, Maria Bernarda da Silva, nascida e moradora no lugar, com o capitão Manuel Marques Ferreira, natural de Fornos, filho de Feliciano Marques e de Catarina Ferreira.

Foi um casamento que necessitou de uma autorização especial por parte do Vigário Geral do Bispado do Porto por se tratar de uma cerimónia fora da Igreja da freguesia, situada no Lugar de Proselha.

A celebração teve lugar na Capela de Nossa Senhora do Carmo e contou com a presença das seguintes testemunhas: o reverendo Rodrigo Brandão da Silva, o Licenciado Constantino de Carvalho, tio de Maria Bernarda, Vitoriano de Sousa e ainda Bartolomeu Gomes, igualmente tio da noiva.

Capela e o casal

A devoção a Nossa Senhora do Carmo

A Capela da Murtosa é dedicada a Nossa Senhora do Monte Carmelo ou Nossa Senhora do Carmo, título atribuído a Maria, mãe de Cristo, em honra da sua função como padroeira da Ordem Carmelita. Os primeiros carmelitas eram eremitas que viviam no Monte Carmelo, na Terra Santa, em Israel, entre o final do século XII e meados do século XIII. Este lugar sagrado do Antigo e do Novo Testamento terá sido onde o Profeta Elias “evidenciou a existência de Deus”. Os monges carmelitas construíram, no meio dos seus eremitérios, uma capela que dedicaram a Maria.

Devotos de Nossa Senhora do Carmo, o capitão Manuel Gomes e os seus irmãos e cunhado resolveram dedicar a capela da Murtosa justamente à padroeira da Ordem Carmelita.

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Desde o século XV, a devoção popular a Nossa Senhora do Carmo está centrada no seu escapulário, também conhecido como escapulário marrom (castanho). Trata-se de uma vestimenta associada às promessas de ajuda feitas por Maria para a salvação do devoto portador.

O Dia de Nossa Senhora do Carmo festeja-se a 16 de julho. Segundo a tradição, Maria entregou nesse dia de 1251 o escapulário a um carmelita chamado Simão, em Cambridge, na Inglaterra.

Porém, a principal promessa do escapulário consiste na própria salvação eterna: “Quem morrer com o Escapulário não padecerá o fogo do inferno”. O escapulário era o avental usado pelos monges durante o trabalho para não sujar a túnica. Colocado sobre as escápulas (ombros), é uma peça do hábito que ainda hoje todo carmelita usa.

Conventos, igrejas e capelas em Portugal, Brasil e América Latina

Em Portugal e no Brasil existe um grande número de localidades em cidades, vilas e aldeias em que a padroeira é a Nossa Senhora do Carmo, e outras onde existem conventos, basílicas, igrejas e capelas devotadas a esta representação mariana. Esta veneração estende-se também a muitas cidades da América Latina.

Em Portugal vamos encontrar o Convento do Carmo, em Lisboa, a Igreja do Carmo, no Porto, e em muitas outras localidades por todo o País, como Faro, Moura, Viana do Castelo, Braga, Viseu, Santarém, Tavira, onde se comemora o dia 16 de Julho, com procissões que juntam centenas e mesmo milhares de fiéis.

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Igualmente, no Brasil, fruto da influência portuguesa, aparecem muitas cidades em que grandes igrejas e basílicas foram construídas para venerar Maria, mãe de Cristo, na sua representação carmelita. As mais famosas são sem dúvida alguma as igrejas de Ouro Preto, no Estado de Minas Gerais, mas igualmente a antiga Sé do Rio de Janeiro e a de S. Salvador da Bahia, cuja procissão recebe milhares de devotos oriundos de todo o Estado e de todo o País, para além das igrejas de Recife, Olinda ou Campinas.

A mais importante é sem qualquer dúvida a antiga Sé Catedral do Rio de Janeiro. A Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé é uma paróquia da Igreja Católica, localizada na Rua Sete de Setembro, nº14 com a Rua 1º de Março, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Foi a sede episcopal da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro até 1976, quando foi concluída a nova Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, razão pela qual também é referida como Antiga Sé.

A igreja localiza-se em frente à histórica Praça XV de Novembro, ao lado dos edifícios coloniais do antigo Convento do Carmo e da Igreja da Ordem Terceira do Carmo (que é mais propriamente a igreja cuja titular é Nossa Senhora do Monte do Carmo).

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Fotografias autores:
Helena Aleixo, Marco Ezequiel, Arnaldo Pereira dos Santos, Foto Classic e Acácio Gomes

Destaque

1809: O massacre da Igreja de Arrifana

TRÊS HOMENS DE MOSTEIRÔ fuzilados há 210 anos, do dia 17 de Abril de 1809, pelas tropas de Napoleão, a mando do marechal Soult, comandante da 2ª Invasão Francesa, numa matança em que foram barbaramente trucidados 71 mancebos de Arrifana e das freguesias mais próximas

O drama atingiu toda região. No dia 17 de Abril de 1809, Manuel Gomes Brandão foi fuzilado pelas tropas francesas na Igreja da Arrifana, juntamente com o seu filho Domingos Gomes Brandão e Manuel Francisco. Seriam mais tarde sepultados na Igreja de Mosteirô e o Padre José Leite de Oliveira escreveria no livro de registos: “Manuel Gomes Brandão e seu filho Domingos, do Lugar da Agoncida, e Manuel, filho de António Francisco, faleceram da vida presente, arcabuzados na freguesia de Arrifana, pelos inimigos franceses, e fiz este assento hoje, no primeiro de Julho de 1809”.

No massacre da Arrifana, como ficou conhecido, foram mortas 71 pessoas, sendo estes 3 de Mosteirô, 1 da Vila da Feira, 4 de São João da Madeira e os restantes da freguesia da Arrifana. Os relatos contam que, “na madrugada de 17 de abril de 1809, as tropas francesas cercaram e tomaram a povoação de Arrifana. Quem ofereceu resistência ou ensaiou a fuga foi morto a tiro, à coronhada ou trespassado pelos sabres e baionetas dos soldados de Napoleão. Grande parte da população procurou refúgio no interior da igreja”.

Acreditando que dentro do templo se encontrariam a salvo, os populares desarmados acabaram por se meter num armadilha terrível. As tropas de Napoleão não tiveram contemplações e os soldados franceses obrigaram todos os homens válidos a saírem da igreja da Arrifana em grupos de cinco, seleccionando de seguida ali mesmo um em cada cinco para ser executado.

Monumento

Esta matança foi uma represália pela morte de um oficial francês, sobrinho do Marechal Soult, então Comandante da Invasão Francesa a Portugal, durante uma emboscada realizada na ponte da estrada de Lisboa, em Santiago de Riba Ul, organizada por Bernardo António Soares Barbosa da Cunha, natural de Arrifana, um dos mais importantes morgados da região, que tinha juntado vários jovens vizinhos da freguesia e lhes tinha dado instrução militar, organizando um grupo de guerrilheiros que repetidamente atacava as tropas inimigas.

Entre estes jovens estava João Leite Ribeiro de Resende, mais tarde promovido a capitão do Exército, o qual viria a casar em Mosteirô com Ana Angelina Leite de Pinho, dando continuidade à conhecida família do Custódio, desta freguesia.

O objectivo da emboscada levada a cabo pelos arrifanenses seria o de aprisionar o grupo francês para lhe apreender os despachos. Os franceses, porém, resistiram e, quando o oficial francês ia tirar as pistolas dos coldres, Bernardo Barbosa disparou a espingarda que trazia, matando de imediato o oficial gaulês. Os portugueses deste grupo guerrilheiro puseram-se a salvo, indo refugiar-se na casa da Ribeira, no lugar de Salgueiros, onde o Padre Manuel Ribeiro os albergou.

Tendo-se sabido quem tinha sido o organizador da emboscada, o próprio Marechal Soult pôs a sua cabeça a prémio e decidiu o massacre da Igreja da Arrifana. Bernardo António Soares Barbosa da Cunha iria juntar-se ao exército anglo-português como voluntário, participando em diversas ações militares, tal como os outros jovens.

Igreja de Arrifana
O local onde se deu o massacre, perpetrado a mando do marechal Soult

Quem eram os “arcabuzados” de Mosteirô

Os três homens de Mosteirô fuzilados pelas tropas de Napoleão tinham entre 28 e 54 anos e residiam na época no Lugar de Agoncida e no Lugar da Quintã. O mais velho, o pai de Domingos, Manuel Gomes Brandão, tinha casado no dia 27 de Novembro de 1775 na Igreja de Mosteirô com Francisca Clara dos Santos, residindo em Agoncida. Era filho de António Gomes Brandão e de Joana Antónia, de Souto, enquanto Francisca Clara era filha de Egídio José da Silva e de Ana Maria dos Santos, de Agoncida. Manuel Gomes Brandão era neto paterno de António Gomes Brandão e Luísa Gomes, do Couto de Cucujães, e neto materno de António Ferreira e Maria Antónia, de Souto. Por sua vez, os avós paternos de Francisca Clara dos Santos, Sebastião Antunes de Pinho e Joana Luísa da Silva, eram naturais da Vila de Soure, enquanto os avós maternos, Fernando de Matos Mascarenhas e Angélica dos Santos, eram da Arrifana.

Manuel Gomes Brandão e Francisca Clara dos Santos e Francisca tiveram três filhos: Maria, Clara e Domingos. Domingos Gomes Brandão, assassinado pelas tropas francesas com apenas 28 anos de idade, nasceu em Mosteirô, no Lugar de Agoncida, a sete de Agosto de 1780. Manuel Gomes Brandão teve oportunidade de ver casar as duas filhas Maria em 1800 e Clara em 1801 e de assistir ao baptismo da sua primeira neta Maria, em 12 de Fevereiro de 1801.

Quanto a Manuel Francisco, o terceiro homem fuzilado na matança da Igreja da Arrifana, pertencia a uma família do Lugar da Quintã, tendo nascido em Mosteirô a 3 de Junho de 1779, sendo filho de António Francisco e de Maurícia Josefa, tendo sido assassinado pelos franceses com apenas 29 anos de idade. Era neto paterno de Manuel Francisco e Doroteia Gomes e neto materno de Domingos José e Josefa Maria, todos da freguesia de Santo André de Mosteirô.

7-8-1780 - Domingos Brandão
Domingos Ferreira Brandão, um dos mártires fuzilados pelas tropas de Napoleão

As circunstâncias do massacre

Tendo a cidade do Porto sido ocupada durante a 2ª invasão francesa, a 29 de março de 1809, foram mandados estabelecer pelos ocupantes postos avançados para o Sul, até ao rio Vouga. Nesse contexto, um piquete de cavalaria sob o comando de um oficial superior das tropas do marechal Nicolas Soult, foi interceptado na referida emboscada organizada por Bernardo Barbosa na ponte de São Tiago de Riba Ul, no antigo percurso da estrada principal, e o referido sobrinho do marechal seria morto ali mesmo.

As represálias da tropas de Napoleão foram brutais. E assim, dá-se na madrugada de 17 de abril de 1809 a brutal chacina levada a cabo pelas tropas francesas que cercaram e tomaram a povoação de Arrifana, decidindo executar um em cada cinco dos homens refugiados na Igreja da Arrifana.

Os “quintados” – como ficaram conhecidos – foram de seguida levados para um lugar chamado da Buciqueira onde seriam fuzilados pelos invasores. Seguiu-se o incêndio da povoação que atingiu a maior parte das casas. Quando os soldados de Napoleão partiram, deixaram atrás de si Arrifana em chamas e as suas vítimas empilhadas no local do massacre, ou dispersas por campos e caminhos, penduradas de cabeça para baixo em várias árvores. Para que ficasse registado como exemplo, levaram algumas das vítimas para o local da emboscada, a ponte de Santiago de Riba Ul, onde as suspenderam em postes.

Monumento aos mártires das invasões
Monumento em honra dos que caíram durante as invasões francesas

O impacto da guerra na população de Mosteirô

Durante o período das invasões francesas, verifica-se em Mosteirô uma diminuição acentuada do número de casamentos relativamente ao período anterior. Com efeito, nos 10 últimos anos do século XVIII registaram-se na freguesia 30 casamentos enquanto nos 20 anos seguintes, até 1820, isto é num período que representa o dobro do tempo, apenas encontramos 15 matrimónios na primeira década do século XIX e 17 na segunda década..

É possível que as invasões napoleónicas tenham levado ao alistamento no Exército de muitos dos jovens mancebos da terra e à sua participação na guerra contra as tropas estrangeiras e essa seja a explicação mais plausível para uma tal diminuição. Em contrapartida o número de óbitos regista uma evolução inversa. Assim, na última década do século XVIII verifica-se a existência de 65 falecimentos e nas duas décadas seguintes registaram-se um total de 200 óbitos, sendo 106 na primeira década do século XIX e 94 segunda década. Todavia, não se pode inferir que tenha sido em resultado directo das invasões francesas, tanto mais que os mancebos que tenham sido alistados e que tenham morrido fora da região não eram trazidos para a terra para aí serem sepultados.

Mas onde se verifica uma clara tendência de mudança é no número de crianças que nasceram nesta época. No período após fim da guerra com os franceses assiste-se ao nascimento de um número bastante superior. Com efeito, enquanto na década de 1810 são registados 96 baptismos, uma diminuição de mais de 20 relativamente à década de 1800, já na década de 1820 vamos verificar a um aumento de mais de 35 por cento do número de recém-nascidos com 130 baptizados nesse período.

Tal facto poder-se-á explicar por se ter chegado ao fim das invasões francesas e da guerra que estas trouxeram o que terá permitido alguma estabilidade que se iria traduzir num grande número de casamentos na década de 1820 em que se realizam 32 matrimónios, tantos quantos os somados nos 20 anos anteriores, com um recorde de casamentos em 1829.

Capitão João Ribeiro Leite
Casamento do Capitão João Ribeiro Leite de Resende com Ana Angelina de Oliveira Leite

Um dos que viria a casar em Mosteirô nessa década foi justamente o Capitão João Leite Ribeiro de Resende, um dos jovens que em Abril de 1809 participou na emboscada às tropas francesas na ponte de Santiago de Riba Ul. Com efeito, no dia 31 de Janeiro de 1822, o Capitão Leite Robeiro casaria na Igreja de Santo André de Mosteirô com Ana Angelina de Oliveira Leite, do Lugar da Murtosa, filha de António Gomes da Costa e de Maria Rosa, neta paterna de António Gomes da Costa e de Teresa Maria, de Milheirós de Poiares, e neta materna de Manuel de Oliveira e Maria Leite de Pinho, do Lugar da Murtosa. Quanto ao Capitão João Leite Ribeiro de Resende, era natural da Arrifana e filho de António Ribeiro Leite de Resende e de Luísa Margarida de Resende, neto paterno de João José Gomes de Resende e de Maria Ribeiro Leite e neto materno de Joaquim Leite e de Rosa de Resende, todos da freguesia de Arrifana. Foram testemunhas do matrimónio Vicente Carlos Meireles de Sousa Brandão e António Maria, ambos do mesmo lugar.

Destaque

Assim nasciam as estradas do País

Ernesto Fifante, Domingos das Presas, Salviano do Nogueira, António do Estanqueiro, Fernando Leal, Zé da Serra, Zé do Viana, Salvador da Chica, Alcino Leal, Abílio da Serrana ou Orlando do Nogueira, foram alguns dos homens de Mosteirô que trabalharam nos estaleiros da empreiteira de Gil Andrade e Silva

Nos anos 40, 50 e 60, foram muitos os homens de Mosteirô e de toda região que trabalhavam para empresa de obras públicas de Gil Andrade e Silva, um dos empresários mais conceituados da região, empreiteiro que, naquela altura, empregava centenas de pessoas de todo o País, na construção de estradas e de outras infraestruturas de que Portugal carecia.

Saíam à segunda-feira logo pela manhã cedo, sentados em bancos corridos nos camiões, e regressavam ao Sábado pela noite dentro, quando a obra era relativamente perto de Mosteirô. Muitas vezes, quando o trabalho era muito longe, seja para Norte seja para Sul, não dava tempo para virem a casa ver a família e ficavam nos estaleiros ao fim-de-semana, em instalações improvisadas.

Era um trabalho duro, mas sabiam sempre que seria remunerado e garantido durante largos meses, ao contrário do que acontecia naquela época nas sapatarias de S. João da Madeira onde, muitas vezes, só havia trabalho durante três ou quatro dias por semana e recebia-se o valor respeitante apenas a esses dias.

Aqueles que tinham de percorrer centenas de quilómetros até ao Alentejo, ao Algarve, a Trás-os-Montes ou à região de Lisboa, lá ficavam durante um mês e regressavam a casa no fim de cada mês, durante dois dias para conviver com a família.

A força dos braços e a força de um cilindro

Trabalhavam de sol a sol, tanto de Inverno como e Verão, para cumprir os prazos da empreitada. Aguentavam as intempéries, o sol abrasador, o frio, a chuva ou a neve, longe de casa e da família para assegurar o seu sustento e o dos seus e almejar por melhores dias, sobretudo para os seus filhos.

Ficavam em instalações precárias, camaratas improvisadas, cozinhas de circunstância, na maioria das vezes uma fogueira onde se aquecia a comida, lavando a roupa em bacias ou caldeiros e secando-a ao sol quando havia ou junto à fogueira do estaleiro, mudando de terra em terra à medida que o trabalho ia avançando.

À noite, cansados, ainda arranjavam forças para conviver uns com os outros, jogando às cartas, contando histórias e anedotas e adormecendo abatidos pelo cansaço.

Gente da terra que ia para longe

Ernesto Fifante, Domingos das Presas, Salviano do Nogueira, António do Estanqueiro, Fernando Leal, Zé da Serra, Zé do Viana, Salvador da Chica, Alcino Leal, Abílio da Serrana ou Orlando do Nogueira, tal como muitos outros, foram alguns dos homens de Mosteirô que trabalharam nos estaleiros da empresa de Gil Andrade e Silva. Graça Freitas, filha de Ernesto, conta que o pai “trabalhava para o senhor Gil nas estradas com as máquinas de alcatrão, em Lisboa, no Algarve e na Costa da Caparica e só vinha a casa ao fim do mês”. E acrescenta: “o meu pai teve uma vida muito difícil e amargurada. Só o víamos uma vez por mês porque trabalhava muito longe, mas nunca nos faltou com nada e foi um muito bom pai”.

Domingos das Presas e Ernesto Fifante lavando a roupa – O trabalho manual de preparação do terreno

Ernesto Alves Pereira morava no Bairro, em Proselha, e era filho de Maria Alves da Cruz, prima de Manuel Alves Barbaças, o dono de uma das principais pedreiras de Agoncida. Era casado com Maria Gomes Tavares, conhecida como Maria “Rijona”, da família do Rojão. A alcunha de Fifante não se sabe qual a proveniência.

Ernesto Alves nasceu em nove de Julho de 1924 e faleceu com 60 anos de idade a 28 de Maio de 1985. O casal teve quatro filhos: Maria da Graça, António José, Manuel Gomes e Licínio Gomes. Antes de se mudarem para o novo Bairro, junto à antiga escola dos rapazes, viviam numa casa ao lado do antigo Posto do Leite e quase em frente à Loja da senhora Emília do Foca.

Ernesto Fifante e a família – Ernesto e a Tia Ercínia, no Bairro

Quanto a Domingos Oliveira Mansores, conhecido como Domingos das Presas, era casado com a Ti Maria das Presas, tendo vivido durante muitos anos na casa por cima da Fonte das Presas. Tiveram dois filhos: Maria Rosa Mansores e Fernando Mansores.

Também Fernando Leal foi um dos muitos que foram por esse País fora trabalhar nas empreitadas da empresa de Gil Andrade e Silva. Fernando era casado com Celeste Silva, natural de Souto, do Lugar de Cabomonte.

Já Salviano do Nogueira, aliás Salviano Rodrigues de Andrade, viveu na Agoncida, na antiga casa da Mãe Velha. Filho de um emigrante no Brasil, Luís Martinho de Andrade, Salviano trabalhou durante muitos anos na empresa de Gil Andrade e Silva, um pouco por todo o País.

Numa dessas andanças acabaria por conhecer Maria Adelaide, natural do Marco de Canaveses, com quem casaria. Tiveram cinco filhos, dois dos quais falecidos prematuramente: José Maria e Salviano. Salviano do Nogueira ainda arranjava tempo para tratar da horta, aos fins-de-semana, nas traseiras da casa onde vivia, junto à eira da Mira.

Salviano do Nogueira na horta – É dia de festa em casa de Salviano, nas Presas

O trabalho nas estradas

O trabalho de construção de estradas demora em geral vários anos pois implica em primeiro lugar uma definição do traçado, um levantamento exaustivo das propriedades que terá de atravessar, a aquisição dos terrenos, numa primeira fase. Na segunda fase, entram em campo os engenheiros civis, arquitectos, projectistas, topógrafos, etc. bem como os engenheiros do Ambiente que, no seu conjunto, irão definir o traçado final da via em causa e, finalmente, os economistas para o estudo de viabilidade e do financiamento.

A terceira fase é a da construção propriamente dita. Naquela época, apesar de existir alguma maquinaria, muito do trabalho era manual, as marretas para partir pedra, os carros de mão, as pás e as enxadas entravam em acção e, naturalmente, à noite o pessoal estava exausto. As pontes e viadutos, a terraplanagem e o asfalto, esses já exigiam maquinaria apropriada. Na fase final, máquinas de grande porte espalham o asfalto no terreno preparado por onde passaram os cilindros para aplanar e fixar.

Montava-se o acampamento num sítio, perto de uma povoação para assegurar o abastecimento, e poucas semanas depois, ou até meses, já se tinha de mudar novamente com o avanço da preparação do terreno para a entrada em acção das máquinas. E o pessoal lá se ia deslocando como se se tratasse de um povo nómada.

As estradas3
A construção de uma estrada implicava o trabalho de muita gente, com especialidades várias

Asfalto ou alcatrão

Hoje, as estradas são cobertas de asfalto. Mas, naquela época, muitas das estradas regionais recebiam alcatrão em vez de asfalto e, no calor do Verão, muitas aqueciam demasiado, amoleciam e começavam a derreter. O alcatrão (mesmo o que existe nos cigarros) é um derivado da hulha e do carvão.

O alcatrão é uma mistura de substâncias betuminosas, espessa, escura e de forte odor, que se obtém da destilação de certas matérias orgânicas, principalmente de carvão, ossos e de algumas madeiras resinosas. Destes tipos, o alcatrão de hulha é o produto mais conhecido e comercializado, geralmente por siderúrgicas. À semelhança de um derivado do carvão do qual retirou o seu nome, o alcatrão é uma substância que se encontra presente no fumo do tabaco. O alcatrão é um resíduo negro e viscoso composto por centenas de substâncias químicas, algumas das quais são consideradas carcinogénicas ou classificadas como resíduos tóxicos. Entre as substâncias que se podem encontrar no alcatrão do tabaco, incluem-se hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, aminas aromáticas e compostos inorgânicos.

Na construção de estradas era utilizado o alcatrão proveniente da hulha. A hulha ou carvão betuminoso é um tipo de carvão mineral que contém betume. Dependendo do teor de carbono, o carvão mineral é classificado como linhito, hulha e antracito.

Quanto ao asfalto, trata-se de um derivado do petróleo. O asfalto é um betume espesso, de material aglutinante escuro e reluzente, de estrutura sólida, constituído de misturas complexas de hidrocarbonetos não voláteis de elevada massa molecular, além de substâncias minerais, resíduo da destilação a vácuo do petróleo.

As estradas de Mosteirô, inicialmente eram cobertas por uma camada de alcatrão, misturada com gravilha ou brita miúda utilizada na preparação de pavimentos asfálticos. Brita é um material classificado como agregado de origem artificial, de tamanho graúdo. É muito utilizada na construção de rodovias e outras obras da construção civil.

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Destaque

Avelino da Rola e o teatro popular em Mosteirô

Geringonça e Zangarelho eram personagens de uma comédia popular, do poeta cego do século XIX, António José Nabiça, representada pelos homens da nossa terra há 60 anos

A televisão tinha acabado de entrar em Portugal, mas 99% das casas da freguesia não tinham um aparelho que, naquele tempo, eram a preto e branco. Todavia, havia sempre maneira de encontrar entretenimento, nomeadamente através das longas sessões de Cantares ao desafio nos coretos, nos adros das igrejas ou em locais improvisados onde se instalava um palanque, bem como durante as festas, as desfolhadas ou o Entrudo.

Havia outras alternativas, tal como aconteceu há 60 anos atrás. Com efeito, foi representada na Garagem de Gil Andrade e Silva, em Agoncida, uma famosa peça (um entremez) daquela época, do poeta popular António José da Costa Nabiça, natural da Venda do Pinheiro, no concelho da Maia, tendo como actores e figurantes muitos dos nossos conterrâneos. Entre eles encontrava-se Avelino de Carvalho Assis, conhecido por Avelino da Rola, mestre sapateiro da freguesia.

Encenada pelo próprio, a comédia “O avô atónito e as suas netas” desenrolava-se em 7 actos e tinha como actores somente homens, os quais encarnavam também o papel de mulheres, entre eles alguns dos mais conhecidos daquele tempo, como o seu primo Alfredo Leiloeiro. Os principais personagens desta comédia eram:

D. Alvo, o velho avô aflito com as suas netas
Zangarelho, o criado fiel atento aos acontecimentos
Geringonça, a neta namoradeira
Helena, a outra neta
Benedicto, escravo
Belchior, outro escravo
Tia Bernarda, a vizinha do lado e velha alcoviteira
Tomé de Oliveira, o namorado da Geringonça
José da Palmeira, o namorado da Helena

Conta Avelino Assis, filho, que “naquele tempo fazíamos muitas das vezes o teatro ao ar livre, mesmo em frente à Loja do Narro, mas a peça do Avô Atónito e as suas Netas foi representada na garagem do senhor Gil”. “Os actores eram todos homens, novos e mais velhos, alguns vestidos de mulher. Eu fiz de Tia Bernarda e foi o meu pai que me caracterizou para parecer uma velha de 80 anos, com rugas”, acrescenta. “Lembro-me de ter participado também o Ti Alfredo Leiloeiro, que tinha um dos principais papeis e representava o criado Zangarelho, o meu pai era o ponto, o meu irmão Benjamim é que fazia de D. Alvo, o avô, e o Beto da Carriça, entre outros”, recorda Avelino.

O livro contendo esta peça de teatro foi publicado em 1890 pela Livraria Portuguesa de Joaquim Maria da Costa, do Largo dos Loios, no Porto, tal como outras peças do mesmo autor. Na capa, o livreiro avisa, em termos de promoção, que se trata de “uma curiosa comédia/entremez, constando de sete interessantes cenas, representadas por doze figuras, para ser representada ao ar livre e nos teatros de curiosos e particulares, em cidades, vilas e aldeias”.

Actualmente, é possível aceder online a todas as peças de teatro de António José da Costa Nabiça através do site https://archive.org/ que contém 20 milhões de livros digitalizados. Todos escritos em verso, existem publicados 27 livros do autor com peças de teatro, comédias e entremezes, dos quais um especial denominado “Cantorias de Costa Nabiça, para cantar ao desafio”.

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Os 27 títulos dos livros de António José da Costa Nabiça

A revista Maia Actual, de onde Nabiça era natural, conta que este “quando era novo gostava muito de se divertir. Saia aos serões, às festas, arraiais e romarias, da Vila e não só. Tinha sempre amigos, quando tinha dinheiro, já que era generoso. Mas, claro também tinha defeitos, era vaidoso, não gostava que o chamassem à atenção e lhe dissessem as verdades e tomava rapé. Para cúmulo, como não tinha dinheiro, usava folhas de figueira e de nogueira que secava e moía, o que lhe fazia muito mal à sua asma crónica”. Apenas existe uma fotografia de Nabiça, de quando ele “Mandou tirar o retrato, no qual tinha muito gosto, em 30 de Maio de 1883” e que seria publicada no jornal “O Tripeiro”. Ver em visitmaia.

Natural de Venda do Pinheiro, antes concelho da Maia e agora concelho de Vila do Conde, como dizia José Augusto Vieira (Vieira, 1887), “Ou não fora Vilar de Pinheiro a pátria feliz do poeta António José da Costa Nabiça, o cego e popularíssimo trovador que sustenta no Minho as tradições e … os lucros da literatura de cordel.”. As suas peças de teatro e entremezes inspirariam muitos encenadores improvisados da época e fazia parte do reportório de uma grande parte dos cantadores ao desafio do Minho, Douro Litoral e das Beiras.

Avelino da Rola, sapateiro e “actor” improvisado

Avelino Carvalho de Assis, Avelino da Rola, foi actor improvisado em vários entremezes encenados e representados em Mosteirô durante as décadas de 1940 e 1950. Naturalmente, essa não era a sua profissão, pois dificilmente poderia sobreviver numa aldeia de 1.000 habitantes à custa do teatro.

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Avelino da Rola e Maria do Gloria no casamento do filho Avelino Com Deolinda Correia

Na realidade, exercia o “métier” de sapateiro e, ainda na década de 1940, lançou uma marca própria denominada “Calçado Rola”, fundando uma sapataria em sociedade com Manuel do Nicolau, que funcionava no rés-do-chão da casa da Senhora Caridade, no Lugar das Presas. Como era normal naquela época, trabalhavam por encomenda, tanto para os habitantes de Mosteirô e das redondezas como para as fábricas de calçado de S. João da Madeira que recorriam amiúde aos serviços do sapateiros que trabalhavam por conta própria, na sua casa ou em pequenos espaços alugados a terceiros, sempre que a procura aumentava na capital do calçado.

Naquela época havia algumas sapatarias espalhadas pela freguesia, para além do Calçado Rola, tal como a de António Magina, a do Miranda, a do Mário da Joaquina, a do Joaquim Magina, a do Fernandinho, a do Manuel do Cuco ou a de António Correia, quase todas artesanais, sem recurso a máquinas, com excepção talvez desta última.

Avelino de Carvalho Assis nasceu em Mosteirô no dia 24 de Setembro de 1902, no Lugar das Presas, filho de um pedreiro, Joaquim de Carvalho Assis, e de uma dona de casa, a Ti Maria da Rola ou, mais propriamente, Maria Angelina. Os avós paternos eram Avelino Leite e Joana Coelho Pereira, enquanto os avós maternos eram da família Macedo, justamente Manuel Ferreira Macedo e Maria Pereira Angelina.

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Avelino da Rola e Maria da Glória

Não casou em Mosteirô e encontrou a que viria ser a sua mulher na vizinhança, em Souto, no seio de uma família de agricultores muito conhecida desta freguesia, a saber, os Tremoceiros. Assim, a 30 de Dezembro de 1938, no Posto do Registo Civil de Souto, casou com Maria da Glória de Jesus, nascida no Lugar do Ferral, em Souto em 5 de Abril de 1907. Era filha de José Alves, de S. Martinho da Gândara, Oliveira de Azeméis, e de Maria Joaquina de Jesus, de Souto. Os seus avós paternos eram Manuel Alves e Maria de Jesus e os maternos eram António Ferreira dos Santos e Luísa Maria de Jesus. A madrinha de baptismo foi Maria Godinho dos Reis.

O nome Tremoceiro existe em Portugal como apelido, havendo mesmo um conhecido responsável da Torre Tombo que tem precisamente o nome de Paulo Tremoceiro, todavia, neste caso, poderá tratar-se de uma alcunha e ter mais a ver com a actividade agrícola dos pais de Maria da Glória. Avelino da Rola viria a falecer a três de Junho de 1974 enquanto a sua viúva faleceu anos mais tarde, em 15 de Fevereiro de 1998.

O trio de cordas

A veia artística dos irmãos Assis não se ficava pelo teatro. Era conhecido o seu gosto pela música e, em conjunto com os irmãos Armando e Cesário, formavam um trio de instrumentos de corda: Armando, sem saber uma nota de música, arrancava qualquer som do seu violino, enquanto os irmãos Avelino e Cesário se especializaram e tocavam viola ou violão, alternadamente.

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Este bandolim foi fabricado por Francisco do Nicolau, irmão do sócio de Avelino da Rola (Foto de Arnaldo Pereira dos Santos)

Com os seus instrumentos, iam de festa em festa, de desfolhada em desfolhada ou acompanhar os cantares das Janeiras e dos Reis, andando de terra em terra e não apenas em Mosteirô. Foi precisamente numa dessas andanças que conheceu Maria da Glória, ou Maria Tremoceira como era conhecida, com a qual viria a casar no final de 1938.

Como não tinham dinheiro, para comprar as cordas e encontrar alguém que fizesse a primeira viola, o violão e o violino, montaram uma estratégia que envolvia a apanha de pinhas para tirar os pinhões. Enquanto um subia aos pinheiros mansos, os outros dois ficavam em baixo a apanhar as pinhas que já tivessem caído e aquelas que iam caindo entretanto. Naquela época, as matas eram conservadas graças às necessidades da população em lenha, pinhas ou agulhas dos pinheiros.

Alguns dias antes percorriam as padarias das freguesias vizinhas, e de Ovar, da Vila da Feira e de S. João da Madeira, a saber quem precisava de pinhões para os bolos. Ainda hoje, os pinhões são uma riqueza natural muito procurada por altura do Natal e Ano Novo para o fabrico de bolos e para venda nos supermercados em pacotes cada vez mais caros. No final de 2018, o preço do miolo de pinhão atingiu em Portugal os 120 euros. Nessa altura não era certamente tão elevado mas, mesmo assim, era um produto de difícil apanha, o que encarecia o seu preço.

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Destaque

A origem dos Camoça Guimarães

Os avós maternos de Isaac Rodrigues da Cruz não eram de Mosteirô e tinham origem em S. Vicente Pereira e Ovar

Procurando a origem de Joana Adelaide da Silva Figueiredo Camoça Guimarães, mãe de Isaac Rodrigues da Cruz, vamos descobrir que os seus familiares, pais, avós e bisavós, vêm de famílias abastadas de S. Vicente Pereira e da Vila de Ovar e com literacia acima da média para aquela época. Com efeito, a avó de Isaac Rodrigues, Ermelinda Adelaide Alberto Camoça Guimarães, tinha uma formação muito acima do que era comum no século XIX, uma vez que a maioria da população não sabia ler nem escrever e havia menos de 10 por cento das mulheres dessa altura que o sabiam fazer, enquanto Ermelinda Adelaide não só sabia ler e escrever como revelava uma caligrafia de grande qualidade, própria de quem terá frequentado um ensino adequado.

A avó de Isaac Cruz nasceu no Lugar de Azevedo, em S. Vicente Pereira, e casou na Igreja paroquial desta freguesia no dia 10 de Maio de 1859, há 160 anos, com José da Silva Figueiredo. Ermelinda Adelaide Alberto Camoça Guimarães era filha de José Joaquim Gomes Alberto e de Maria Ermelinda Pereira Camoça Guimarães, era neta paterna de Alexandre Gomes Alberto e de Ana Maria Teresa, do mesmo lugar, e neta materna do Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães e de Dona Josefa Maria de Jesus Camoça, estes da Vila de Ovar.

Quanto ao avô, José da Silva Figueiredo, era filho de Manuel da Silva Joaquim e de Maria Godinho dos Reis, neto paterno de Manuel da Silva e de Mariana da Costa e neto materno de João Valente de Resende, do Lugar de Azevedo, e de Josefa Maria Godinho dos Reis, do Lugar de Macieira da vizinha freguesia de Souto.

O Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães

O capitão Inácio Pereira Guimarães era um militar conhecido da guarnição de Ovar, tendo comandado a Terceira Companhia ali estacionada. Terá sido ele quem terá tido uma participação para construir a capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de Ovar, como refere um apenso com um documento de partilhas do Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães. Na escritura de partilha dos seus bens aparecem directrizes bem específicas sobre a construção da referida capela em que realçava a escolha da cantaria das pedreiras de Agoncida:

«Apontamentos para a Capella do Santíssimo Sacramento da Igreja da Villa de Ovar», em 15 números ou artigos, assinados por Manoel Lourenço Afonso, certamente o mestre de obras encarregado da construção.
Vamos citar, resumidamente, esses artigos:
1.º – Terá a Capela 20 palmos de comprimento e 20 de largura, medidos por dentro, e «hum degrau no Arco como o da Capella do Paço e o arco do mesmo feitio como o do Paço».
2.º – Será toda lageada com pedras «de Agoncida bem lavrada» de palmo e meio em quadro.
Toda a cantaria deve ser «das pedreiras d’Agoncida», sem o mínimo defeito, e as paredes de «bom gramaço de cal e areia». O Inspector marcará o sítio do «almário para receber a Tribuna».

Pela mesma ocasião, o Capitão Inácio Pereira da Silva Guimarães iria pagar uma sisa no valor de 2.400 reis.

Igreja de Ovar
Igreja de Ovar, vila de origem dos Camoça Guimarães

Apelidos que se esfumam no tempo

Anos antes, os tios de Isaac Rodrigues da Cruz, Manuel Rodrigues da Cruz e Teresa Adelaide da Silva Camoça, irmã de Joana Adelaide tinham casado, desta vez na Igreja paroquial de S. Vicente Pereira, em 23 de Novembro de 1884. Manuel Rodrigues tinha então 23 anos e Teresa Adelaide com 20 anos de idade teve necessidade do consentimento dos seus pais que se encontravam presentes na cerimónia. Teresa tinha nascido no Lugar de Azevedo e sido baptizada na igreja da terra.

A 24 de Março de 1887 nasceu no Lugar de Agoncida a primeira filha do casal, de nome Emília, que seria baptizada na Igreja de Mosteirô, tendo como padrinhos os seus tios António Rodrigues da Cruz, pai de Isaac, e Emília Adelaide da Silva Camoça.

Em 16 de Julho de 1888 nasceria a filha Laurinda que, já no século XX, iria casar e viver em S. Vicente Pereira. Foram padrinhos de baptismo os pais de Isaac Rodrigues da Cruz, justamente António Rodrigues da Cruz e Joana Adelaide da Silva Figueiredo Camoça Guimarães, os quais anos mais tarde viriam a casar. Em 2 de Janeiro de 1890 nasceu o filho Manuel, do qual não se sabe a sequência.

Casa das Almas
Casa da Família de Albertina das Almas, filha de Manuel Rodrigues da Cruz e de Teresa Adelaide da Silva Camoça, e prima de Isaac Rodrigues da Cruz

Dois anos depois, a 22 de Junho de 1892, nasce a terceira filha do casal, Albertina Adelaide da Cruz. Viria casar aos 27 anos em Mosteirô a 7 de Agosto de 1919 com Manuel Francisco das Almas Júnior, de 26 anos, o qual tinha nascido a 30 de Janeiro de 1893 e era filho de Manuel Francisco das Almas e de Ana Rosa de Jesus, lavradores bem conhecidos junto à fonte do Barreiro. Era conhecida como Albertina das Almas, mulher intrépida, e uma das filhas de Manuel Rodrigues da Cruz que manteve o apelido de Adelaide. Com o marido no Brasil, Albertina percorria a pé a calçada da Murtosa para ir levar produtos agrícolas à filha que vivia em São João da Madeira e, no regresso, pelo mesmo caminho, uma mata escura com árvores frondosas, de noite, acendia um cigarro para dar a entender aos que por ali passavam que se tratava de um homem. Mais tarde, dois dos filhos, Manuel e José, seguiriam os passos do pai e emigrariam para o Brasil no início da década de 1940.

Para além destes quatro filhos, Manuel Rodrigues da Cruz e Teresa Adelaide da Silva Camoça teriam mais oito filhos: Alberto, Cândido, José, Rufina, Isaura, Adelaide, Jeremias e Helena Adelaide da Cruz, que viria a casar com o primo direito Tobias Rodrigues da Cruz.

Acontece em Portugal que os apelidos de família não têm continuidade e acabam por se perder. Mosteirô não foge à regra. Tal é o caso, dos apelidos Camossa, Figueiredo, Pereira ou Guimarães que se perderam no tempo e deixaram de aparecer nos registos dos filhos, netos ou bisnetos.

Manuel Francisco da Cruz e José Francisco da Cruz, emigrantes no Brasil

Destaque

Famílias do século XX: Isaac Rodrigues da Cruz

Joana Adelaide da Silva Figueiredo Camoça Guimarães, natural de São Vicente Pereira, e António Rodrigues da Cruz, foto da esquerda dos pais de Isaac Rodrigues da Cruz

Foi em meados de Outubro, quando o Outono chegava e as folhas caíam das árvores, no fim do século XIX, que se realizou o casamento dos pais daquele que seria mais tarde o ferreiro de Mosteirô, junto às pedreiras de Agoncida, cerimónia que teve lugar na Igreja matriz, na presença de numerosas pessoas vindas de S. Vicente Pereira e de Mosteirô.

Os pais do ferreiro de Mosteirô, Isaac Rodrigues da Cruz, casaram na Igreja paroquial de Mosteirô no dia 19 de Outubro de 1897. Por ocasião do casamento, o pai António Rodrigues da Cruz, natural desta freguesia, tinha 35 anos e exercia a profissão de pedreiro, enquanto a mãe, Joana Adelaide da Silva Figueiredo Camoça Guimarães, natural de São Vicente Pereira, tinha 35 anos de idade e aparece como tendo o métier de costureira.

Ambos os noivos pertenciam a famílias bem conhecidas de Mosteirô e de S. Vicente. António Rodrigues da Cruz era filho de António Rodrigues, natural de Mosteirô, e de Ana Maria de Andrade, de Cucujães, concelho de Oliveira de Azeméis, lavradores e moradores no Lugar de Agoncida. Quanto a Joana Adelaide Camoça pertencia a uma família de agricultores abastados de S. Vicente e já com laços familiares com a família Rodrigues da Cruz. Joana Adelaide era filha de José da Silva Figueiredo e de Ermelinda Adelaide Alberto Pereira Camoça Guimarães, naturais e moradores no Lugar de Azevedo em S. Vicente Pereira Jusã, concelho de Ovar.

Igrejas de S. Vicente e de Mosteirô

Na qualidade de testemunhas do casamento intervieram António da Silva Serafim, casado, carpinteiro, do Lugar de Agoncida, e Manuel Ferreira dos Santos, casado, lavrador e morador no Lugar de Mosteirô, ambos naturais da freguesia.

Anos antes, os tios de Isaac Rodrigues da Cruz, Manuel Rodrigues da Cruz e Teresa Adelaide da Silva Camoça, irmã de Joana Adelaide tinham casado, desta vez na Igreja paroquial de S. Vicente Pereira, em 23 de Novembro de 1884.

Entre 1898 e 1906, o casal António Rodrigues da Cruz e Joana Adelaide Camoça iria ter sete filhos: Arnaldo, Isaac, Alcinda, Maria, Moisés, Tobias e Cândida, todos nascidos no Lugar de Agoncida e baptizados na igreja de Santo André de Mosteirô.

Isaac Rodrigues da Cruz nasceu em 1899

Muito conhecido em Mosteirô, Isaac Rodrigues da Cruz nasceu a 4 de Novembro de 1899, pelas onze horas, e foi baptizado no dia 12 de Novembro do mesmo ano. Foram padrinhos do baptismo os seus avós maternos José da Silva Figueiredo, proprietário, e Ermelinda Adelaide Alberto Pereira Camoça Guimarães

Casou na Igreja de Mosteirô com Arminda Maria dos Santos no dia 25 de Abril de 1927. Arminda do Vicente nasceu no dia 10 de Junho de 1889 no Lugar de Agoncida. Era filha de Vicente Ribeiro dos Santos e de Maria Rosa d’Azevedo e irmã de Armando do Vicente, cujo estabelecimento comercial se encontrava na esquina da estrada de S. Vicente Pereira. Era neta paterna de Domingos Ribeiro e de Maria Valente dos Santos e neta materna de José de Sousa e da Maria Rosa d’Azevedo. Faleceu em Mosteirô a 30 de Janeiro de 1978.

Arminda e Isaac tiveram seis filhos: Tobias Santos da Cruz, Maria do Carmo Santos da Cruz, Augusto dos Santos Cruz, Elsa Santos Cruz, Arminda Santos Cruz e Cândida Santos Cruz, os três primeiros emigrantes no Brasil e as três últimas vivendo em Portugal.

Na coluna da esquerda: Augusto dos Santos Cruz; Um dia na praia do Furadouro com as famílias de Isaac e de Armando do Vicente; À porta da Ferraria. Na coluna do centro: Isaac e Armando do Vicente com as esposas; Isaac à porta da loja do Albino. Na coluna da direita: Isaac saindo da ferraria; Isaac e um familiar na Quinta do Bicho.

Augusto dos Santos Cruz, já falecido, emigrou para o Brasil onde constituiu família, tendo casado com Aida Gonçalves da Cruz. Deste casamento nasceriam duas netas de Isaac Rodrigues da Cruz: Denise e Aida Regina.

Por sua vez, Tobias Santos da Cruz emigrou igualmente para o Brasil, tendo casado em Portugal com Rosa Brandão de Andrade, tendo tido um filho Isaac Andrade da Cruz, nascido no Brasil. De igual modo, a irmã Maria do Carmo Santos da Cruz seguiria os passos dos irmãos, tendo casado em Portugal com Augusto Ferreira e emigrado para o Brasil. Tiveram um filho Rui Augusto da Cruz Ferreira.

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Albano da Doutora, Augusto Cruz e Albino do Domingos Alves

Em Portugal, ficariam as filhas Elsa, Arminda e Cândida. Elsa Santos Cruz casou com Fausto Soares, que foi membro da Junta de Freguesia de Mosteirô nos mandatos de Manuel Resende Dias, e têm três filhos: Filipe Soares, Isaías Isaac Soares e Raquel Soares. Por sua vez, Arminda dos Santos Cruz veio a casar com Albino do Domingos Alves, dono da drogaria do lugar de Agoncida, não tendo tido filhos. Quanto a Cândida dos Santos Cruz permaneceu toda a vida solteira.

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Isaac batendo os picoes na ferraria da Agoncida

A arte de ferreiro

A ferraria de Isaac Rodrigues da Cruz era conhecida em toda a região, especialmente por pedreiros, canteiros, labristas e cabouqueiros. Todos conheciam igualmente Mariana da Louça a movimentar o enorme fole que soprava oxigénio para fazer arder o carvão que iria permitir por o ferro em brasa e de seguida martelá-lo até ficar moldado. Após esta fase, o ferro seria lançado na água fria para ficar mais resistente.

A sua localização era importante pois situava-se mesmo à entrada das grandes pedreiras de Agoncida e por ali passavam todo o tipo de trabalhadores das redondezas, particularmente os cabouqueiros e pedreiros, bem como os homens com os carros de bois usados para o transporte dos enormes blocos de granito ou dos esteios e das pedras já trabalhadas pelos canteiros que iriam ser usadas na construção das casas.

O ferreiro é uma pessoa que cria objetos de ferro ou aço forjando o metal, através da utilização de ferramentas como fole, forja, bigorna, martelos, dobra e corta, e de outra forma moldar o metal na sua forma não-líquida.

Geralmente, o metal é aquecido até que brilhe e fique vermelho ou laranja, como parte do processo de forja. Para além dos objectos utilizados na actividade relacionada com o trabalho da pedra, os ferreiros produzem outras coisas como portões de ferro forjado, grelhadores, grades, lustres, luminárias, mobiliário, esculturas, ferramentas agrícolas, objectos religiosos e decorativos, utensílios de cozinha e armas.

Acredita-se que a profissão de ferreiro exista desde quando o homem aprendeu a manipular e moldar os metais (mais de 2000 anos a.C.), sem grandes distinções até aos tempos atuais. Durante a Idade Média era comum a imagem do ferreiro da aldeia, responsável por praticamente toda a metalurgia do feudo ou povoado. Sendo que muitas vezes, nestes tempos, o ferreiro tinha-se tornado sinónimo de forjador de armas, já que era função dele fabricar as espadas, lanças, machados, etc. utilizados pelos soldados da época.

Com a revolução industrial, a partir do século XVII, o oficio de ferreiro foi gradualmente sendo substituído pelas indústrias metalúrgicas, sendo que a profissão sobrevive até hoje apenas em regiões menos desenvolvidas e/ou para a forja de objetos com finalidade principalmente decorativa. Também é conhecido como o homem dos metais pois ele trabalha principalmente com os metais apesar de trabalhar com outros materiais como o barro e a mirra.

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Isaac e Arminda

Isaac Rodrigues da Cruz faleceu no dia 22 de Fevereiro de 1968, deixando uma grande família constituída por filhos, netos e bisnetos, sobretudo em Portugal e no Brasil.

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Destaque

Mestras de Mosteirô

Albina, Caridade, Rosa, Esmeralda, Carolina, Zulmira, Emília, Maria, Deolinda e Manuel do Lizura foram mestres-escola da nossa terra no século XX

Até à década de 1950/60, uma parte dos rapazes e raparigas de Mosteirô aprendiam as primeiras letras nas chamadas mestras existentes na nossa freguesia, ou mestres-escola, como se dizia em Portugal. As mais conhecidas foram, entre outras, Caridade dos Aidos, das Presas, Albina do Ratão, da Murtosa, Manuel do Lizura, do Monte, Rosa da Viene, do Fundo de Mosteirô, Esmeralda da Fragola, do Monte, Carolina das Almas, de Mosteirô. Mais recentemente, para além do ensino da catequese, algumas especializaram-se também no ensino da costura, como foi o caso de Zulmira da Pastorinha, do Morouço, Emília do Magina, Maria da Tia Isaura e Deolinda Correia, de Agoncida.

Em geral, tratava-se de um ensino peculiar, uma vez que aprendíamos a ler e a escrever, começando naturalmente pelo aeiou, e tínhamos a iniciação da catequese que preparava as crianças para a primeira comunhão, aprendendo de cor as orações da época.

A mestra do Ratão

A senhora Albina do Ratão é ainda hoje uma das mais recordadas por muitas das pessoas que por lá passaram. Albina Leite de Pinho nasceu a 4 de Junho de 1894 no Lugar do Morouço, sendo filha de José Pereira Leal, pedreiro de profissão, e de Olinda Cristina. Era neta paterna de Domingos Pereira Leal e de Ana Luísa e neta materna de Francisco Leite de Pinho e de Ana Cristina. Veio a falecer no dia 16 de Janeiro de 1972, com 77 anos de idade, no Lugar da Murtosa.

Quem lembra bem da sua actividade é a Dulce do Amaral que recorda a senhora Albina do Ratão com muita saudade. Na opinião da Dulce, tratou-se de uma das “pessoas que mais marcaram a nossa geração e a dos nossos pais . A Senhora Mestra do Ratão que, sentada no chão pela sua deficiência física, ensinava às crianças de Mosteirô os verdadeiros valores da vida. As mães que precisavam de trabalhar deixavam os seus bebés em cestos à volta dela. Naquele rosto só havia um sorrio de amor ao próximo e podemos dizer que Mosteirô tem uma Santa no Céu”.

Albina
Registo de Baptismo de Albina do Ratão

Caridade dos Aidos

Tal como a senhora Albina, outros havia em toda freguesia que se dedicavam ao mesmo mister. A senhora Caridade dos Aidos vivia no Lugar das Presas e é, sem dúvida, uma das mestras mais citadas por todos os que viveram naquela época. Caridade Gomes Leite nasceu no dia 15 de Março de 1909, no Lugar da Murtosa, na quinta dos Aidos, tendo sido baptizada no dia 1 de Abril do mesmo ano. Fazia parte de uma família numerosa, muito conhecida na região, sendo filha de Manuel Gomes Leite e de Carolina Margarida d’Oliveira, lavradores, moradores no Lugar da Murtosa. Era neta paterna de Manuel Gomes Leite e de Theodora Maria Ferreira, natural de Macieira de Sarnes, e neta materna de João Rodrigues d’Oliveira e de Aurora Margarida Alberto d’Oliveira. Teve seis irmãos: Pedro, Esperança, Rosa, Luciana, Virgolina e Carolina.

A memória da senhora Caridade perdura com o nome que foi dado a uma calçada no Lugar da Murtosa e que fazia parte da Via Antiga de Mosteirô e que ligaria o lugar às pedreiras de Agoncida e do Monte. Com o seu típico lenço na cabeça e o seu avental, a senhora Caridade dirigia-se todos os dias de manhã, saindo da sua casa grande no Lugar das Presas, pela estrada abaixo até à Igreja, para cuidar dos altares, das flores, das velas e conferir as caixas das esmolas. Veio a falecer aos 91 anos de idade, no dia 4 de Janeiro de 2001.

Registo da senhora Caridade
Registo de baptismo da senhora Caridade

Manuel do Lizura

Outro mestre-escola muito conhecido em toda a freguesia foi certamente o senhor Manuel do Lizura. Canastreiro de profissão, Manuel de Azevedo ainda guardava tempo para escrever para o Correio da Feira, ensaiar peças de teatro e para ensinar muitos dos rapazes e raparigas de Mosteirô a ler e a escrever. Na casa dos Lizuras no Lugar do Monte funcionava a “mestra”, que neste caso era um mestre-escola, onde eram ensinadas as primeiras letras a essa rapaziada e outros ensinamentos próprios para a idade. Muitos foram os que por ali passaram, chegando depois à escola primária já com alguma preparação.

Manuel de Azevedo, era o mais novo de quatro irmãos e nasceu a 7 de Maio de 1905 tendo falecido a 8 de Janeiro de 1984. Os quatro irmãos eram filhos de José António de Azevedo, canastreiro, e de Rosa Leite de Oliveira, governadora de casa, moradores no lugar de Proselha. Eram netos paternos de Sebastião José de Azevedo, igualmente canastreiro, e de Rosa Pereira de Jesus, do lugar de Proselha, e netos maternos de Manuel José de Sousa e de Ana Maria Leite de Oliveira, do lugar de Sernada.

Para além destes, ainda devemos reforçar a referência aos nomes de Rosa da Viene, moradora do Fundo de Mosteirô, bem como Esmeralda da Fragola e Alice da Alexandrina, do Lugar do Monte. A actividade de mestre-escola ia muito para além do ensino das primeiras letras e podia incluir a aprendizagem da costura no caso das raparigas. Foram mestras nesta área já durante a segunda metade do século XX: Zulmira da Pastorinha, do Morouço, Emília do Magina, Deolinda do Barbaças e Maria da Ti Isaura, estas do lugar de Agoncida.

Casa
Antiga cestaria dos Lizuras

O papel dos mestres-escola

As mestras como eram conhecidas em Mosteirô eram, na realidade, mestres-escola reconhecidos por todo o País. Não era uma profissão propriamente dita da época, mas constituía uma ajuda importante tanto de carácter religioso como cívico.

Diz António Nóvoa, no seu trabalho desenvolvido sobre os mestres-escola: “A situação educativa em Portugal, no que se refere ao ensino da leitura e da escrita, caracteriza-se até meados de Setecentos por uma grande diversidade. As situações escolares são muito distintas, estando sujeitas, na maior parte dos casos, a uma negociação pontual entre os mestres e os pais das crianças ou entre os mestres e as autoridades locais, com quem são celebrados verdadeiros contratos”.

Entre os mestres-escola que exerciam o métier em Portugal vamos encontrar um pouco de tudo:
– Artesãos que, paralelamente ao seu ofício, ensinam as crianças a ler e, por vezes, a escrever: há numerosas referências a sapateiros, barbeiros, carpinteiros, etc., que foram mestres-escola;
– Particulares que, sobretudo nas cidades, dão lições privadas nas casa dos nobres e dos burgueses ricos, frequentemente a troco de uma simples refeição;
– Trabalhadores que, impedidos de exercer actividades desgastantes do ponto de vista físico, recebem crianças em suas casas.
-Pessoas ligadas à vida religiosa, membros de alguma congregação religiosa, onde o ensino da leitura é normalmente confiado aos irmãos leigos ou ajudantes dos párocos.

Curiosamente, em Lisboa até eram publicados na Imprensa da época diversos anúncios de mestres oferecendo os seus serviços, tal como um anúncio do Hebdomadário Lisbonense de 1764 que diz o seguinte:
«Quem quiser mandar ensinar meninas a boas educações, a ler, escrever, cozer, fazer meia, luvas, e a Doutrina Cristã, poderá falar a uma Mestra moradora na rua da Triste Feia, à Nossa Senhora das Necessidades, que ensina a preço de um tostão cada Mês e um pão todos os Sábados.

 

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Destaque

O testamento

Aos 9 dias do mês de Abril do ano de 1735, faleceu da vida presente e se sepultou aos 10 do mesmo mês e ano, Isabel Gomes, mulher do Capitão Manuel da Silva Grilo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô, e foi sepultada dentro desta igreja de Santo André de Mosteirô, com todos os sacramentos.

Os ricos e os abastados de Mosteirô, desde há muitos séculos, sempre usaram o testamento e a escritura como forma de registo dos seus bens e de deixar orientações precisas por escrito para depois da sua morte. Tratava-se sempre de assegurar duas espécies de obrigações para os seus herdeiros: obrigações de carácter religioso e do que deveriam fazer com os bens que deixavam.

Foi o que aconteceu com Isabel Gomes, da Casa do Ratão, ao mandar chamar o padre da paróquia de Mosteirô, Manuel Marques Ferreira a quem ditou os termos das suas últimas vontades. E diz o seguinte o registo paroquial elaborado pelo padre:

“Aos 9 dias do mês de Abril do ano de 1735, faleceu da vida presente e se sepultou aos 10 do mesmo mês e ano, Isabel Gomes, mulher do Capitão Manuel da Silva Grilo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô, e foi sepultada dentro desta igreja de Santo André de Mosteirô, com todos os sacramentos. Seria de idade de 70 anos, pouco mais ou menos, e fez o seu testamento verbal em que deixou o seu marido por seu herdeiro.” E estipula que o marido ficaria incumbido de “cuidar das questões da sua alma por forma a atingir a santidade e na forma que ela por ele faria caso ele morresse antes dela”. 

Naquela época, era costume as pessoas com historial católico serem enterradas na própria Igreja enquanto os chamados cristãos-novos eram sepultados no adro da Igreja. Esta tradição acabou em 1844, pela mão de Costa Cabral, o que levou à revolução da Maria da Fonte, que rebentou no Minho em Maio desse ano contra o governo de Costa Cabral. A causa imediata da revolta foram questões de recrutamento e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, e foi conduzida por um padre Setemberista de nome Casimiro José Vieira.  Por decreto de 28 de setembro de 1844 tinham sido proibidos os enterros nas igrejas e imposto o depósito dos restos mortais dos falecidos, depois de registo do óbito e obtida licença sanitária, em cemitérios construídos em campo aberto.

Os testamentos de Isabel Gomes Coelho e do marido Capitão Manuel da Silva Grilo são documentos interessantes que nos mostram como eram as práticas do século XVIII entre as classes mais ricas no que concerne às cerimónias fúnebres e aos desejos daqueles que estavam prestes a falecer. Normalmente, o padre da paróquia era chamado ao leito do enfermo e, na presença de testemunhas, redigia um testamento que lhe era ditado pelo interessado.

1735 - Isabel Gomes
O testamento de Isabel Gomes

Tratava-se de um documento que assumia uma forma jurídica uma vez que seria transcrito no Livro da Paróquia. Este livro contemplava todas as acções relacionadas com a Igreja Católica, nomeadamente os nascimentos, casamentos, óbitos e testamentos. Estes últimos, apenas as gentes abastadas os realizavam, uma vez que os pobres não tinham nada para deixar aos seus descendentes. Convém recordar que estes eram os costumes da época, particularmente entre as classes mais abastadas de Portugal e, naturalmente, de Mosteirô e das Terras de Santa Maria.

A escritura do capitão

O Capitão Manuel da Silva Grilo morre três anos depois de Isabel Gomes e o documento relativo ao seu falecimento é bem mais extenso e circunstanciado, tendo sido escrito pelo novo padre cura da paróquia, padre Domingos Ferreira e conta o seguinte:

“Aos 19 do mês de Julho de 1738, faleceu da vida presente o Capitão Manuel da Silva Grilo, viúvo do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô com todos os sacramentos da Santa Madre Igreja, sendo sepultado o seu corpo de dentro da Igreja da dita freguesia. Não fez testamento, tinha feito escritura dos seus bens a seus filhos e genro Capitão Manuel Marques Ferreira, com obrigação de lhe fazerem os bens da alma e pagarem os mais costumes conforme fez sua mulher Isabel Gomes. E logo se fez acompanhamento de tarde de 18 padre-nossos, em que veio uma oferta de 200 reis em pão e vinho e carneiro, e fez-se o primeiro ofício de trinta padre-nossos com oferta de 200 reis. Do qual defunto ouvi dizer que tinha 73 anos, pouco mais ou menos, e fiz este assento que assinei.”

Desses bens faziam parte a actual Casa do Ratão, as terras entre a Murtosa e as Presas e Capela de Nossa Senhora do Ermo, situada mesmo de frente para a casa, por onde passava a antiga estrada que ligava a Vila da Feira à estrada de Lisboa que passava no Couto de Cucujães.

1738 Falecimento do capitão
O testamento do Capitão Manuel da Silva Grilo

Com a construção da Casa em 1677, procederam-se a obras em toda a envolvente, de modo a melhorar a exploração agrícola, com a abertura de uma mina de captação de água que vai desde a Murtosa às antigas pedreiras da Etiópia. A respectiva fonte data de 1679 e, ainda hoje, fornece a água para o abastecimento das casas existentes e do alambique.

O primeiro registo de bens conhecido de Mosteirô data de 1050 e foi feito pelo Conde Gonçalo Viegas quando faz o levantamento de todos os bens que possuía nas Terras de Santa Maria. Nesse registo podemos ler, entre muitos outros:
(…) “item na vila de Proselhe (Mosteirô) a herdade de Adôr
(…) item em Proselhe (Mosteirô) o mosteiro que chamam Sala, que foi da condessa Dona Ilduara e o deu ao abade Fraiulfo
(…) item o mosteiro de S. Julião (Souto), por inteiro, que foi do abade Fraiulfo (…)” referindo-se desta forma a um mosteiro de S. Julião entre Proselhe (hoje Mosteirô) e Macieira junto ao rio São Gião.

Fonte do Ratão 2017
Fonte do Ratão, construída em 1677, reformada em 1984 e já após as obras de 2017

Destaque

Isabel Gomes: origem e casamento (1)

Nasceu em 1666 no seio de uma família tradicional do Lugar da Murtosa, casou com um capitão do Exército Português, teve seis filhos, um dos quais foi para padre e um neto que pertenceu à Ordem de Cristo. Após a construção em 1675 da Casa da Murtosa, hoje do Ratão, a família mandou edificar a Capela de Nossa Senhora do Carmo, mesmo em frente à casa.

Isabel Gomes Coelho é um daqueles casos de famílias mais antigas de Mosteirô cuja trajectória percorre vários séculos e que se torna particularmente importante durante o século XVIII, tal como outras famílias da nossa terra naquela época.

Isabel nasceu a 18 de Fevereiro de 1666 no seio de uma família com um percurso que remonta ao século XVI. Quando morre aos 69 anos de idade, em 17 de Agosto de 1735, sem ter assistido ao casamento da sua segunda filha Maria Bernarda da Silva, deixa uma descendência com percursos e histórias diferenciadas, mas igualmente importantes.

Toda a família, incluindo os pais e os irmãos, nasceram no Lugar da Murtosa e viveram ao longo da vida na casa em frente à Capela de Nossa Senhora do Carmo, hoje a Casa do Ratão, e que no século XVII era conhecida como Casa dos Coelhos.

Isabel Gomes

Isabel casou aos 33 anos de idade com o Capitão Manuel da Silva Grilo, aquartelado na Vila da Feira, mas natural de Alvarelhos, nessa altura uma freguesia pertencente ao concelho da Maia, no distrito do Porto.

O casal era constantemente chamado a acorrer a situações que surgiam nas redondezas. Acolhia em sua casa as chamadas “assistentes” que iam iniciar uma aprendizagem, enquanto solteiras, para se prepararem para a vida de casadas, a qual poderia consistir em aprender a ler, escrever e contar, a cozinhar, bordar e receber toda a educação religiosa da época.

Isabel e o Capitão eram muitas vezes solicitados para serem padrinhos de baptismo de recém-nascidos de toda a freguesia, assim como os seus filhos quando atingiam a idade adequada, o que aconteceu mais de 40 vezes entre 1699 e 1739, durante quarenta anos.

Também socorriam pedintes que por ali passavam ou acolhiam em sua casa carenciados, como foi o caso do bebé enjeitado que tinha sido deixado numa noite de Inverno à porta da casa da viúva Domingas Antónia daquele lugar, embrulhado nuns panos velhos, quase morto de frio e sem qualquer alimento, a quem deram o nome de Leonardo.

O casamento, um acontecimento social

O casamento de Isabel Gomes Coelho e do Capitão Manuel da Silva Grilo teve lugar no dia 31 de Agosto de 1698, na Igreja de Santo André de Proselha, sendo presidido pelo cura da freguesia, o padre Pascoal Gomes, foi presenciado por uma numerosa assistência, tanto da freguesia como como do Porto, da Maia e da Vila da Feira, e teve como testemunhas vários moradores da terra, nomeadamente João Dias, das Presas, Manuel Gomes, da Murtosa e Domingos António, de Proselha.

O seu casamento iria constituir um grande acontecimento social da época, uma vez que o novo casal teria uma grande influência na vida quotidiana, tanto no lugar da Murtosa como em toda a freguesia. O seu pai já não conseguiu assistir ao seu casamento, uma vez que tinha falecido cinco anos antes.

Casamento do capitão Grilo com Isabel Gomes

Naquela altura, a Murtosa era um lugar privilegiado, muito procurado para habitação por inúmeras personalidades, particularmente membros das chefias do Exército português, numerosos capitães e alferes, que por lá ficavam, acabando muitas das vezes por constituir família, casando com as filhas da terra, outras vezes com mulheres de outras freguesias mais longínquas.

Por toda a Europa entrava-se no Século das Luzes e Portugal viria a conhecer um enorme desenvolvimdento, promovido pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Mosteirô não fugiu à regra e torna-se num centro importante da época, tendo o seu ponto alto com a construção da Igreja Nova no Lugar de Proselha, com vista para o mar. Basta comparar a Igreja de Mosteirô com outras de freguesias vizinhas que, naquela época, não tinham nem pouco mais ou menos a mesma importância.

Marquês de Pombal
Marquês de Pombal

Para tal contribuiram as muitas personalidades da terra e muitas outras que para aqui vieram morar. O lugar beneficiava com o facto de a Via Antiga de Mosteirô, de que ainda sobra uma parte na Murtosa, ser o trajecto escolhido diariamente por muitos moradores de outras freguesias e de outras paragens que se dirigiam a pé ou a cavalo em missão ao Castelo da Feira ou para tratar de assuntos particulares à sede do concelho da Vila da Feira que, naquele momento, englobava várias freguesias em volta de Mosteirô.

Nas Memórias Paroquiais de Santo André de Proselha, o Padre Joaquim Henrique conta em 1758 que a Via Antiga se tratava “de uma estrada pública que vem da Vila da Feira e vai fazer a junção com estrada de Lisboa no Couto de Cucujães, passando por entre as casas do Lugar da Murtosa”. Esta estrada constituía igualmente, naquela época, um ponto de passagem obrigatório para um grande número de pedintes e peregrinos que por ali deambulavam, para além de militares e civis que se dirigiam à sede do concelho.

(A continuar)

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Quadro de Bruegel, o Velho, com os pedintes cegos da Idade Média

Destaque

A Assistente em casa do Alferes Estêvão

Na Murtosa, tal como acontecia com o capitão Manuel da Silva Grilo, o Alferes Estêvão Gomes Correia recebia por vezes “Assistentes” em sua casa, termo que dizia respeito a filhas donzelas das classes altas que vinham receber uma educação que naquela época consistia, grosso modo, em aprender a “ler, escrever, contar e bordar”.

Tal foi o caso a avó de Sousa Brandão, Ana Maria Correia de Sousa, natural da Arrifana e filha de um capitão de Exército Português, e que em meados do século XVIII se encontrava nessa qualidade a viver em casa do Alferres Estêvão, facto que acontecia amiudadas vezes com as filhas de militares graduados que passavam a vida a mudar de aquartelamento em todo o País e nas colónias, especialmente no Brasil.

A educação das Assistentes iria evoluir na segunda metade do século, deixando progressivamente de ser feita em casa de pessoas ricas, e passar a ser institucionalizada. No entanto, desde 1510 que a Ordem de Santiago já definia as regras em que os leigos poderiam participar, de forma a levar a cabo obras de índole caritativa e assistencial. Nesse âmbito, insere-se a fundação de ermidas, capelas, hospitais, albergues e mercearias. Nos três últimos casos praticava-se a assistência a enfermos, pobres e peregrinos. A fundação em Portugal da “Ordem da Visitação” em 30 de Janeiro de 1782, permitia acolher as filhas de gentes abastadas para a sua formação religiosa, especialmente para as preparar para o casamento. Na realidade, tratava-se de um ensino carácter prático e religioso.

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A avó de Sousa Brandão

Antes da existência da Ordem que ia peparar as meninas, em regime de internato, foi possível a Ana Maria Correia de Sousa receber tal educação, como assitente em casa do Alferes. Mais tarde, e quando estivesse preparada, iria realizar-se o seu casamento.

Foi o que aconteceu a 25 de Junho de 1756 na Igreja de Santo André de Mosteirô, ainda na Igreja Antiga, em Proselha, com o casamento dos avós paternos do General Sousa Brandão, Domingos Ferreira Brandão, natural de Coimbra, e de Ana Maria Correia de Sousa, natural de Arrifana. Tal evento seria apadrinhado pelo próprio Alferes Estêvão Gomes Correia e António Gomes da Costa. No registo do casamento, a avó de Sousa Brandão aparece como moradora no Lugar da Murtosa e como assistente na Casa do Alferes Estêvão.

Acontece que a avó Ana Maria Correia de Sousa era justamente filha do militar do Exército Português, o Capitão Manuel Tomé de Pinho e de Maria Teresa de Sousa, e neta de João de Sousa e Luísa Gomes, todos da Arrifana. Por sua vez, o capitão Manuel Tomé de Pinho era filho Manuel Tomé e Isabel de Pinho, também da Arrifana.

Por sua vez, o avô do general, Domingos Ferreira Brandão era filho de Domingos Fernandes e de Maria Brandão, neto paterno de Pedro Jorge e Águeda Fernandes e neto materno de João Fernandes e Maria Ferreira Brandão, todos de Ossela, do bispado de Coimbra.

Curiosamente, o primeiro habitante da Casa da Murtosa foi justamente o Capitão Carlos Correia de Sousa, a quem em 1549 o Rei D. João III concedeu o brasão dos Correias, o qual se encontra actualmente na fachada da casa de Sousa Brandão e que se pode ver claramente por cima da capela.

O Alferes Estêvão

Natural de Arrifana, o Alferes Estêvão Gomes Correia veio instalar-se em Mosteirô, no Lugar da Murtosa, no início do século XVIII, onde viria a constituir família e a desenvolver uma actividade social profíqua. Era frequentemente solicitado para ser padrinho de recém-nascidos ou para acudir a outras situações mais delicadas.

A tradição em Mosteirô, que perdurou nos séculos seguintes, levava a que os pais procurassem convidar as pessoas mais importantes da terra para apadrinhar os seus filhos. Foi isso o que aconteceu com o Alferes Estêvão durante cerca de três décadas, entre 1711 e 1740, e tanto ele como a sua mulher Isabel Luís viriam a tornar-se padrinhos de mais de vinte crianças, filhos de algumas das famílias mais conhecidas de Mosteirô naquela época, como os Leite de Pinho, Valente, Martins, Pereira, Fernandes, Correia, Mateus, Brito e Azevedo.

A 11 de Janeiro de 1711, um Domingo à tarde, o Alferes Estêvão Gomes Correia, morador na Casa da Murtosa, casou na Igreja de Santo André de Mosteirô com Isabel Luís, uma pessoa da terra, natural do Lugar da Murtosa, na presença das testemunhas João Leite e João, solteiro, ambos do Lugar da Murtosa, numa cerimónia presidida pelo padre cura Manuel Ferreira.

Morador no lugar da Murtosa, o Alferes Estêvão Gomes Correia era filho de João Gomes e Maria Correia, naturais da Arrifana, enquanto Isabel Luís era filha de António Luís e Domingas Antónia, ambos do Lugar da Murtosa.

O bebé Leandro, enjeitado

Mas o Alferes Correia era muitas vezes chamado a resolver problemas que surgiam noutras ocasiões e mostrava-se sempre disponível para ajudar as gentes do lugar. Em 19 de Outubro de 1740, foi deixado durante a noite um bebé à porta da casa do Alferes, que este acolheria de imediato. O recém-nascido não trazia qualquer identificação, nem sequer informação se teria ou não sido baptizado, como era a tradição naquela altura. Nestas circunstâncias, o Alferes Estêvão Gomes Correia resolveu proceder ao baptismo do dito bebé, a quem foi dado o nome de Leandro, na Igreja Antiga de Mosteirô, cerimónia levada a cabo pela padre Domingos Ferreira que naquela época presidia a todas as cerimónias religiosas.

Foram padrinhos de Leandro, o próprio Alferes Estêvão e Isabel Antónia, mulher de André Dias, do Lugar do Monte, tendo tido como testemunhas João Manuel de Resende e Manuel Leite, do Lugar de Proselha.

Embora existissem poucos casos em Mosteirô, era comum naquela época haver gente que deixava recém-nascidos à porta de pessoas mais ricas que poderiam acolher e alimentar a criança. O que se passou com o Leandro já tinha acontecido anteriormente em Mosteirô com Leonardo que tinha sido acolhido pelo Capitão Manuel da Silva Grilo em 1710.

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La Ruota dei Trovatelli, quadro italiano que simboliza a Roda dos Enjeitados, no interior de um mosteiro

No século XVIII e anteriores, acontecia em todo o território nacional que os chamados enjeitados eram entregues em instituições religiosas, tal como conventos e mosteiros, e em Casas da Misericórdia que existiam espalhadas pelo País ou eram inscritos nos Livros dos Enjeitados, existentes nas comarcas, para serem entregues à guarda de alguma família da região. Mas apareciam muitas vezes também à porta de casas de gente mais rica.

Só nos finais do século XVIII é que esta prática veio a ser oficializada e a receber a designação de Roda dos Expostos ou dos Enjeitados. O intendente geral da Polícia do Reino, Pina Manique, reconheceu oficialmente a instituição da roda através da circular de 24 de maio de 1783. Em Lisboa, quando atingiam a idade de aprendizagem, as crianças eram transferidas para a Casa Pia, uma instituição de acolhimento que as educava e preparava para a vida adulta.

 

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Destaque

Adriano do Saraiva, comerciante, influente em toda a região

A Loja de Adriano do Saraiva, como era conhecido, situada em Agoncida, era o local de encontro predilecto aos Domingos à tarde para o tradicional jogo de cartas. Adriano Ferreira Macedo era um aficionado e o seu estabelecimento era o eleito para as partidas de jogo da sueca, um dos raros passatempos daqueles tempos. Havia sempre parceiros prontos a entrar e alguns vinham mesmo de outros lugares da freguesia com esse propósito.

O pessoal juntava-se na mesa que existia do lado esquerdo à entrada da loja e aí passava as tardes a jogar, a beber uns copos e a contar histórias tradicionais da época, a ouvir os relatos do futebol ou a comentar algum acontecimento mais relevante da semana. Na parede por detrás da mesa de jogo, Adriano do Saraiva exibia com orgulho um desenho a lápis da autoria de um dos seus filhos, representando um Chevrolet Impala, único nas redondezas e um dos primeiros em Portugal, uma novidade raríssima que pertencia à família de Antero Andrade e Silva.

Adriano Ferreira Macedo era seguramente um dos homens mais influentes da região da Vila da Feira e, naturalmente, em toda a freguesia de Mosteirô. Conhecido como Adriano do Saraiva, era o proprietário de uma das principais lojas do Lugar da Agoncida que servia a clientela das redondezas e por onde passavam a pé e de bicicleta e paravam os trabalhadores das pedreiras, logo de manhã para “matar o bicho” e à tarde para beber um copo para a viagem de regresso a casa.

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Antiga Loja do Saraiva

Presidente da Junta durante 18 anos

Durante 18 anos consecutivos foi presidente da Junta da freguesia, nomeado pelos membros da então Câmara Municipal da Vila da Feira, situação comum a todos os restantes municípios do País. Naquela época, o sistema não contemplava a eleição dos membros das Juntas de Freguesia e, tal como os presidentes de Câmara, estes eram nomeados e representavam o poder central nas autarquias, sobretudo para questões burocráticas.

Nessa qualidade, Adriano do Saraiva teria um papel importante junto do poder camarário para trazer para Mosteirô algumas melhorias, como seria o caso da construção da “estrada nova” alcatroada, que permitiu a ligação entre Agoncida, Monte e Proselha, nos anos 1950, passando pelo Juncal, local onde seria construída uma ponte destinada à travessia do ribeiro que nasce nas Presas e se vai juntar ao Rio Laje no fundo de Mosteirô. Segundo contam os familiares, Adriano Ferreira Macedo participaria pessoalmente, de pá e picareta, na construção da estrada, ao lado dos trabalhadores na altura contratados pela Câmara Municipal da Feira.

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Ferreira Macedo, uma antiga família de Mosteirô

Adriano Ferreira Macedo nasceu em Agoncida a 23 de Julho de 1916, casou com Arminda de Jesus Pereira e viria falecer aos 84 anos de idade, a 23 de Julho de 2000.

Adriano do Saraiva era filho de António Ferreira Macedo, natural de Agoncida e canteiro de profissão, e de Maria Emília da Silva, natural de Espargo, no concelho de Feira, e governadeira de sua casa, expressão que se usava na altura para indicar que se tratava de uma dona de casa. Era neto paterno de Manuel Ferreira Macedo e de Maria Pereira Angelina, de Mosteirô, e neto materno de Custódio da Costa Pedrosa e de Emília Luísa da Silva, ambos naturais de Espargo.

Os seus pais casaram em Silvalde, Espinho, no dia 20 de Agosto de 1905, e foram testemunhas da cerimónia o sacristão, António Alves Bica, e um familiar da sua mãe, Avelino da Costa Pedrosa. O padre que presidiu à cerimónia foi Manuel Nunes de Campos.

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Registo de casamento em Silvalde, Espinho

António Ferreira Macedo, pai de Adriano, tinha sido casado anteriormente com uma prima, Maria Dias Angelina, filha de Manuel António Dias e de Ana Maria Angelina, que viria falecer após o parto da sua filha Maria. O primeiro casamento do seu pai teve lugar na igreja de Mosteirô a 10 de Janeiro de 1904. Por serem primos, foi necessária autorização por parte do Bispo do Porto. Foram testemunhas Manuel Gomes Leite, da Murtosa, e Francisco de Bastos, da Agoncida, na presença do padre Manuel Martins da Silva.

Os Ferreira Macedo, são uma antiga família de Mosteirô e que se desenvolveu ao longo do século XIX. Os avós paternos de Adriano Ferreira Macedo eram lavradores, naturais do lugar de Mosteirô. O seu avô Manuel Ferreira Macedo, nasceu a 1 de Fevereiro de 1879, e os bisavós eram José Ferreira Macedo e Maria Rosa Pereira de Jesus, por parte do avô, e Joaquim Coelho Pereira e Ana Maria Angelina, por parte da avó.

Adriano Macedo era o irmão mais novo de Alfredo Ferreira Macedo, bem conhecido como Ti Alfredo Leiloeiro e um dos grandes animadores de ocasiões festivas na freguesia, especialmente nos cortejos de oferendas, nas arrematações e nos entremeses ensaiados por Manuel do Lizura. Adriano Ferreira Macedo e Arminda de Jesus Pereira tiveram três filhos: Rosa, Adriano e José.

 

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Destaque

As famílias mais antigas de Mosteirô

Silva, Azevedo, Santos, Leite, Pinho, Martins, Correia, Rodrigues, Fonseca, Ferreira, Carvalho, Pereira, Marques, Valente, são alguns dos nomes que aparecem no século XVII em Mosteirô

Através dos registos de casamento que se encontram na Torre do Tombo, entre 1604 e 1700, conseguimos conhecer os nomes das principais famílias existentes em Mosteirô nessa época, consultando os nomes dos noivos, dos pais dos noivos, dos padrinhos e das testemunhas, bem como os registos de nascimentos.

Em quase 100 anos, desde que se iniciaram os registos, destacam-se três famílias com o maior número de citações, a dos Fernandes, Gonçalves e Gomes, o que poderá corresponder às famílias mais numerosas em Mosteirô nessa época. É curioso verificar que o primeiro registo de baptismo existente em Mosteirô data de 13 de Dezembro de 1604 e contempla o nascimento de Domingas Alves que é filha de António Alves e de Domingas Fernandes. Pouco depois, a 30 de Janeiro de 1605, nasce Sebastião Fernandes, filho de Bartolomeu Fernandes e de Águeda Fernandes.

No entanto, há que ter em conta dois elementos: primeiro, muitas vezes, os apelidos resultam de nomes próprios, como é o caso de Jorge, em segundo lugar, nos registos de nascimento da época só aparece o nome próprio do indivíduo baptizado, e mais tarde ele irá adoptar como apelido o do pai ou da mãe, não havendo um critério muito definido. Os registos de baptismo até 1860 não contemplam informação acerca do eventual casamento ou casamentos, pelo que se torna difícil saber quem casou fora de Mosteirô, com quem casou e se teve filhos. Assim, só se pode conhecer com rigor os intervenientes nos casamentos registados em Mosteirô. A partir da década de 1860, essa informação passa a estar disponível e ficámos a saber acerca daqueles que foram para fora da terra, incluindo muitos dos que foram para o Brasil.

A família Fernandes, Fonseca e Rebelo

O primeiro casamento registado no século XVII, a 8 de Agosto de 1604, foi o de Beatriz da Fonseca, de Mosteirô, filha de António Fernandes e de Maria da Fonseca, com Gaspar Rebelo, natural de São Martinho da Gândara, filho de Gaspar Rebelo e de Domingas de Almeida. Foram testemunhas Baltazar Pires, André Manuel, Braz Gonçalves e Gonçalo António, todos da freguesia de Santo André de Proselha.

1604 - primeiro registo de casamento
Primeiro registo de casamento efectuado na Igreja de Santo André de Proselha

Dez meses depois, a 29 de Junho de 1605, é baptizada a filha do casal, Cecília da Fonseca, tendo tido como padrinhos Diogo Rebelo, de São Martinho da Gândara, e Antónia da Fonseca, mulher de António Garcia, moradores na vizinha freguesia de Cucujães. O casal teria mais cinco filhos: Maria, Domingos, Catarina, Filipa e Beatriz.

Em 1619, no dia 13 de Outubro, Cecília da Fonseca viria a casar com António Fernandes, filho de Pedro Afonso e Catarina Fernandes, de São Martinho da Gândara, tendo tido como testemunhas Domingos Dias, Baltazar João e João Dias, igualmente de S. Martinho da Gândara.

Meses depois, a 26 de Abril de 1620, a mãe de Cecília, Beatriz da Fonseca casaria por sua vez, após a morte do marido, com um cunhado da filha, Domingos Fernandes, igualmente filho de Pedro Afonso e Catarina Fernandes, de São Martinho da Gândara, tendo tido como testemunhas Domingos Dias, João Dias, Pascoal Rebelo.

Beatriz da Fonseca teria um filho deste seu segundo casamento, o qual receberia o nome do pai, Domingos Fernandes, e que seria baptizado a 21 de Outubro de 1621, tendo tido como padrinhos Mateus André, de São Martinho da Gândara, e Isabel Antónia, mulher de Diogo Fernandes, da freguesia de Proselha.

Tendo ficado novamente viúva, Beatriz da Fonseca viria a casar de novo com Gonçalo António, igualmente viúvo, a 20 de Dezembro de 1638, tendo esta cerimónia tido como testemunhas Diogo Fernandes, António Fernandes e André Fernandes.

A 7 de Janeiro de 1641, casa a filha Beatriz Fonseca com Domingos Manuel, filho de André Francisco e Beatriz Manuel, sendo testemunhas André João, André Fernandes e António Dias.

Ao longo de 96 anos até 1700, o nome dos Fernandes aparece por 180 vezes e envolveu a realização de 56 casamentos, o que nos leva a supor que terão existido 56 famílias com o apelido de Fernandes em Mosteirô nesse século, podendo o número ser superior, contando com famílias que já existiriam antes de 1604.

Já o nome de família Gonçalves que aparece em segundo lugar, em 79 vezes, durante esses 96 anos, acabou por ir perdendo peso na freguesia, o que correspondeu a apenas 13 casamentos nesse período. A partir de 1660, deixa de aparecer o apelido Gonçalves como pertencente a um dos noivos. A partir de 1700 e até 1740, o nome dos Gonçalves apenas vai aparecer mais sete vezes, havendo somente um casamento a registar nesses 40 anos.

A família Gomes da Murtosa

Quanto ao apelido Gomes, aparece 51 vezes nesse período, tendo-se registado 24 casamentos envolvendo noivos com esse apelido, quase todos moradores do Lugar da Murtosa.

Desde o início dos anos de 1600 que os familiares de nome Gomes intervêm em cerimónias de casamento quer como testemunhas quer como parentes dos noivos, mas, ao contrário dos Gonçalves, o apelido dos Gomes vai aumentando na segunda metade do século XVII, sendo 23 dos 24 casamentos desse século realizados neste período.

Em 24 de Julho de 1618 celebrou-se o casamento de André Rodrigues com Maria Antónia Fernandes, filha de António Gomes e de Catarina André, todos moradores no Lugar de Murtosa. Foram testemunhas Amaro André, António Rodrigues e Domingos Gonçalves. Este casamento irá dar lugar a uma linhagem que se estenderá por todo o século seguinte.

Assim, em 11 de Abril de 1627 nasce André Gomes, filho de André Rodrigues e de Maria Antónia Fernandes, tendo ficado como padrinhos Domingos António e Mónica, filha de André Fernandes.

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A 27 de Agosto de 1653, André Gomes, filho de André Rodrigues e de Maria Antónia, de Mosteirô, casa na Igreja Antiga com Maria Fernandes, filha de António Alves e de Lucrécia Fernandes, da freguesia de Cesár. Foram testemunhas António Dias, do Lugar da Murtosa, e André Fernandes, João Coelho e Domingos António, do lugar de Mosteirô.

André Gomes e Maria Antónia Fernandes tiveram vários filhos e, no dia 18 de Fevereiro de 1666, nasce uma filha a quem dão o nome de Isabel, sendo padrinhos de baptismo Rafael Valente e Maria João, todos da freguesia de Mosteirô.

Em finais do século XVII, dá-se um novo desenvolvimento com a chegada ao Lugar da Murtosa do capitão Manuel da Silva Grilo que aqui veio instalar-se. A sua permanência vai levar ao casamento com uma filha da terra, justamente Isabel Gomes, pertencente à Casa dos Coelhos, e filha de André Gomes e de Maria Antónia Fernandes. O capitão Manuel Grilo era natural de Alvarelhos, comarca de Santo Tirso, filho de Manuel Grilo e de Manuela da Silva. Foram testemunhas deste casamento João Dias, das Presas, Manuel Gomes e Domingos António.

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A casa do Ratão, restaurada. Terá pertencido ao Capitão Manuel da Silva Grilo.

Ao longo dos anos 1700, o casal vai ter vários filhos, entre os quais se destaca Josefa Teresa Grilo que nasce a 12 de Fevereiro de 1702, no lugar da Murtosa, tendo tido como padrinhos o seu tio paterno Miguel da Silva Grilo, de Alvarelhos, e a sua tia materna Susana Gomes, de Mosteirô.

Josefa Teresa Grilo viria a casar com o licenciado Constantino de Carvalho Pereira, filho de Pascoal da Silva Carvalho, de Carregosa, e de Susana Valente Pereira, de Mosteirô. A cerimónia teve lugar na Igreja de Mosteirô a 14 de Maio de 1725 e teve como testemunhas Manuel Leite e Domingos Alves.

Deste casamento nasceria a 20 de Fevereiro de 1729 o Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, cuja sepultura se encontra ainda na sacristia da Igreja de Mosteirô.

O crescimento da população

Há apelidos que vão perdendo importância no final do século XVII, como foi o caso dos Gonçalves, enquanto outros aparecem e vão ganhando força no início do século XVIII. Sendo os números apresentados relativos a referências de apelidos que intervinham nos actos de casamento, tal não corresponde ao número de famílias. No início do século XVII, o número total de famílias era baixo e a população deveria rondar as 120 pessoas, se tivermos em conta a população total de Portugal na época. Já no início do século XVIII, por volta de 1700, o número de habitantes poderia atingir as 200 pessoas, sendo certo que em 1758 eram 288, de acordo com o padre da paróquia, Joaquim Henriques. Sabemos que em 1527 existiam em Mosteirô 19 casas, o que poderia equivaler a uma população de cerca de 75 pessoas, e que em 1758 havia 73 casas em toda a freguesia.

Com 180 referências nos registos de casamento, os Fernandes dominam todo o século XVII, continuando a liderar durante o século XVIII. Durante 50 anos, entre 1690 e 1740, a família Fernandes continua com o maior número de registos, seguida da família Gomes, assistindo-se nesse período a um forte crescimento das famílias Silva, Azevedo, Santos, Leite, Pinho, Martins, Oliveira, Ferreira e Correia. Verifica-se assim que, neste último período, algumas famílias vão perdendo a importância que tinham anteriormente, enquanto emergem outros nomes de família que antes pareciam menos presentes.

Entre 1604 e 1700 realizam-se 156 casamentos em Mosteirô. Acontece em muitos casos que aparecem os apelidos diferentes do homem e da mulher. Naquela época acontecia muitas vezes que o pároco colocava o nome próprio da pessoa e acrescentava o nome próprio do pai ou da mãe. Diziam-lhe a Maria é filha da Antónia e nome iria aparecer como Maria Antónia, sem o apelido a que teria direito. Por esse motivo, nesta análise não foram considerados apelidos todos aqueles que eram na realidade nomes próprios.

No virar do século XVII, a população surgia principalmente em três lugares: Murtosa, Proselha e Mosteirô. Os lugares das Presas e do Monte apareciam de vez em quando, enquanto o lugar de Agoncida ia começando a aparecer sugerindo uma forte concentração geográfica da população residente nos três lugares referidos.

 

 

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Destaque

Santos da casa não fazem milagres

No final do século XVII e nas primeiras décadas de 1700, na Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa, realizavam-se alguns casamentos, especialmente de moradores deste Lugar, em virtude de a mesma pertencer ao Capitão Manuel da Silva Grilo, ali residente.

Durante 150 anos, entre 1604 e 1754, nos séculos XVII e XVIII, as mulheres e raparigas de Mosteirô escolhiam, na sua maioria, para casar, rapazes de fora da terra, havendo períodos em que essa tendência era muito mais vincada. De qualquer modo, os casamentos eram realizados com gente bem de perto, para além da própria terra, das freguesias vizinhas em que se iam encontrar os namorados e que eram principalmente Fornos, seguida à distância por Cucujães, Souto e S. Vicente Pereira. Como se costuma dizer, santos da casa não fazem milagres.

Naquela época, havia uma grande mobilidade dentro de um raio de poucos quilómetros e é por isso que, nesses 150 anos, cerca de 60% das raparigas de Mosteirô acabam por casar com rapazes de fora que vêm viver para a nossa freguesia. São muito poucas as que se casam e vão viver para outro lado.

Na viragem do século XVII para o século XVIII, entre 1691 e 1710, assiste-se a um fenómeno curioso: ao mesmo tempo que o Lugar da Murtosa regista um crescimento da população, com muitos militares que vêm para ali viver e casar, ter-se-á registado um recorde, quando 74% dos casamentos nesses 20 anos, de mulheres de Mosteirô, são efectuados com rapazes de fora da freguesia, num período em que terá havido uma crise económica em Portugal, justamente entre 1691 e 1712.

Os casamentos na Capela da Murtosa

Nas primeiras décadas de 1700, na Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa, realizavam-se alguns casamentos especialmente de moradores deste Lugar, em virtude de a mesma pertencer ao Capitão Manuel da Silva Grilo, ali residente.

Assim, em 24 de Janeiro de 1737 realiza-se na Capela da Murtosa o casamento do Capitão Manuel Marques Ferreira, natural da freguesia de S. Salvador de Fornos, filho de Salviano Marques e de Catarina Ferreira, com Maria Bernarda da Silva, natural e moradora no lugar da Murtosa, freguesia de Santo André de Mosteirô, filha do Capitão Manuel da Silva Grilo e de Isabel Gomes, cuja família ali permanecia havia mais de 100 anos.

Casamento na Capela da Murtosa - 24-1-1737
Este registo menciona explicitamente a Capela de Nossa Senhora do Carmo, no Lugar da Murtosa

Conforme refere o padre Joaquim Henriques em 1755, o Capitão Marques Ferreira viria mais tarde a tornar-se num dos donos da referida capela, em conjunto com Salvador de Carvalho, também natural e morador no Lugar, familiar do Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, que possui o brasão dos Carvalhos que se encontra na Casa do Ratão, e era neto do capitão Grilo.

Os nomes próprios e os apelidos de há 400 anos

Quanto aos nomes próprios mais comuns de há 400 anos, em Mosteirô, conforme se pode verificar nos registos de casamentos e de nascimentos, vemos surgir, quase naturalmente, Maria em primeiro lugar, logo seguido dos nomes de Domingos e Domingas, muito em voga nas Presas e na Murtosa. Depois, surgem nomes como Manuel, António, Gonçalo, André, Diogo, Isabel, Antónia, Catarina, Sebastião, Cecília e Beatriz.

Relativamente aos apelidos, os quais muitas vezes se confundem com os nomes próprios, nos primeiros 50 anos do século XVII, até por volta de 1650, aparecem destacados os de Gonçalves e Fernandes, com várias dezenas de conterrâneos possuindo estes apelidos. Num segundo patamar, aparecem: Rodrigues, Francisco, Alves, Dinis, Dias, Gomes, Jorge, Rebelo, Pires e Fonseca.

Em 1620, encontra-se pela primeira vez o nome de Domingos Alves, um apelido que perduraria até ao século XX, aquando do casamento da filha Maria Fernandes com Gaspar dos Santos. No registo, a filha Maria aparece com o mesmo nome da mãe, também Maria Fernandes, o que acontecia muitas vezes naquela época. Convém lembrar que não existem registos publicados anteriores a 1604, e os que existem posteriores a esta data encontram-se na Torre do Tombo.

De qualquer modo, encontramos já alguns dos apelidos mais comuns dos tempos actuais em Mosteirô, como Martins, Carvalho, Silva, Marques, Valente, Coelho, Azevedo ou Pereira. No entanto, outros foram-se perdendo com o tempo e já deve haver poucos dos nossos conterrâneos com tais apelidos: Dinis, Henriques, Gaspar, Cardosa ou Fontes.

Os lugares foram mudando de importância

No virar do século XVII, Mosteirô deveria ter uma população a rondar as 200 pessoas, espalhadas pelos diversos lugares, mas com uma forte presença nos lugares de Proselha, Mosteirô e Murtosa. Nesta época, aparece um grande número de nomes de lugares, para além dos já citados. Os registos de nascimento e de casamento, durante um período de 150 anos entre 1604 e 1755, dão-nos conta de nomes de lugares que, entretanto, uns foram perdendo a sua importância, como é o caso de Ramada, Quintã, Campinho, Serrado, Sernada, Outeiro, Aldeia, Barreiro, Morouço ou Cancela, enquanto outros iam-se tornando mais habitados como foi o caso de Agoncida, do Monte e das Presas. Havia uma grande ligação entre a Murtosa e as Presas, e entre Agoncida e Cucujães e S. Vicente Pereira, com casamentos e envolvendo padrinhos de baptismo oriundos desses lugares e freguesias.

Curiosamente, ao contrário ao que seria de esperar, as relações com Souto eram poucas, destacando-se sobretudo os casamentos em grande número que eram efectuados com rapazes de Fornos, dada a proximidade entre as duas freguesias e a circunstância de a Via Antiga de Mosteirô passar obrigatoriamente por Fornos, pelas Carregueiras.

Casamento do capitão Marques Ferreira registo
Registo de casamento do capitão Marques Ferreira com Maria Bernarda da Silva

Destaque

Vamos cantar as janeiras

Vamos cantar as janeiras / Vamos cantar as janeiras / Por esses quintais adentro vamos / Às raparigas solteiras. Zeca Afonso

As Janeiras (cantar as Janeiras) é uma tradição em Portugal que consiste no cantar de músicas pelas ruas por grupos de pessoas anunciando o nascimento de Jesus, desejando um feliz Ano Novo. Esses grupos vão de porta em porta, pedindo aos residentes as sobras das Festas Natalícias. Hoje em dia, essas ‘sobras’ traduzem-se muitas vezes em dinheiro.

O cantar das Janeiras ocorre em Janeiro, começando no dia 1 (na noite de 31 de Dezembro para o primeiro de Janeiro) e estendendo-se até ao dia 6, Dia de Reis ou Epifania. Hoje em dia, muitos grupos (especialmente citadinos) prolongam o Cantar de Janeiras durante todo o mês.

A tradição geral e mais acentuada, é que grupos de amigos ou vizinhos se juntem, com ou sem instrumentos (no caso de os haver são mais comuns os folclóricos: pandeireta, bombo, flauta, viola, etc.). Depois do grupo formado, e de distribuídas as letras e os instrumentos, vão cantar de porta em porta pela vizinhança.

A tradição em Mosteirô

A tradição de cantar as Janeiras em Mosteirô até à década de 1960 era sobretudo realizada na madrugada do Dia de Reis, embora houvesse quem o fizesse também na madrugada do primeiro dia do ano. Nessa época, também havia tradição de uma ceia mais elaborada na Noite de Reis, nem que fosse com os restos que tinham sobrado do Natal e do Ano Novo.

A caminho - reis magos

Os “reizeiros”, também chamados de “janeireiros” nalguns pontos do País, apesar das noites frias e húmidas da época, acompanhados pelo tocador de ferrinhos e o cavaquinho, iam de casa em casa, cantando versos que faziam alusão aos seus moradores, especialmente aos donos da casa, que retribuíam oferecendo geralmente produtos caseiros ou comida que ainda sobrasse e que seriam partilhados pelos participantes.

Ainda agora aqui cheguei/Já pus o pé na escada/Logo o meu coração disse/Que aqui mora gente honrada.

Hoje em dia, ainda existem grupos folclóricos e associações recreativas e culturais que tentam preservar esta tradição na nossa região e em muitas aldeias e vilas de Portugal, especialmente do Norte do País.

As Janeiras
Ver vídeo: As Janeiras em Santa Maria da Feira

O Dia de Reis, que se assinala no próximo domingo, está associado ao bolo-rei e ao “cantar das janeiras” e põe fim às festividades de Natal e Ano Novo, sendo o 6 de Janeiro mais importante do que o Natal para os cristãos ortodoxos. Assinala a visita de “Reis magos” a Jesus, oferecendo-lhe presentes (é por isso que em Espanha se mantém a tradição de trocar presentes neste dia), e assinala ainda o fim das janeiras (cantares que na tradição poderiam ser de origem religiosa).

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes, vieram do oriente uns magos a Jerusalém, perguntando: Onde está aquele que nasceu Rei dos Judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos adorá-lo”, lê-se no evangelho de S. Mateus (capítulo II).

Mas “a origem desta tradição baseia-se em costumes pagãos, como muitas outras tradições cristãs. Entre os deuses da mitologia dos Romanos, contava-se Janus, que significa Deus das portas, das passagens, que as fechava e abria no regresso. É do seu nome que deriva a denominação do primeiro mês do ano, Janeiro. Daí então a tradição de cantar as Janeiras, ou seja, desejar Boas Entradas, Bom Ano, como os romanos faziam ao iniciarem mais um ano saudando-se em nome de Janus, o porteiro celestial.”

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Leonardo, o bebé enjeitado

Chegava ao fim o ano de 1710 e um acontecimento inesperado alarmou toda a freguesia de Santo André de Mosteirô, facto que iria ser recordado e comentado ao longo de semanas e meses

Foi numa quinta-feira, no dia 6 de Novembro do ano de 1710, que o alvoroço atingiu o Lugar da Murtosa, ao ser encontrado na Estrada que fazia a ligação entre Mosteirô e S. João da Madeira, Arrifana e Cucujães, à porta da casa da viúva Domingas Antónia daquele lugar, um bebé recém-nascido, embrulhado nuns panos velhos, quase morto de frio e sem qualquer alimento e sem nenhum objecto de identificação dos respectivos pais. Tinha sido uma noite de intempérie, com frio, vento e humidade, típica da chegada do Inverno, que colocava em causa a vida do bebé.

Os gritos de Domingas Antónia alertaram toda a gente e, de imediato, se juntou a população do lugar, que se mobilizou para encontrar uma solução para aquela criança, infeliz e indefesa, tendo sido chamado o Capitão Manuel da Silva Grilo, morador na Casa dos Coelhos, actual Casa do Ratão, mesmo em frente à capela, para se encontrar uma saída para tal situação. Considerado uma pessoa caritativa, o capitão acudiu ao chamado e mandou levar nesse momento para a sua própria casa o recém-nascido e tratar de o aquecer e alimentar.

De seguida, o capitão Grilo dirigiu-se ao Juiz da comarca da Villa da Feira para se dar entrada da criança no Livro dos Enjeitados, tendo depois baptizado o bebé com o nome de Leonardo, na sua própria casa, e chamado o padre Manuel Ferreira, cura da paróquia de Santo André de Mosteirô, para lhe dar conta do sucedido.

Durante muito tempo se especulou sobre quem seriam os pais do recém-nascido, tanto mais que não se conhecia nenhuma grávida nas redondezas, colocando-se a hipótese de ter sido alguém de fora, possivelmente de uma das freguesias vizinhas.

De qualquer modo, após as diligências do capitão, e por ordem da Comarca da Feira, apesar de haver mais interessados, o recém-nascido foi entregue para criar em casa de António Ferreira, natural da freguesia e aqui residente. Conta o padre Manuel Ferreira que dias mais tarde o recém-nascido:

“veio à Igreja a receber as demais cerimónias da Santa Madre Igreja e os Santos óleos e eu padre Manuel Henriques o baptizei, sub condicione, a dezasseis do mesmo mês, da era de mil setecentos e dez anos.”

Foram padrinhos do baptismo de Leonardo o próprio Capitão Manuel da Silva Grillo e madrinha, Maria, solteira, de Cezar, prima do mesmo capitão e residente em sua casa. E o baptizado teve como testemunhas Domingos de Fontes, do lugar de Mosteirô, e o referido António Ferreira, do mesmo lugar. E acrescenta o cura de Mosteirô:

“E por fim ser verdade fiz este termo que assinei hoje, no dia, mês e ano supra. O padre Manuel Ferreira.”

1710 - Leonardo
Registo de nascimento de Leonardo

A roda dos expostos e enjeitados

Naquela época, acontecia em todo o território nacional que os chamados enjeitados eram entregues em instituições religiosas, tal como conventos e mosteiros, e em Casas da Misericórdia que existiam espalhadas pelo País ou eram inscritos nos Livros dos Enjeitados, existentes nas comarcas, para serem entregues à guarda de alguma família da região.

O costume era a entrega ser efectuada pelos próprios pais, que não tinham posses para sustentar a criança, na chamada Roda da Vila. Inicialmente, a denominação de Roda deriva de uma prática existente em mosteiros de clausura e em conventos que permitia a colocação de objectos sem que houvesse contacto físico ou visual entre os de fora e os de dentro. As rodas eram cilindros de madeira giratórios colocados numa janela junto às portas das instituições religiosas. Acontecia, por vezes, que em vez de um objecto ou de alimentos fossem colocadas, nas rodas dos conventos e mosteiros, crianças recém-nascidas.

Em Portugal, as rodas espalharam-se a partir de 1498 com o surgimento das irmandades da Misericórdia, financiadas pelos Senados das Câmaras. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi pioneira neste dispositivo. Segundo as Ordenações Manuelinas de 1521 e confirmadas pelas Ordenações Filipinas de 1603, as Câmaras deveriam arcar com o custo de criação do enjeitado nascido sob a sua jurisdição, caso esta não tivesse a Casa dos Expostos e nem a Roda dos Expostos. A Câmara teria essa obrigação até que o exposto completasse sete anos de idade. A Roda dos Expostos da Vila da Feira surge já no século XIX.

Na sua maioria, os expostos não eram anónimos, ou desprovidos de reconhecimento por aqueles com quem conviviam. É gente que cresce, casa, usa e toma apelidos de diversa origem: da família que o criou, dum padrinho ou duma madrinha, duma profissão que entretanto aprende, ou que seja a do pai ou da mãe da família que o criou, da sempre citada alcunha, própria ou dalgum dos anteriores, ou mesmo do dos pais que, entretanto, aparecem ou se sabe quem são. Em muitos assentos de baptismo, aparecem os nomes dos pais, ou apenas os apelidos, que os pais/mãe deixavam escrito num papel junto com a criança quando os deixavam na Roda. Noutros casos, os nomes aparecem à margem quando os pais os voltavam a ir buscar.

A roda veio a ser oficializada nos finais do século XVIII e a receber a designação de Roda dos Expostos ou dos Enjeitados. O intendente geral da Polícia do Reino, Pina Manique, reconheceu oficialmente a instituição da roda através da circular de 24 de maio de 1783. Em Lisboa, quando atingiam a idade de aprendizagem, as crianças eram transferidas para a Casa Pia, uma instituição de acolhimento que as educava e preparava para a vida adulta.

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Pina Manique

O Capitão Manuel da Silva Grilo

Nascido em Alvarelhos, na época pertencente ao concelho da Maia, Manuel da Silva Grilo tornou-se um dos habitantes eméritos do lugar da Murtosa, freguesia de Santo André de Mosteirô, muito popular e conhecido em toda a região da Terra de Santa Maria. Teve diversos filhos e filhas, todos nascidos no referido lugar, e foi padrinho de baptismo de quase duas dezenas de crianças de Mosteirô e de freguesias das redondezas. Capitão da guarnição da Vila da Feira, era avô de Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, professo da Ordem de Cristo, cujo brasão se encontra actualmente na parede da casa do Ratão. Manuel da Silva Grilo casou em Mosteirô com Isabel Gomes Coelho, da casa dos Coelhos, do lugar da Murtosa.

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Reportagem e galeria de fotos

Imagens da cobertura do lançamento do livro pela Rádio Clube da Feira

A Rádio Clube da Feira realizou uma reportagem alargada sobre o lançamento do livro “Mosteirô, uma aldeia e muitas histórias” que tem tido um grande acolhimento entre os ouvintes e seguidores do facebook.

A galeria de fotos aqui inserida espelha um pouco do ambiente que se viveu na apresentação do livro que conseguiu congregar cerca de 220 conterrâneos interessados nas temáticas abordadas pelo livro.

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Conhecer Mosteirô através das suas gentes

A apresentação do livro sobre Mosteirô esteve a cargo de Jorge de Andrade (à esquerda), Acácio Gomes (ao centro) e Andreia de Sousa Martins (à direita)

Reportagem de Nélson Costa, in Correio da Feira

O Salão Paroquial de Mosteirô esgotou a lotação para receber a apresentação do livro ‘Mosteirô, uma aldeia e muitas histórias’, de Acácio Gomes. As gentes de Mosteirô não quiseram perder a ocasião de conhecer as histórias dos seus antepassados.

MOSTEIRÔ: Salão Paroquial de Mosteirô repleto de mosteiroenses orgulhosos por verem as suas histórias, as histórias dos seus antepassados, e a História da sua Terra retratada em livro pelo jornalista e consultor de comunicação e imagem, Acácio Gomes, também ele natural da freguesia de Santa Maria da Feira, na obra ‘Mosteirô, uma aldeia e muitas histórias’, cuja apresentação decorreu na sexta-feira.

Trata-se de uma obra que compila – além de outras pesquisas entretanto realizadas – várias histórias e testemunhos partilhados numa página, de uma rede social, alusiva a Mosteirô (‘Mosteirô Feira’). O presidente da Câmara Emídio Sousa, o comendador Alfredo Henriques e o vereador da Cultura Gil Ferreira foram algumas das presenças notadas.

Orgulho parece de facto a palavra adequada para descrever o que os rostos das cerca de duas dezenas de mosteiroenses transmitiam ao se depararem, primeiro, com a exposição de fotos alusivas às gentes e História de Mosteirô, e depois ao folhearem o livro, oferecido a todos os presentes “graças à perseverança” do primo de Acácio Gomes, o comendador Cândido de Andrade, conforme ressalva o autor no início do seu discurso.

Reportagem CF

Na apresentação, Acácio Gomes referiu ainda que o livro “procura contar a história de Mosteirô, através das pessoas”, e destacou, entre várias histórias, a garantia da “existência de escravos no século XVIII, em Mosteirô” e da descoberta de uma cruz “que pertencia à Ordem de Cristo”.

Jorge de Andrade, neto de Antero de Andrade e Silva, e Andreia de Sousa Martins, descendente dos Lizura, duas das famílias retratadas no livro, conheceram Acácio Gomes através da página de rede social ‘Mosteirô Feira’ e foram os oradores escolhidos pelo autor para apresentar a obra. Jorge de Andrade, administrador do Correio da Feira, refere que se trata de “um livro que se pode ler a partir de qualquer ponto e que cativa em qualquer página”. O orador destacou ainda a história do general Sousa Brandão, “que está esquecida e importava que fosse dada a devida relevância por parte da Câmara”, e assumiu “orgulho” pela família estar retratada através das histórias de Gil Andrade e Silva, Antero de Andrade e Silva e do bispo Florentino Andrade.

Já Andreia de Sousa Martins preferiu destacar que o livro “é um enorme contributo para a freguesia, em particular para os mais jovens e gerações futuras”. A apresentação terminou com Acácio Gomes, orgulhoso, a referir já ter assistido “a muitas apresentações em Lisboa, mas nunca vi tanta gente”, seguida da habitual sessão de autógrafos e dedicatórias.

 

 

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“Não sou historiador, sou um contador de histórias”

By Nélson Costa, in “Correio da Feira”, de hoje

Entrevista sobre o lançamento na próxima sexta-feira, dia 9 de Novembro, no Salão Paroquial de Mosteirô, pelas 17h30, do livro “Mosteirô, uma aldeia e muitas histórias”, com o autor Acácio Gomes.

Como nasceu a ideia de criar um livro sobre Mosteirô?

A ideia de escrever um livro foi amadurecendo à medida que criei um blogue e uma página do Facebook sobre Mosteirô destinados a publicar fotos e histórias antigas, que foram tendo um impacto considerável, que eu próprio não esperava. Havia um interesse crescente, entusiasmo até, por parte dos seguidores que queriam ver as suas histórias e fotos aí reproduzidas. A tal ponto que, ao fim de dez meses, o blogue já tinha cerca de vinte mil visualizações.

Na introdução, refere que “este não é um livro de História. É antes de mais nada um livro de histórias que procura contar a vida das gentes de Mosteirô…”. Porquê esta abordagem mais interpessoal?

Digamos que inicialmente eu estava mais interessado em conhecer a História de Mosteirô, coisa que nunca me tinha sido ensinada na escola, nem a mim nem aos meus colegas. Obviamente, a História da Terra de Santa Maria era sobejamente conhecida, mas não a das aldeias e lugares à volta. Mosteirô fica a um quilómetro e meio do castelo e seria possível existir uma relação de proximidade desde tempos mais antigos. Ao pesquisar a respeito da freguesia fui encontrando personagens que deram oportunidade de focar essa abordagem, alguns dos quais eu ainda conheci pessoalmente, e isso levou-me por esse caminho, tanto mais que eu não sou historiador, mas, como jornalista, sou um contador de histórias.

Descreva um pouco o livro e suas temáticas.

Para além da História propriamente dita, o enfoque dirigiu-me mais para as pessoas, tanto as que por cá ficaram como as que se viram obrigadas a emigrar. As condições de vida ao longo dos tempos, as atividades desenvolvidas, algumas durante séculos, como a da extração do granito, mas também a agricultura que se praticava, os fracos recursos existentes com gente vivendo na pobreza extrema, foram alguns dos pontos desenvolvidos. Mas também as tradições, as festas e romarias, os cortejos de oferendas, muito em voga até à década de 1960, que serviam para arrecadar dinheiro para obras na Igreja, as excursões, muitas vezes que se limitavam a ir-se a pé até ao Furadouro, tudo isso para mostrar como se vivia realmente. Sem esquecer o tema do património, em especial da Via Antiga de Mosteirô que servia para o transporte em carros de bois da pedra para a construção, não só na terra de Santa Maria, mas também para alguns dos monumentos do Porto, e com destaque para o tema da Igreja Nova, mandada construir na época do Marquês de Pombal, na mesma altura da reconstrução de Lisboa após o terramoto.

Quais foram as principais dificuldades na execução do livro? Reunir o espólio?

As maiores dificuldades, inicialmente, eram ao nível das fontes, por vezes desconhecidas. Fui recolhendo informação quer da parte histórica quer da parte que dizia respeito às pessoas. Tive duas ajudas que considero inestimáveis. Em primeiro lugar de um colega da escola que permaneceu em Mosteirô, o Augusto Familiar, que conhece toda agente, se lembra de tudo e procurava o que fosse necessário, sempre que eu precisava de ajuda para datar acontecimentos ou encontrar certos nomes. Em segundo lugar, de pessoas que apoiaram no acesso a fontes, como foi o caso de Magdalena dos Santos, descendente de gente de Mosteirô.

Histórias e personagens marcantes

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Que história mais o marcou? Porquê?

A história que mais me marcou é talvez a mais recente na sua descoberta. Ao procurar, no arquivo da Torre do Tombo, uma pessoa que, no século XVIII, era dono da capela de Nossa Senhora do Ermo, de nome Salvador de Carvalho, deparei com uma série de oficiais do Exército aquartelados na Vila da Feira, que viviam precisamente no Lugar da Murtosa, em redor da dita capela, facto que já tinha sido varrido da memória coletiva. Acontece que um deles, o Capitão Manuel da Silva Grilo, residente em frente à dita capela, na Casa do Ratão, era dono de escravos e de escravas, facto que escandalizou muita gente da terra quando publiquei a informação. Ao desenvolver esse tema, fui encontrar as ligações da terra aos Templários, com a descoberta de um professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira que era precisamente o neto do referido capitão, e com a descoberta que uma parte das terras de Proselha, o lugar onde se encontra a Igreja Nova, pertenciam à Ordem de Cristo. Ainda este ano foi encontrada junto à Igreja uma pedra com uma inscrição de 1619, um marco das terras da Ordem de Cristo.

E que personagem mais o marcou. Porquê?

Foi certamente a do General Francisco Maria de Sousa Brandão, também do Lugar da Murtosa. Foi um dos personagens marcantes do século XIX que, aos 16 anos de idade, se dirigiu ao Porto para se alistar para combater pela causa dos Liberais, tendo sido ferido em combate. No fim da contenda foi estudar para Paris, na Escola de Pontes e Estradas, onde se tornou um engenheiro distinto. Em Paris, assistiu à Revolução de 1848, facto que o impressionou e o levou a abraçar a causa dos trabalhadores. Regressado a Portugal, fundou o Centro para o Melhoramento das Classes Laboriosas, fundou o primeiro sindicato, o dos operários tipógrafos de Lisboa, e foi um dos fundadores do Partido Republicano. Para além de deputado pela Vila da Feira, foi sobretudo o grande impulsionador dos caminhos de ferro portugueses, tendo pessoalmente desenvolvido o traçado de uma grande parte das linhas. Curiosamente, em vários sítios, Sousa Brandão aparecia como tendo nascido na Murtosa, em Aveiro, facto que procurei corrigir enviando para essas fontes o registo de nascimento do general, em Murtosa, paróquia de Santo André de Mosteirô.

Uma das personagens de ‘Mosteirô, uma aldeia e muitas histórias’ foi correspondente do Correio da Feira, Manuel do Lizura. Pode ‘abrir um pouco o livro’ sobre quem foi Manuel do Lizura?

Era uma das pessoas mais conhecidas em toda a freguesia. Em primeiro lugar, porque era uma pessoa com cultura, ensaiador de peças de teatro e entremeses na aldeia, para além de correspondente do “Correio da Feira”, com conhecimentos bastante acima da média. Tinha como principal atividade a de canastreiro, ou cesteiro, uma vez que, por tradição de família, se dedicava com o irmão Américo ao fabrico de cestas e canastras, para além de outros utensílios feitos de vime, na altura muito procurados. Além disso, foi com ele que muitas das crianças da terra aprenderam as primeiras letras, uma vez que naquela época não havia infantários nem pré-Primário. A somar a todas essas atividades, ainda se dedicava à criação de canários, possuindo seguramente uma das maiores coleções alguma vez vista.

Que principais recordações guarda de Mosteirô?

As da infância, das brincadeiras, dos colegas da escola primária, de andar à procura de ninhos ou aos morangos junto aos ribeiros, mas também das dificuldades da época, da pobreza, de andar descalço em qualquer época do ano. Muito marcante mesmo, eram os serões à lareira, onde se contavam histórias na tradição oral portuguesa, algumas arrepiantes para crianças como as de lobisomens. Mas também recordações do convívio com os adultos quando, aos fins de semana, ia trabalhar para a barbearia do meu tio Manuel da Ti Linda e escutava as histórias dos mais velhos, onde reinava sempre a boa disposição. A adolescência já a vivi no Porto, onde trabalhei e estudei até ir para França, e os laços com os amigos da terra foram-se desvanecendo.

Como vê Mosteirô na actualidade?

Naturalmente, muito diferente. Cresceu imenso, a melhoria das condições de vida da população é patente e só não vê quem não quer. Às vezes, quando oiço certa gente a nível nacional, fico revoltado por ouvir dizer que se vive pior que há 60 anos em Portugal.

Já está a escrever um novo livro? Qual a temática?

Tenho outro livro já escrito, mas não sobre o mesmo tema. É um romance com o título “Uma Mulher do nosso Tempo” que trata das relações amorosas de um agente do SIS com uma muçulmana da Jordânia. E mais não digo.

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Foto de 1955, em Agoncida, da esquerda para a direita: Arnaldo Santos, Acácio Gomes, Valter Gomes, Deolinda Correia, Cândido Andrade e Waldemar Santos

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Lançamento do livro

O livro “Mosteirô, um aldeia e muitas histórias” vai ser lançado no próximo dia 9 de Novembro, pelas 17h30, no Salão Paroquial, junto à Igreja Matriz de Mosteirô. Será apresentado por Jorge de Andrade e Andreia de Sousa Martins.

A publicação de“Mosteirô, um aldeia e muitas histórias”  tem a chancela da editora “ExLibris”, do grupo editorial “Sítio do Livro”.

Este livro é fruto de um trabalho de pesquisa que durou mais de 10 anos e do apoio de muitos dos nossos conterrâneos que contribuíram com centenas de fotos e muita informação que nos ajudou a compreender melhor a nossa terra.

Teve igualmente o apoio de muita gente que, não sendo natural de Mosteirô, nos ajudou no trabalho de recolha de elementos e de informação.

Finalmente, a sua publicação só foi possível graças ao empenho e dedicação do Comendador Cândido Correia de Andrade que patrocinou integralmente esta primeira edição.

A todos muito obrigado

Acácio Gomes

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As Parteiras de Mosteirô

Até aos tempos mais recentes, ainda durante a década de 1960, a maioria das crianças nasciam na casa dos seus pais, sem assistência médica mas com a preciosa ajuda de pessoas cuja sabedoria lhes advinha da própria prática. Sem grandes condições, muitos eram os que morriam logo à nascença ou durante os primeiros anos de vida, facto que já vinha de longe, de muitas décadas e séculos anteriores. Para se ter uma ideia, em 1960, em Portugal, a taxa de mortalidade infantil era de 77,5 por cada mil nascimentos. 50 anos depois, em 2010, o nosso País registava a mais baixa taxa de mortalidade infantil na União Europeia, com apenas 2,5 mortes por cada mil nascimentos.

Naquela época, havia um conjunto de mulheres de Mosteirô que, ao longo dos anos e das décadas, viram e ajudaram a nascer uma grande parte dos nossos conterrâneos. Destaco aqui as senhoras Florinda Correia de Bastos, Rosa Ferreira de Jesus e Irene Ferreira Soares.