Os habitantes de Mosteirô são uma grande família

O Fazedor de Armenhas: não são histórias de reis, mas são histórias de homens e mulheres simples, de lavradores, ao longo de cinco séculos

Apresentação de Ana Andreia de Bastos

“Boa tarde a todos: Sr. Presidente da Câmara José Emídio, Padre Zé Carlos, boa tarde a todos os familiares e amigos e obrigada pela vossa presença.

Quero começar por agradecer ao Acácio o convite, que muito me lisonjeia e principalmente quero agradecer-lhe o privilégio de poder transmitir aos meus filhos a herança da história dos nossos antepassados, das nossas raízes.

Não são histórias de reis, são histórias de homens e mulheres simples, de lavradores, são histórias muito especiais para mim, porque são sobre a minha família!

Este livro é uma oportunidade de revisitação e encontro com o passado, com os valores e vivências de várias gerações. É um livro que nos transporta para um passado longínquo e tão diferente dos dias de hoje e que apesar de relatar um contexto distante me deixa saudade de uma época que não vivi.

Deolinda e Benjamim com os filhos (falta o Manuel que estava em Cabo Verde)

Os acontecimentos históricos cruzam-se com a história da família

Antes de entrar em considerações mais pessoais acerca do «Fazedor de armenhas», quero sublinhar a forma interessante como o autor cruza os acontecimentos históricos mais relevantes, tais como as pestes e invasões francesas, entre outros, com a história da família nas sucessivas gerações. O que nos ajuda a ter um panorama completo e a contextualização histórica imprescindível para a compreensão das histórias.   

Entre muitos pensamentos que se afloravam durante a leitura havia um pensamento que esteve sempre presente e foi o facto de concluir que em Mosteirô somos todos primos uns dos outros. O livro começa com a história de Sebastião Alves a quem se sucedem muitos descendentes de sobrenome Silva, Pereira, Santos, Correia, Andrade, Nicolau, entre outros. Como eram poucos os habitantes da aldeia através do casamento criavam laços entre si. O que nos permite concluir que os habitantes de Mosteirô são uma grande família num grau mais ou menos próximo, somos todos parentes uns dos outros.

Albert Camus diz: «Cada homem tem que descobrir a sua casa» sendo que casa não é no sentido literal da palavra, querendo dizer que cada um de nós deve descobrir-se a si próprio, deve fazer o caminho de encontro com o seu passado e presente. E as histórias relatadas neste livro sobre as gerações passadas são como um encontro com o passado que se faz sentir presente.

José Tolentino de Mendonça acrescenta que «Nós somos a nossa casa.» E neste processo de descoberta o livro tornou-se valioso, porque fala sobre os valores e as formas de vida dos meus antepassados, aproximando-me de uma época distante.

A igreja imponente de Mosteirô

Os campos, a terra e a água

Os campos, as sementeiras, as gerações de lavradores dedicados à terra, ao sustento e proveito que dela tiravam. As casas que habilmente construíram, de acordo com as necessidades e o agregado familiar, as armenhas…, são histórias de uma simplicidade genuína e manifesta do estilo de vida da época. São o nosso património, a nossa herança, que nunca devemos esquecer e assim saberemos sempre onde é a nossa casa.

O livro também nos ajuda a perceber e a construir a nossa casa, nele encontramos as pedras e fundações que estão na base da construção de cada um de nós.

Muitas das histórias relatadas no livro fazem-me lembrar o meu avô Germano. Os relatos dos serões invernosos na casa da avó Linda fazem-me lembrar o meu avô à lareira.

Compreendi melhor o valor e o significado de campo, de terra e de água. Compreendi melhor o significado que o meu avó atribuía ao campo que herdou em Agoncida e ao facto de nunca o deixar ao abandono. Compreendi melhor o facto de fazer questão de o cultivar e vindimar.

Mesmo quando as forças eram poucas ele insistia no valor das vinhas e chamava os netos para o ajudar. Foram dias que os primos nunca mais esquecerão.

O valor da terra e da água, o valor do trabalho e da palavra são ensinamentos que quero perpetuar através dos meus filhos, são a melhor herança dos meus antepassados. São os ensinamentos que os meus avós herdaram e que passaram de geração em geração, como tão bem relata este livro.

Gustav Jung escreveu que «O importante não é ser perfeito, é ser inteiro.» E conhecer as minhas, as nossas raízes tornou-me mais consciente, mais inteira.

Apresentação do livro nos Claustros do Convento dos Lóios

As nossas raízes são a nossa casa

E a nossa casa é como uma raiz, que de forma orgânica vai crescendo em profundidade na terra e alimentando-se da água. A terra é a nossa família e a água são os nossos afectos.

E a história da minha família, narrada neste livro é como uma raiz profunda de uma árvore que nasceu e cresceu em Mosteirô e que continua viva dispersando sementes pelo mundo inteiro.

21 de Maio, de 2021

Vida e obra de um homem de bem

Texto de Acácio Gomes

Não chores por mim Venezuela. A vida continua para os que avançam na sua luta do dia-a-dia.

Cândido Correia de Andrade é, sem qualquer dúvida, um dos nomes grandes da nossa terra e de todo o concelho de Santa Maria da Feira. Andou pelos quatro cantos do Mundo mas continuou com um imenso apego à aldeia que o viu nascer, aos seus costumes, às suas tradições e à sua culinária tradicional.

Quando saiu de Portugal, Mosteirô era então uma aldeia característica do interior de um País atrasado, agrícola e com uma economia de subsistência. Quem quisesse mais qualquer coisa, uma vida mais digna, tinha forçosamente de emigrar para terras mais ou menos longínquas.

Ao nascer a 21 de Setembro de 1950, aqueles que escolhiam o caminho da emigração faziam-no sobretudo para o Brasil e a Venezuela. Era filho de Albano Rodrigues de Andrade, do lugar do Monte, e de Maria Adelaide Correia dos Santos, do lugar das Presas. Era neto paterno de Cândido Luís de Andrade, o carteiro de Mosteirô, e de Maria Rodrigues Laranja, e neto materno de Benjamim Correia da Silva, um pedreiro erudito, e de Deolinda dos Santos.

Uma infância despreocupada

Cândido foi morar com os pais para o lugar das Presas na casa dos avós maternos, sem preocupações de maior, brincando na rua, jogando à bola, apenas parando quando ouvia o som de um carro ou de uma motorizada a chegar pela estrada fora. À vezes a bola ia para casa da senhora Caridade ou para o campo da Ti Maria das Presas e lá tinha alguém de pular à procura.

Como conta o colega de infância Augusto Familiar “ele era diferente de nós. Andava sempre mais arranjadinho, já usava sapatos, enquanto nós andávamos todos descalços. E quando nós andávamos todos à bulha uns com os outros, ele não se metia.” Nos tempos da escola, recorda o Augusto, “muitas vezes ele trocava connosco o que trazia para comer, sobretudo sandes de queijo e de marmelada, e nós dávamos-lhe côdeas de broa de milho, que era o que a gente tinha”. “Eu gostava de ir para a casa dos avós dele, no Monte, porque tinha lá uma árvore cheinha de tangerinas que nós apanhávamos e comíamos.”

De qualquer modo, foi uma infância sem grandes preocupações, sempre muito protegido pelos pais, avós e familiares que com ele conviviam. Segundo ele próprio contava, o avô Benjamim tratava-o por Mestre, sempre que o via.

Já na adolescência, e após terminar a escola primária, faria o exame de admissão ao ensino secundário, juntamente com o Augusto, tendo ido frequentar o Colégio Castilho, em S. João da Madeira, no início da década de 1960. Aos sábados e domingos, encontrava-se com os colegas no adro da Igreja. Às vezes, aparecia com uma bicicleta de senhora, pertencente a uma das suas tias, e faziam corridas com a bicicleta para ver quem seria mais rápido. A sua vida continuava sem grandes preocupações, pautada pelas peripécias próprias de uma aldeia de Portugal. Diferentemente de todos os outros, Cândido trajava sempre de forma esmerada e, aos Domingos e dias de festa, envergava fato e gravata, sempre com uma elegância muito pouco comum pelas nossas bandas.

Mosteirô, anos 1960: com a avó Linda, tios e primos

A emigração para a Venezuela

No dia 17 de Agosto de 1967, Cândido Andrade vai-se juntar aos seus pais que viviam em Caracas, na Venezuela. Este grande país da América do Sul era, naquela época, o eldorado que muitos portugueses procuravam, um dos países mais ricos do Mundo, onde os negócios floresciam, havendo trabalho para todos e em que os nossos conterrâneos se sentiam como em casa.

Aí chegado, vai começar por trabalhar como administrativo na companhia aérea de bandeira brasileira, a Varig. Passado algum tempo, deixa a transportadora aérea e ingressa nos quadros das Piscinas Latino-Americanas, empresa formada pelo seu pai, os seus tios Constantino e Domingos e outros sócios da região de Aveiro.

Entretanto, já em terras sul-americanas, Cândido vai casar em Janeiro de 1974, na Igreja da Guadalupe, Urbanização Las Mercedes, em Caracas, com Maria Adília Soares Figueiredo, natural do Lugar do Ferral, da vizinha freguesia de Souto, que viria a falecer em 2010. Deste casamento nasceriam três filhos: José António, Marco Polo e Tomás André.

Um empreendedor exemplar

À medida que a empresa foi crescendo, Cândido Andrade sentiu necessidade de se lançar em novas vertentes do negócio que levariam à expansão da sua actividade. Com a sua tenacidade, iria transformar a empresa num grupo consolidado, através da entrada em novas áreas complementares, em particular no comércio internacional, com importação em larga escala, e com a aposta na substituição de muitos dos produtos importados através do fabrico na Venezuela, diminuindo a sua dependência externa, com empresas em Caracas, Guarenas, Higuerote e na Ilha de Margarita.

E foi assim que surgiriam as novas empresas destinadas a satisfazer a procura de novos equipamentos e serviços e de produtos de manutenção, como foi o caso da Equipiscinas e da Andrade Pools, ambas com sede no Estado de Miranda. A Equipiscinas, seria uma empresa relacionada com a importação, compra e venda de equipamentos, acessórios e manutenção de piscinas, serviço de manutenção de equipamentos e a representação na Venezuela de marcas internacionais.

Com o desenvolvimento do turismo na ilha de Margarita, Cândido irá igualmente lançar mais uma empresa, a Andrade Pools Margarita, C.A., com sede em Porlamar, cujos serviços abarcam a construção, equipamentos, acessórios e serviços para piscinas, empresas e outros negócios em conformidade com o seu pacto social. A expansão dos seus negócios iria levar à construção de empresas igualmente em Guarenas e Higuerote.

Homem de bem e solidário

Sempre homem solidário, apoiou muitos exilados portugueses que chegavam ou já se encontravam em Caracas enquanto durou o Estado Novo em Portugal e que necessitavam de ajuda para viver ou se integrarem na Comunidade. Acudia a todos quantos dele se abeiravam a pedir ajuda, sendo por isso considerado um esteio entre os residentes portugueses na capital da Venezuela.

Cândido Andrade foi um dos principais impulsionadores da Comunidade Portuguesa da Venezuela, dedicando uma parte importante do seu tempo ao seu serviço. Foi Presidente do Centro Português de Caracas e membro da Direcção do Centro Social Luso-Venezuelano (Turumo – Caracas), da Direção do Clube Desportivo Português, da Direcção da Casa do Porto em Caracas e da Comissão “Amigos das Terras de Santa Maria da Feira em Caracas”.

Deu igualmente um valioso contributo para a promoção da cultura portuguesa por terras venezuelanas através da organização de recitais e de actuações de muitos artistas portugueses que convidava com regularidade, como foi o caso de Paulo de Carvalho e de tantos outros.

Essa sua perseverança em prol dos valores portugueses valer-lhe-ia em 1996 a distinção por parte do Governo Português com a Comenda de Mérito pelo trabalho realizado em favor dos emigrantes e dos seus descendentes residentes na Venezuela.

Pela sua contribuição como grande empreendedor para o desenvolvimento da Venezuela, receberia igualmente o título de Comendador por parte do Governo da época daquele grande país sul-americano.

Caracas, Venezuela: Recebendo a Comenda da Ordem de Mérito das mãos do secretário de Estado, José Lello

O regresso a Portugal

Quando Cândido Andrade foi para a Venezuela nos idos de 1960, Portugal era ainda um país atrasado e com um regime retrógrado, enquanto a Venezuela era uma Democracia e um dos países mais ricos do Mundo. Ao regressar a Portugal em 2017, a situação tinha-se invertido, o nosso País já tinha deixado para trás o seu atraso ancestral enquanto a Venezuela enveredava por um caminho de ruína.

Ao deixar a sua segunda Pátria, a Venezuela, em 2017, aos 67 anos de idade, Cândido fê-lo por necessidade premente. Em Caracas foi-lhe diagnosticada uma doença oncológica e os médicos recomendaram vivamente que fosse “de imediato para a Europa”. Acrescentariam ainda que se ficasse na Venezuela seria impossível o seu tratamento, por falta de medicamentos, e o seu tempo de vida seria extremamente curto.

O caos tinha-se instalado naquele país sul-americano, onde tinha trabalhado durante mais de 50 anos, e a ruína tinha levado à escassez de tudo o que assegurava as necessidades mais básicas da população.

Já em Portugal, Cândido daria um apoio valioso à cultura com a oferta de um órgão de qualidade ímpar à Igreja de Mosteirô, bem como à publicação de um livro sobre a sua terra natal que ele sempre tanto estimava e ainda arranjou forças para promover o Gabinete de Apoio ao Emigrante em Terras de Santa Maria da Feira.

Após o regresso, Cândido instalou-se em Mosteirô, na Quinta do Bicho, junto com a sua companheira Olívia Maria de Ferreira que o iria acompanhar e assistir até aos seus derradeiros momentos de vida.

Como testemunha o filho mais velho, José António Correia, “algo que esteve sempre presente em todas as suas iniciativas foi o espírito de apego a Portugal, às suas gentes e às suas tradições”.

Mosteirô, Verão de 2018: Com familiares na Quinta do Bicho

A cerimónia de despedida

A cerimónia e a homenagem de despedida de Cândido Correia de Andrade foi algo naturalmente pesaroso, dadas as circunstâncias em que se desenrolou. O tempo caprichoso, chuvoso e choroso parecia acompanhar a tristeza que se vislumbrava nos rostos de todos quantos fizeram questão de marcar presença no adeus. E foram muitos, ensopados pela chuva que apanharam, entre familiares, amigos e conterrâneos. As máscaras perturbavam o extravasar das emoções de cada um e impediam, por vezes, o seu reconhecimento.

Junto do altar-mor encontrava-se a “guarda de honra” de que faziam parte os seus filhos José António, Tomás André, os seus netos e noras e a companheira senhora Olívia, e no centro a urna com o corpo de Cândido Andrade cujo rosto mostrava a mesma serenidade que sempre lhe foi habitual. No último adeus, os participantes não podiam mostrar o seu rosto mas, certamente, Cândido reconhecê-los-ia a todos.

Cândido Correia de Andrade foi um cidadão do Mundo, um homem bom e um filantropo. Era por todos considerado um homem sério, honesto, vertical, frontal, directo, solidário e amigo. Nunca o ouvi gabar-se do que quer que fosse ou contar façanhas. Na sua vida pessoal e profissional, cultivou relações amistosas durante anos e anos, não só em Portugal, mas também em Espanha, México, Estados Unidos, China, Brasil, Colômbia e, naturalmente, Venezuela.

O último Adeus

Durante a cerimónia de Adeus foi lida a Mensagem do seu filho Marco Polo, um texto sentido, que emocionou todos os presentes.

Entre outras coisas, diz Marco Polo Correia:

“O meu pai, Cândido Andrade, era um homem sério, honesto, vertical, frontal, directo, solidário e amigável. Ele sempre disse: “Entre dois pontos, a coisa mais próxima e mais directa é a linha recta”, que muitas vezes não gostava ou era muito difícil, mas o meu pai era, não aparentava ser.

Cândido Andrade, quem o conhecia bem, sabe perfeitamente que apreciava coisas simples e práticas. Ele venerava a sua terra, Mosteirô, era uma devoção formidável ao seu povo, às suas ruas, aos seus cantos. Algo muito particular deve existir lá, naquela pequena aldeia, algo deve acontecer em cada uma das suas casas, porque certamente deu origem a pessoas muito particulares, muito interessantes, pessoas com aspirações e realizações. É uma aldeia humilde e simples, com pessoas notáveis.

Cândido Andrade não era engenheiro, médico, doutor, advogado, psicólogo, arquitecto, era tudo isso e muito mais, o meu pai era um Senhor, e essa profissão não é aprendida em nenhuma universidade, aprende-se em casa e na vida e custa muito mais do que qualquer outra. Viver de forma consistente, viver de forma clara e transparente, viver de forma coerente entre o que é dito e o que é feito custa muito… E não é para todos.

O meu pai nunca soube o que era umas férias nem esperou pela reforma, trabalhou toda a sua vida, entre os seus mandamentos pessoais, repetindo sempre: “Não se preocupe em trabalhar, preocupa-te em NÃO trabalhar.” Cândido Andrade na sua vida profissional, não só via dinheiro, via amigos e relacionamentos, cultivava essas relações durante anos e anos. Amigos da Espanha, México, Estados Unidos, China, Brasil, Colombia, Venezuela, etc.

Todos tinham grande respeito e admiração por ele, era um homem que transmitia confiança, um homem de palavra e cuja reputação não era traficada por tostões. As suas viagens eram para o trabalho, quando ia para Portugal em Dezembro era só para estar perto da família, o descanso do guerreiro, era um homem de pouco para comer, mas gostava de ver o resto a comer. Adorava Farinha de Pau, Roupa Velha e refeições que o levassem às suas memórias de infância.

Cândido não era um homem de falsa modéstia, repetia, uma e outra vez (porque era insistente e até ser feito da maneira certa não parava) que: “Não sabe quem pensa que sabe, sabe quem acha que precisa de aprender”, espero ter aprendido as linhas básicas de acção, o meu pai era um artesão da perfeição.

Homens como o meu pai, com todo o respeito pelos presentes, são poucos. Para ele:

– “A nossa verdade só foi uma metade, a outra metade nem sempre será alcançada”

– “Quando pensa que cumpriu a sua obrigação, lembre-se que só o fez a meio caminho”

– “Nunca se esforçará o suficiente para cumprir a sua obrigação”

– “Nunca se faz a coisa certa, só o que se pode”

– “Deixe no seu trabalho o que é do seu trabalho. Deixe em casa o que é da sua casa, portanto: os problemas do trabalho, pertencem-me, deixe-os aqui. Os problemas da sua casa, eles não me pertencem, deixe-os lá.

Era assim que Cândido Andrade era.”

Promover a Via Antiga de Mosteirô

28 anos depois da classificação como “marco histórico-cultural” e como Monumento pelo IGESPAR, é urgente tomar medidas para promover a Via Antiga de Mosteirô, não deixando ao abandono e dignificando um património que é de todos

É urgente a valorização e promoção da Via Antiga de Mosteirô e dos Caminhos de Santiago que por aqui passavam. Trata-se de uma iniciativa que deverá mobilizar a Junta de Freguesia, mas também a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira e o povo da Freguesia que, esse, muitas vezes, não tem noção do valor que representa o troço da Via Antiga de Mosteirô ainda existente no Lugar da Murtosa.

Da última vez que por lá passamos, não há muito tempo, a calçada encontrava-se em estado de deterioração, a terra a cobrir a estrada histórica e as ervas daninhas a invadirem o local. Há 27 anos atrás estivemos lá com uma repórter fotográfica e encontramos duas situações distintas: a Via Antiga de Mosteirô encontrava-se em perfeito estado de conservação, enquanto a Capela da Murtosa estava em estado adiantado de degradação.

Hoje, assistimos ao inverso. Enquanto a estrada real que ligava Mosteirô ao Castelo da Feira se encontra em processo de degradação já a Capela de Nossa Senhora do Carmo sofreu melhoramentos consideráveis que a recuperaram da destruição e a embelezaram.

É óbvio que não se pode deixar destruir um Património Histórico, de um valor inestimável, pois ninguém pensa que os romanos voltem a Mosteirô para construir a calçada ou que o Marquês de Pombal se lembre de a reconstruir e reparar, como foi o caso no século XVIII. Mas é possível dar de novo brilho a uma estrada secular.

Murtosa - antiga estrada para o Porto medieval

Os alertas para a situação

Para além do Decreto publicado em Diário da República no dia 1 de Junho de 1992, dez anos depois as autoridades foram informadas e alertadas para a urgência de preservar um património histórico e um bem comum.

Tal foi o caso de Horácio de Sá que nos diz que em Julho de 2002 apresentou “em Reunião de Câmara um documento no qual solicitava a limpeza e restauro da via, a sua sinalização contendo a descrição Histórica daquela via protegida. Não sei se tal aconteceu, bem como a sensibilização dos moradores daquele troço para a sua não deterioração, se tal não foi realizado, urge fazer algo para que esta via do Século XVIII possa merecer a classificação que lhe foi atribuída.”

E nove anos mais tarde, em 30 de Junho de 2011, a Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira deliberou uma recomendação em que alertava para a defesa do património da Via Antiga de Mosteirô.

Todos sabemos que o dinheiro não abunda e que muitas vezes as prioridades são outras. Mas a importância do património às vezes poderá não necessitar de grandes verbas na sua preservação, dependendo da boa vontade da junta e do Município em colaboração com o povo da Murtosa, um dos lugares mais emblemáticos da nossa Freguesia.

O tempo foi passando e a deterioração continua

As fotos publicadas em 1993 mostravam que a Via Antiga tinha resistido a séculos, a intempéries, suportou o peso dos carros de bois que por ali passavam carregados de pedra que vinha das pedreiras, e encontrava-se em excelentes condições. Quer dizer, resistiu mais em 3 séculos do que em 3 décadas.

Não são precisas obras de recuperação monumentais, a menos que se queira destruir. É preciso manutenção, limpeza e informação do povo, de modo a fazer compreender que o nosso património comum não deve ser destruído nem maltratado, como às vezes vemos por esse País fora.

Mas é urgente que a Junta de freguesia (de Souto e Mosteirô) e a Câmara Municipal se ponham de acordo para defender e promover um património que é de todos. Não é preciso muito, pelo menos, que se mande lá os cantoneiros limpar aquele troço com regularidade e se coloquem placas de identificação e de informação com um descritivo mínimo sobre a obra que ali se encontra.

KODAK Digital Still Camera

Tanto quanto sabemos, o pelouro do património da Câmara Municipal tem vindo a desenvolver um trabalho meritório de catalogar e identificar os troços dos Caminhos de Santiago existentes no concelho. Acontece que a Via Antiga de Mosteirô fazia parte de um dos Caminhos de Santiago, tal como a nossa Igreja Matriz que possui um dos maiores conjuntos de “Conchas de Santiago”.

Há uns 10 meses atrás o próprio Presidente da Junta dizia-nos que estava a ser estudada a forma de promover a pertença das terras de Mosteirô aos Templários e à Ordem de Cristo, através da identificação do Marco que se encontra frente à Igreja e da sua promoção com destaque e informação, como se faz aliás noutras freguesias onde ainda existem marcos da Ordem dos Templários.

Uma estrada de trabalho

Durante os séculos XIX e XX esta foi a estrada dos que trabalhavam nas fábricas de calçado, de chapéus, de vestuário e as bem conhecidas Molaflex, Oliva, Empresa, as quais empregavam centenas de  trabalhadores não só de Mosteirô mas de toda a região.

A partir das seis horas da manhã começava a “procissão” de gente a caminho do trabalho. Iam a pé ou de bicicleta, calcorreando aquelas pedras pela colina acima, passavam a Pedreira da Etiópia e o Aguincheiro e lá chegavam ao alto de Casaldelo e de Santo Estêvão. E depois seria aquela descida imensa até à Estação de caminhos de ferro da Linha do Vale Vouga, em S. João da Madeira. Aí era um descanso para as pernas e para as costas. À tarde, depois de as sirenes apitarem para o final do trabalho, lá seguiriam em percurso inverso por aquela estrada acima, que parecia que nunca mais acabava, até ao Alto de Santo Estêvão.

De manhã, muitos levavam a lancheira com o almoço que depois aqueceriam no próprio local de trabalho ou iam a uma tasca da zona onde pediam para aquecer e bebiam um copo ou dois. Outros iriam esperar que as mulheres lhes levassem à cabeça uma cesta com comida ainda quente, com os tachos embrulhados em jornais que mantinham a temperatura da refeição.

Vinham dos lugares das Presas, de Proselha, do Calvário, do Fundo de Mosteirô, do Monte, da Pedra e de outras paragens, embora os de Agoncida seguissem pela estrada nacional até à garagem do senhor Gil e depois iriam por aí acima juntar-se aos outros que tinham seguido pela estrada da Murtosa, a Via Antiga de Mosteirô.

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Uma estrada de peregrinos e cavaleiros

A Via Antiga de Mosteirô é uma estrada secular, carregada de História, que ligava o Castelo da Vila da Feira a Mosteirô e daí continuava para Santo Estêvão, Casaldelo, Couto de Cucujães, Santiago de Riba Ul, Ossas e Carregosa, seguindo para as terras do Vouga. Na direcção de S. João da Madeira juntava-se no lugar do Aguincheiro ao caminho que vinha do alto de Agoncida.

A feira do Castelo tornou-se famosa em toda a Idade Média e ali acorriam numerosos mercadores e gente do povo e, durante séculos, a Via Antiga de Mosteirô era o trajecto natural por onde passavam populares com origem nessas terras distantes, mas também militares e cavaleiros oriundos de outras paragens ainda mais longínquas e os peregrinos que se dirigiam ao castelo para depois prosseguirem o seu Caminho de Santiago.

Os peregrinos que por ali passavam tinham 3 lugares onde se podiam recolher e meditar, começando pelas alminhas frente à capela da casa de Sousa Brandão, passando na Capela de Nossa Senhora do Carmo e depois na Igreja Matriz de Mosteirô.

As Alminhas da Murtosa, situadas na Calçada medieval, que datam do final do século XIX, são certamente as mais representativas dessa arte religiosa católica, muito característica do Norte do País e da religiosidade das gentes desta terra. Existe uma inscrição no interior destas Alminhas que relembra aos peregrinos o dever para com as almas do Purgatório: Ó VÓS QUE IDES PASSANDO, LEMBRAI-VOS DE NÓS QUE ESTAMOS PENANDO.

Além de peregrinos, havia igualmente os soldados e cavaleiros. Não é por acaso que durante o século XVII, XVIII e XIX vamos encontrar um grande número de militares de alta patente, aquartelados na Vila da Feira ou participando em acções de combate por esse País fora, que escolheram o Lugar da Murtosa como seu local de residência. Tanto mais, que dali até ao castelo, uma ida a cavalo se tornava num mero passeio.

Assim, foram muitos ao longo de séculos, para além do Capitão Carlos Correia de Sousa, o senhor da Casa da Murtosa, que em documento emitido por D. João III (1455 – 1495) lhe é concedido o Brasão de Armas dos Correias, que ainda se pode ver no cimo da capela da Quinta Sousa Brandão, e referido como “Capitão de auxiliares da Vila da Feira, assistente e morador na sua Quinta da Murtosa do Termo da Vila da Feira, Terra de Santa Maria, o Brasão de armas dos Correias, por ser descendente de geração de linhagem dos Correias que destes reinos são fidalgos de linhagem e cota de armas e que de direito as ditas armas lhe pertencem”.

Mais tarde, durante o século seguinte vamos encontrar o Capitão Manuel Gomes, da Casa dos Coelhos, actual Casa do Ratão, construída em 1677, e o seu cunhado o Capitão Manuel da Silva Grilo. No virar do século, encontramos muitos outros militares de alta patente, todos a viver no Lugar da Murtosa, como o Alferes Estêvão Gomes Correia, descendente, do Capitão Carlos Correia de Sousa, e o Capitão Manuel Marques Ferreira, de Fornos que veio casar a Mosteirô e se tornou num dos donos da Capela da Murtosa.

Até à morte do Major Salvador de Carvalho Assis, da Casa do Ratão, em 1867, na praia do Furadouro, vamos encontrar um rol de militares de alta patente todos moradores no Lugar da Murtosa, tanto da Casa dos Coelhos como da Casa Sousa Brandão.

Naturalmente, a figura mais importante de todas estas será sem dúvida a do próprio General Sousa Brandão, cujo nome se inscreve na Calçada, logo no início que ainda mantém a traça antiga, frente à Capela da Murtosa.

IGESPAR classifica como um marco histórico-cultural

Na década de 1990, o IGESPAR (Instituto de Gestão do Património) fez um levantamento de alguns troços da Via Antiga de Mosteirô e considerou que:

“A Via Antiga de Mosteirô constituía o itinerário principal para uma série de actividades industriais da zona, ao longo do tempo. Por esta estada passavam os carreteiros que abasteciam a cidade do Porto com a pedra das pedreiras da região, e se faziam os transporte necessários à importante actividade das fábricas de papel do Concelho de Santa Maria da Feira. O troço classificado, com c. 300 m de comprimento por 3 metros de largura média, é composto por blocos calcários, de dimensões variadas e configuração irregular, incluindo alguns metros alcatroados. Da via fazia parte uma ponte no lugar das Carregueiras, estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira. Embora a sua cronologia não seja identificável com rigor, a maior parte do troço visível será obra lançada no século XVIII, sobre uma estrada antiga, possivelmente de origem romana. Por aqui terão passado, inclusivamente, as pedras que serviram para a construção de monumentos como a Sé do Porto, vindas das pedreiras de Mosteirô.”

Ponte romana

Em 1 de Junho de 1992 foi publicado em Diário da República o Decreto que visa preservar a Via Antiga de Mosteirô como património público, fazendo parte de um pacote legislativo mandado publicar pelo então Presidente da República, Mário Soares. (Decreto nº 26-A/92, DR, 1ª Série-B, nº 126, de 01 junho 1992)

O Relatório do Igespar considera tratar-se de uma “Via pública estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira, com pavimento em blocos calcários. Foi durante longo tempo, o circuito principal para o transporte de materiais diversos e necessários às actividades que se desenvolviam no concelho (Fábrica de papel, carreteiros que abasteciam a cidade do Porto com as pedras das pedreiras da região). Passa defronte da casa antiga de São Jorge (v. PT010109270010) e da Casa da Murtosa e por entre casario e algumas parcelas de campo. Fazia parte da via uma ponte no lugar das Carregueiras, estabelecendo ligação com a freguesia de Fornos e o Castelo da Feira.”

Quanto à sua utilização, diz o Igespar que a Utilização Actual deve ser considerada de carácter “Cultural e recreativa: marco histórico-cultural”. E quanto à cronologia considera que é do “Século 18 – período provável da construção da via sobre uma estrada antiga, provavelmente de origem romana; no século 20 – parte do percurso foi alcatroado.”

Recuperar e Promover um marco histórico-cultural

É fundamental que as autoridades coloquem de lado quaisquer disputas partidárias quando se trata de um património de um valor inestimável que não abunda. Fundamentalmente são necessárias cinco acções que se completam e se complementam, a saber:

  1. Recuperação e manutenção que passa pela limpeza regular do troço que se encontra praticamente intacto, promovendo acessos em pedra às casas e não em cimento ou em relva;
  2. Informação pedagógica à população e em particular ao povo do lugar sobre a importância histórica e patrimonial da Via Antiga e dos Caminhos de Santiago e da sua preservação;
  3. Sinalética adequada junto à Igreja indicando a direcção e no próprio local com informação sobre o troço e a sua importância e descrição histórica da via protegida;
  4. Apoio a iniciativas como as que já têm sido levadas a cabo na Freguesia de passeios a pé com informação sobre as calçadas de Mosteirô, as pedreiras, a estrada romana que por ali passava e o seu itinerário;
  5. Divulgação através dos órgãos de comunicação regional e nacional.

Estamos disponíveis para ajudar no que estiver ao nosso alcance.

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O caso da morte de Bárbara

1942: o senhor Silva, o Regedor de Mosteirô, foi chamado de urgência a casa da Mãe Velha para verificar a ocorrência e tomar as medidas necessárias naquelas circunstâncias

Oh Ti Maria Joana, um dia venho aqui deitar-me ao seu poço! – costumava dizer Bárbara, sempre que passava junto à casa da Mãe Velha, Maria Joana Pereira dos Santos, no Lugar de Agoncida.

– Não sejas maluca, rapariga! Vai deitar-te ao poço do Clemente. – Costumava ser a resposta da Ti Maria Joana.

Bárbara morava no sítio do Jardim numa casa ao fundo do caminho que descia desde a casa da Vassoureira até à casa do Ti Isaac e perto do caminho à esquerda que seguia para o alto da Pedreira de Agoncida, junto às terras do Valente.

Quando escolhia seguir por este último caminho, também costumava interpelar o Ti Anselmo do Bento, quando passava frente à sua casa:

– Oh Ti Anselmo, um dia venho aqui deitar-me às pedreiras!
– Deixa-te de manias, rapariga! – Respondia-lhe este.

Era uma obsessão que perseguia Bárbara. Desde a escola primária mista de Mosteirô, que frequentou na década de 1910 até à terceira classe, que ela sempre falava em desafiar as leis da gravidade, embora ninguém a levasse muito a sério.

Esta ideia fixa, tornou-se numa perturbação que a assaltava de vez em quando e que a perseguiu até ao fim da vida. A obsessão de Bárbara seria de carácter patológico e era baseada num sentimento de ser coagida a fazer uma coisa a qual, nos seus momentos de lucidez, poderia considerar que não fazia sentido.

Era uma perturbação do domínio da psiquiatria a qual, naqueles tempos, em termos populares, se achava tratar-se de “uma maluquice”. Houve uma dada altura em que os familiares consideraram a hipótese de “a levar à bruxa”, coisa que lhe aumentou ainda mais o pensamento e o ímpeto impulsivo de se atirar de um sítio alto, pensamento que a perseguia e “não lhe saía da cabeça”, segundo contavam os seus familiares mais próximos.

O fatídico 9 de Fevereiro de 1942

Para ir de sua casa até ao Rio do Bicho, onde as mulheres costumavam ir lavar a roupa, o caminho mais rápido era passar pelas terras da Mãe Velha, e que ia desde o mato junto à sua casa, no Sítio do Jardim, até ao caminho da Quinta do Bicho e à Estrada Nacional de Ovar. Quando seguia esse trajecto, Bárbara passava por detrás da Casa da Eira e continuava o caminho que passava forçosamente frente à casa da Ti Maria Joana e ao respectivo poço.

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Casa da Eira da Mãe Velha: o caminho percorrido por Bárbara passava por trás

Trata-se de um poço alto, de uns 15 metros, que no Inverno tem água até dois metros do topo. No Verão, a água desce substancialmente. O poço, construído em pedra de baixo até cima, é abastecido por uma mina com mais de cem metros de comprimento, a qual se prolonga pelas terras da família Andrade e Silva.

Frente à cozinha da Mãe Velha, existe um degrau e uma laje de cerca de um metro de altura, com uma roldana onde se encontra encaixada a corda que permite puxar o balde de água.

Apesar da frequência com que Bárbara abordava o assunto de se lançar a um poço ou do alto da pedreira de Agoncida, já ninguém acreditava realmente que um dia ela tentasse concretizar a sua obsessão.

Infelizmente, no dia 9 de Fevereiro de 1942, aos 41 anos de idade, num momento em que não havia ninguém na casa da Mãe Velha, o impulso para se atirar ao poço levou a melhor e Bárbara consumaria o seu propósito antigo, morrendo afogada num poço que, naquela altura do ano, se encontrava quase cheio.

Ninguém a tinha visto passar e não se sabe quanto tempo passou desde o momento em que ela se terá lançado à água. Só mais tarde, ao anoitecer, uma neta da Ti Maria Joana, quando teve necessidade de ir buscar água ao poço, ficou estarrecida ao ver um corpo a boiar.

Os gritos da neta da Mãe Velha alertaram de imediato toda a vizinhança, até que se começou a concentrar muita gente e uma das pessoas foi a correr chamar a irmã de Bárbara, a Virgínia, para saber o que se podia fazer.

Antes da chegada da Virgínia já um dos rapazes ali presentes foi mandado a casa do senhor Silva, o Regedor de Mosteirô, para vir rapidamente registar a ocorrência e tomar as medidas aconselhadas para tal situação, tanto mais que não se podia mexer no corpo enquanto não chegasse uma autoridade com poderes para tal. Desde meados do século XIX que tal autoridade pertencia ao Regedor da freguesia, nomeado pela administração concelhia.

Com o correr dos minutos começaram a concentrar-se cada vez mais pessoas, muitos curiosos que aparecem sempre nestas circunstâncias, cada qual dando a sua sentença, especulando sobre os motivos.

Eu já tinha avisado mais de uma vez a irmã – disse alguém ao lado da Mariana da Loiça. O que expressava naquele momento o que quase todos pensavam.

A Mãe Velha, que se encontrava naquela altura a pouca distância em casa da filha Palmira, apesar da sua provecta idade, também chegou ao local nesse momento e todos lhe perguntavam o que se devia fazer, uma vez que o poço era dela.

– Vai chamar os rapazes da Barbuda! – disse a Ti Maria Joana para um dos rapazitos ali presentes.

Passado pouco tempo, chegou o Regedor da freguesia o qual, com a ajuda de vários homens que se tinham juntado entretanto, lançou uma corda com um laço largo comque, ao fim de alguns minutos, conseguiram fazer passar pelo corpo de Bárbara e içá-lo com a ajudada da roldana para a beira do poço.

O mulherio começou aos gritos, outras mulheres a rezar uma ladainha, fazendo com que o Regedor tivesse de mandar calar toda a gente. Entretanto, procedeu a uma inspecção rápida do corpo para ver se haveria algum sinal de violência e decidiu tomar outras medidas que incluíam o envio de um dos homens de bicicleta à Vila da Feira para chamar a Guarda e outro para ir chamar o padre da freguesia.

O estigma do nome Bárbara

Com a chegada da GNR algum tempo depois, os ânimos acalmaram-se, tendo os guardas interrogado algumas das testemunhas para saber se se trataria de um assassínio ou de um suicídio. A maioria dos presentes contaria às autoridades que havia muitos anos que Bárbara se encontrava perturbada, ameaçando lançar-se aos poços do lugar ou a tentar voar do alto das pedreiras junto às terras do Valente.

Entretanto, e depois de os guardas terem concluído que se trataria de um suicídio, o padre teve oportunidade de dar sequência aos actos litúrgicos propriamente ditos, e o corpo de Bárbara seria levado numa padiola para a casa da família no Sítio do Jardim.

O funeral realizou-se no dia seguinte e, para além dos familiares, contou com a presença de muita gente da freguesia e de numerosos curiosos vindos das freguesias vizinhas, o que sempre acontece nestes momentos.

Filha de pai pedreiro e de mãe jornaleira, Bárbara tinha nascido no Lugar de Agoncida no dia 5 de Julho do ano de 1900 e seria baptizada no dia 8 do mesmo mês pelo padre Manuel Martins da Silva. Teve como padrinho Manuel José da Costa Laranjeira e como madrinha a sua irmã mais velha Maria Rosa Pereira.

Os seus pais tinham casado na Igreja de Mosteirô no dia 11 de Janeiro de 1888, tendo a irmã mais velha de Bárbara nascido no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1889. Até ao nascimento de Bárbara, onze anos depois, ainda iriam nascer mais filhos do casal.

O horror deste caso abalou fortemente toda a freguesia e seria comentado durante muitos anos. A partir daquele fatídico dia 9 de Fevereiro de 1942, o nome de Bárbara tornar-se-ia proscrito em Mosteirô e, durante décadas, ninguém mais o colocaria a uma das suas filhas, lembrando sempre a vida atribulada e a trágica morte de Bárbara da Costa Pereira.

O local onde Bárbara se afogou
Parte do percurso seguido normalmente por Bárbara entre a sua casa e o Rio do Bicho

A Tragédia de 1873 em Mosteirô

10% da população da freguesia morre entre 1872 e 1874, vítima de um vírus que matou milhares de pessoas de Norte a Sul do País

Foi um ano terrível aquele que atingiu a população de Mosteirô em 1873, com a morte generalizada de crianças e das pessoas mais vulneráveis. Os registos não especificam a causa das mortes, mas terá sido um surto de varíola, tifo e disenteria que se abateu sobre a população do Norte do País, começando em Braga, passando por Campanhã e descendo por aí abaixo.

Os mais atingidos foram mais uma vez os mais fracos, as crianças e os idosos. O surto teve o seu início em 1872, ano em que começam a aparecer vários casos, com a morte de 14 pessoas, das quais sete eram crianças, em contraste com o ano anterior de 1871 em que tinham morrido somente 4 pessoas e apenas uma criança em Mosteirô.

O ano de 1873 é dramático, com 29 mortes, das quais 19 eram menores. Nesse ano, o saldo populacional é negativo, com 14 nascimentos e 29 mortes, que corresponderam a 5 por cento da população total daquela época que ultrapassaria as 600 pessoas.

A epidemia atingiu a incidência máxima em apenas 3 meses, entre Setembro e Novembro de 1873, período em que morreram no total 16 menores, a esmagadora maioria com idades inferiores a quatro anos, quase metade dos quais com apenas alguns meses.

Em 1874 a crise abrandou e teve maior impacto entre Fevereiro e Maio, mas no conjunto dos três anos, entre 1872 e 1874, pereceram 61 pessoas, das quais 36 menores, devido essencialmente à epidemia que atingiu a freguesia. Muitas dessas crianças eram recém-nascidos, mas havia igualmente outros já mais crescidos. Era o equivalente a 10% da população.

Comparativamente, a crise de 1873 foi muito mais mortífera do que a de 1815, a qual se tinha produzido em consequência das condições de vida resultantes das Invasões francesas. Com efeito, no período entre 1809 e 1818, em 10 anos pereceram 33 crianças em Mosteirô enquanto num período significativamente inferior, de 1872 a 1874, em menos de 3 anos morreram 36 menores na nossa terra.

O Lugar do Monte foi o que mais sofreu

Nesse ano, o Lugar do Monte foi o mais atingido pela onda de mortes, uma vez que das 29 pessoas falecidas 11 eram deste lugar, seguindo-se o lugar de Mosteirô com 5 óbitos, Agoncida com 4 e Proselha com 3 falecimentos.

Nos três anos em que crise se manifestou, uma grande parte das famílias tiveram a sua parte de sofrimento, com o falecimento prematuro dos seus filhos mas também dos pais e avós. No ano de 1873, tal foi o caso das famílias Silva, com 5 falecimentos, Pereira, Ferreira e Oliveira, mas, no conjunto dos três anos da epidemia, quase todas as famílias seriam atingidas, tanto mais que houve 61 óbitos para uma população que não chegaria aos 610 indivíduos, uma vez que apenas no ano de 1878 Mosteirô atingiria 611 habitantes, de acordo com as estatísticas.

No que diz respeito aos lugares, no ano de 1872 e no ano de 1874 aparece o lugar de Mosteirô em primeiro lugar com 12 falecimentos, seguido do lugar do Monte com 7 e o de Agoncida com 4 óbitos, nem todos relacionados com a crise epidémica que atingiu a freguesia.

Mas, no conjunto dos três anos, o lugar do Monte sofreria uma perda de 18 pessoas, Mosteirô 17 e Agoncida 8. O quadro seguinte mostra os nomes, as famílias e os lugares, relativamente a 1873.

O trágico ano de 1873

A família de Maria Pereira Angelina

Uma das famílias que mais sofreu neste período seria a de Maria Pereira Angelina que iria assistir à morte de quatro familiares no espaço de somente dois anos. Com efeito, conta o padre Manuel Gomes Alberto:

“Aos 13 dias do mês de Agosto de 1872, no Sítio da Saibreira de S. Vicente Pereira, comarca de Ovar, pelas quatro horas da madrugada, morreu desastrosamente, andando a tirar saibro, António José Dias, de idade de 28 anos, lavrador, casado com Maria Pereira Angelina, natural e habitando nesta freguesia, morador no Lugar de Mosteirô, filho legítimo de António José Dias e de Margarida Rosa de Oliveira, deixou filhos e foi sepultado no cemitério público desta freguesia”.

Como uma desgraça nunca vem só, a epidemia do ano seguinte iria atingir em cheio a família de Maria Pereira Angelina, com a morte prematura de duas filhas, Maria de 15 meses e Mariana e 4 anos, que iriam perecer no auge da crise, com um intervalo de apenas 6 dias, respetivamente no dia 10 de Outubro de 1873 e no dia 16 de Outubro do mesmo ano. Não é difícil imaginar os dramas que se viveram nas famílias de Mosteirô com os efeitos desta terrível crise. Aquelas que não sofreram directamente, estavam sempre à espera que a morte lhes batesse à porta para levar um dos seus filhos mais pequenos.

Como se mão bastasse, no ano seguinte seria a vez de a mãe de António José Dias, sogra de Maria Pereira Angelina, de também conhecer o mesmo destino, embora já com uma idade mais avançada. Natural de Milheirós de Poiares, Margarida Rosa de Oliveira, viúva de António José Dias (pai), viria a falecer a 3 de Fevereiro de 1874, menos de quatro meses depois das suas netas, possivelmente vítima das mesmas causas, a epidemia que grassava em toda freguesia.

Maria Pereira Angelina pertencia a uma das famílias mais conhecidas do Lugar de Agoncida, os Coelho Pereira, com ramificações várias que chegam até aos nossos dias. Casou aos 28 anos de idade com António José Dias, de 24 anos, no dia 19 de Janeiro de 1868 na Igreja Paroquial de Mosteirô, na presença de Agostinho Dias de Resende e de António Francisco, como testemunhas.

Era filha de Joaquim Coelho Pereira e de Ana Maria Angelina, lavradores do lugar de Agoncida. O drama perseguia esta família, porquanto já lhe tinha batido à porta aquando do assassinato da filha de Ana Maria da Silva a 27 de Fevereiro de 1857, pelo irmão mais novo de Maria Pereira Angelina, António Coelho, no caso do “Abominável crime da Agoncida”.

1868 - 22 - Casamento António Dias e Maria Pereira Angelina 2

Ir a banhos ao Furadouro e morrer

Apesar de o surto epidémico ser transversal a toda a população, nem todos os atingidos pereceram de forma directa devido ao tifo, à varíola ou à disenteria. Os registos da época raramente se referem às circunstâncias das mortes, caso que só aparece mais desenvolvido nas situações de mortes provocadas por acidentes, facto que acontecia com frequência, ou de mortes violentas provocadas pela guerra ou por qualquer disputa pessoal, como foi o caso, cinco anos antes, da emboscada junto à Ponte dos Três Arcos.

No início da crise, no final de Agosto de 1873, morre o primeiro menino de três anos, António, filho de Manuel Rodrigues Nogueira e de Maria Josefa de Almeida, do Lugar das Presas, possivelmente como consequência da epidemia que iria devastar a freguesia.

Já no final desse mês, a 28 de Agosto, existe uma morte da qual não se conhecem as causas mas conhecem-se as circunstâncias. Trata-se do falecimento do irmão do general Francisco Maria de Sousa Brandão. O caso não aconteceu em Mosteirô, mas ocorreu numa praia, conforme relata o padre Manuel Gomes Alberto: “Aos 28 dias do mês de Agosto de 1873, num palheiro da Costa do Furadouro, da freguesia e concelho de Ovar, diocese do Porto, faleceu sem sacramentos um indivíduo do sexo masculino, por nome José Maria de Sousa Brandão, de idade 67 anos, solteiro, proprietário, natural e paroquiano desta freguesia de Santo André de Mosteirô, concelho da Feira, diocese do Porto, filho legítimo de Manuel Ferreira de Sousa Brandão, proprietário, natural do Lugar da Murtosa desta freguesia, e de D. Maria José Custódio de Sousa Campelo, natural de Carregosa, Oliveira de Azeméis, diocese de Aveiro, sem testamento e não deixou filhos.”

Não sabe o que andava José Maria a fazer nos palheiros do Furadouro mas, naqueles tempos, era costume as gentes mais abastadas de toda região, especialmente da Vila da Feira, de S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Ovar, mas também de Vale de Cambra e de outras paragens, irem a banhos para a praia do Furadouro, durante os meses mais quentes de Verão. Por vezes acontecia um acidente mortal, como tinha sido o caso do Major de Cavalaria Salvador de Carvalho Assis, de idade de 72 anos, igualmente do Lugar da Murtosa, e filho do herdeiro da Murtosa.

Na maioria dos casos, o registo de óbito não menciona as circunstâncias nem as causas que estiveram na origem do falecimento. Por vezes, lá aparece um caso mais desenvolvido, como no de Ana Maria Bento que faleceu sem sacramentos no dia 4 de Agosto de 1874, com a idade de 37 anos, solteira, jornaleira, “mas há mais de cinco anos que vivia entrevada, de cama e doida, natural desta freguesia, filha legítima de Joaquim José Bento, mineiro, e de Ana Maria, naturais desta freguesia”, segundo descreve o novo “Pároco Encomendado António Francisco da Silva”. Neste caso também não se sabe se a morte teve a ver com o surto epidémico.

1873 - 19 - José Maria Sousa Brandão 11873 - 19 - José Maria Sousa Brandão 2

As condições sanitárias, a alimentação deficiente e a subnutrição

Não foi só em Mosteirô que a crise provocou tantas vítimas. Na segunda metade dos anos de 1800 a 1900, as crises epidémicas violentas marcaram as populações, com predominância da cólera, febre-amarela (geograficamente limitada), varíola e influenza.

Na década de 1870, ocorreram, um pouco por todo o País, epidemias de tifo exantemático, varíola e disenteria. Por exemplo, em Campanhã foram assinaladas crises médias de 1873, 1876 e 1879. A distribuição mensal dos óbitos nestes anos anormais revelou um pico estivo-outonal, a incidir predominantemente em Agosto, devido ao número máximo de falecimentos de menores.

Em 1872-1873, a cidade e o termo de Braga, foram também tocados por um dos maiores surtos de varíola. Sofreram esta crise de carácter puramente epidémico cerca de 69.6% das freguesias, incluindo todas as freguesias da urbe, para as quais havia informação, computando-se duas crises maiores e doze fortes. Em 1873, já a perder de intensidade, a erupção fez vítimas nalgumas freguesias do termo de Braga. A distribuição mensal dos óbitos acusou o zénite em torno de Setembro, parecendo sacrificar principalmente os estratos mais jovens da população.

A crise de 1873 em Mosteirô seguiu o padrão encontrado em Braga, com o pico a ter início em finais de Agosto e a durar até Dezembro. E, tal como em Braga, seriam os mais jovens e as pessoas mais vulneráveis a pagar o preço das péssimas condições em que vivia a população das cidades, vilas e aldeias do País, nomeadamente a ausência de condições sanitárias, a contaminação dos poços de abastecimento de água, a alimentação muito deficiente baseada em couves e batatas e a subnutrição da generalidade das crianças.

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A saga do Herdeiro da Murtosa

O estranho percurso de uma família do lugar da Murtosa que durou desde o século XVI até ao século XX, mas que foi desaparecendo dos radares de Mosteirô na segunda metade do século XIX

Esta é a história de uma das famílias mais antigas e das mais importantes de Mosteirô, que aparece no século XVI e se esfuma no século XX. Apesar das suas raízes antigas, ao longo de todo o século XIX, foram abandonando a freguesia, as suas casas, as suas terras, deixando-as aos cuidados dos seus caseiros. Foram-se espalhando por toda região, instalaram-se em Lisboa ou foram viver para o Brasil e, provavelmente, para outros destinos remotos. É ainda na segunda metade do século XIX, que vamos encontrar nos registos da paróquia de Mosteirô possivelmente dois dos últimos descendentes ainda residentes na freguesia, aquando da morte em 1867 no Furadouro de Salvador de Carvalho Assis e em 1869 do atentado contra o irmão António Maria de Carvalho Assis.

O pai de ambos, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, tinha-se tornado o herdeiro de vastas propriedades e de bens e ainda da Capela da Murtosa, após a morte do seu pai Salvador Gomes de Carvalho. Tais propriedades estendiam-se desde o Aguincheiro, descendo pelas Presas, pela Murtosa e Proselha até Fornos, correspondendo à herança dos bens dos Gomes da Murtosa, da Casa do Ratão, como é conhecida nos dias de hoje, ou da Casa dos Coelhos, como era conhecida nos séculos XVII e XVIII.

Apesar de Manuel José ter tido doze filhos, nenhum permaneceria na freguesia após o trágico falecimento do filho Salvador, major de Cavalaria, na praia do Furadouro, e do filho António Maria no atentado junto à Ponte dos Três Arcos. Pelo que é possível apurar, o próprio Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho deixa de aparecer nos registos paroquiais, anos antes do falecimento em 1838 da mulher Maria Ignácia de Sá Varela, natural de Arrifana, mas sepultada na Igreja de Mosteirô. É possível que o herdeiro da Murtosa tenha falecido entre 1814 e 1816, uma vez que em Fevereiro de 1817 a sua mulher, Maria Ignácia Varela, já aparece como viúva no registo de nascimento de um irmão do General Sousa Brandão.

Toda a fortuna que Manuel José herdou veio através de sucessivas heranças do seu próprio pai, por uma série de circunstâncias. O seu pai, natural de Milheirós de Poiares, viria a casar na Murtosa com a neta do Capitão Manuel da Silva Grilo, originário da Maia, e de Isabel Gomes, cuja família remonta ao século XVI, sendo os seus antepassados naturais e moradores em Mosteirô.

Tratava-se de uma família de agricultores abastados da época que fizeram questão de enviar para o seminário um filho, o padre Domingos Gomes, e outro para militar, o capitão Manuel Gomes, e de casar a filha Isabel com um capitão do Exército, aquartelado na Vila da Feira, o capitão Manuel da Silva Grilo.

Os testamentos em favor de Salvador de Carvalho, o Senhor da Murtosa, vão-se sucedendo ao longo do século XVIII, como seria o caso dos de Nicolau Gomes, Maria Gomes, Susana Gomes, Bartolomeu Gomes e de sua própria mulher Florência.

1752-114 Manuel José Leite de Carvalho Coelho - filho de Salvador

O nascimento do herdeiro da Murtosa

Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho nasceu a 5 de Janeiro de 1752, filho de Salvador de Carvalho e de Florência Maria da Silva Reis, do Lugar da Murtosa, e neto pela parte paterna de António Leite Gomes e de Sebastiana de Pinho, do lugar das Presas, freguesia de Milheirós de Poiares, e pela parte materna do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira e de Josefa Teresa de Jesus e Silva Reis, do Lugar da Póvoa, freguesia de S. Salvador de Carregosa, os pais do Professo da Ordem de Cristo Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, cuja pedra tumular se encontra na sacristia da Igreja de Mosteirô.

Com pompa e circunstância, o seu baptismo ocorreria a 12 de Janeiro, segundo conta o padre Bento Gomes Brandão, cura da freguesia de Mosteirô. Teria como padrinhos altas individualidades da época, tendo sido chamado o padre pregador Frei André dos Reis, da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da Capela da Murtosa, e Dona Maria Bernarda da Silva Reis, mulher do Capitão Manuel Marques Ferreira, e tia-avó do recém-nascido e moradora na Casa dos Coelhos, em frente à capela.

Teve ainda como testemunhas gente importante da freguesia, em particular o Capitão Manuel Marques Ferreira e o conhecido padre Joaquim José Henriques que iria seis anos mais tarde escrever as Memórias Paroquiais da nossa freguesia, em 1758.

A morte dos pais de Manuel José

A morte prematura da sua mãe, Florência, dois anos depois do seu nascimento, ainda muito jovem, irá deixar um vazio doloroso que faz com que Manuel José venha a ser criado fundamentalmente pelas suas tias maternas e pelas escravas da casa.

Conta o padre Joaquim José Henriques que: “Aos 27 dias do mês de Outubro de mil setecentos e cinquenta e quatro anos faleceu da vida presente Florência Maria da Silva Reis, mulher de Salvador de Carvalho, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô com todos os sacramentos; teria de idade vinte e seis anos pouco mais ou menos, foi sepultada de tarde dentro desta igreja sem testamento. Salvador de Carvalho seu marido lhe mandou fazer os três ofícios gerais e teve acompanhamento de sete padres de tarde.” Teve acompanhamento de tarde de sete padre-nossos e três ofícios gerais, bem como de duas missas dentro da Igreja.

Quando em 18 de Agosto de 1785, o marido, morre na sua casa da Murtosa, Salvador Gomes de Carvalho, o pai de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, era um dos homens mais poderosos de Mosteirô, principal herdeiro dos bens da família Gomes. Tinha acumulado um conjunto de heranças que incluíam a Capela da Murtosa, as casas em frente da capela, e as terras que iam de Agoncida até Proselha.

As duas mais importantes famílias da Murtosa, a família de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, da Casa dos Coelhos, e a família do Capitão Estêvão Gomes Correia, da Casa da Murtosa, hoje Quinta Sousa Brandão, tinham propriedades que se estendiam do Aguincheiro e Agoncida, pelas Presas abaixo, passando pela Murtosa, e iam até Proselha e ao Fundo de Mosteirô, continuando em Fornos.

O padre Joaquim Henriques regista o falecimento do pai do seguinte modo:
“Salvador de Carvalho, viúvo, do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô comarca da Feira e bispado do Porto; faleceu da vida presente, de repente, que nem deu tempo de se sacramentar, só por se achar presente o padre Manuel Leite da freguesia de Milheirós de Poiares o absolveu e logo faleceu sem ter feito disposição alguma, teria de idade oitenta anos pouco mais ou menos. Seu filho Manuel José Leite de Carvalho Coelho ficou herdeiro com obrigações aos seus bens da alma, e faleceu aos dezoito dias do mês de Agosto de mil setecentos e oitenta e cinco anos. Teve ofício de corpo presente de 75 padre-nossos e acompanhamento da maior parte desses.”

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O casamento de Manuel José

Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho casa quatro anos depois da morte do pai e 24 anos depois da morte da mãe Florência. A cerimónia terá lugar na Igreja de Santa Maria da Arrifana no dia 19 de Fevereiro de 1789, de onde era natural a nubente Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela Figueiroa Borges. Era filha de Sebastião Alberto Pacheco Varela, de Arrifana, e de Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, de Carregosa.

Foi um casamento muito concorrido e que contou com a presença de altas individualidades da época. O padre Ignácio José Lopes de Puga, da paróquia da Arrifana, que presidiu ao evento, conta que celebrou o casamento “por ordem que tive do Júri dos Casamentos o Doutor Xavier (…) Abade de Miragaia e o escrivão António José da Cunha”.

Entre as testemunhas contavam-se não apenas os familiares e amigos de Mosteirô e Arrifana, mas igualmente gente de Ossela, de Carregosa, de Salreu e de Milheirós de Poiares, nomeadamente o capitão Francisco dos Reis Rebelo e Salvador José Ignácio.

1789 - Casamento na Arrifana2 - registo 117

Nascem doze filhos e um morre à nascença

Manuel José e Maria Ignácia iriam viver para o Lugar da Murtosa, na Casa dos Coelhos, hoje conhecida como Casa do Ratão, e ali nasceriam os seus doze filhos, um dos quais morreu à nascença.

A 29 de Dezembro de 1789, nasce Maria, a primeira filha do casal Manuel José e Maria Ignácia, que será baptizada na Capela da Murtosa, sob licença do pároco de Mosteirô, pelo padre Inácio José Lopes de Puga, da Arrifana, no dia 12 de Janeiro de 1790.

Numa cerimónia muito concorrida, com a presença de altas individualidades, realizou-se na Capela da Murtosa, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, com grande pompa, a 12 de Janeiro de 1790, o baptizado da primeira neta de Salvador de Carvalho, dono do referido templo, filha de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, do Lugar da Murtosa, e de Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, da vizinha freguesia de Arrifana.

Os padrinhos e testemunhas eram gente de peso naquele final do século XVIII, em Mosteirô e na região, e numa altura em que o Lugar da Murtosa tinha talvez alcançado o seu apogeu. Assim, o padrinho era Manuel José de Carvalho Pereira da Silva Coelho, tio-avô de Maria, natural da freguesia de Carregosa e irmão de Florência, a avó paterna da recém-nascida, e a madrinha seria Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, sua avó materna.

O facto de se tratar da primeira filha do casal e primeira neta de Salvador Gomes de Carvalho terá contribuído para que tal solenidade tivesse lugar na capela da família, à qual todos os seus ascendentes sempre estiveram muito apegados.

Além de Maria, iriam nascer mais onze filhos, tendo um morrido à nascença. Dois deles, Salvador e José Manuel, seguiriam a carreira das armas, atingindo ambos o posto de Major de Cavalaria.

1789 - Baptizado na capela, da Maria

O sogro será sepultado na Igreja de Mosteirô

Natural da Arrifana, o sogro Sebastião Alberto Pacheco Varela viria a falecer na Casa dos Coelhos, no Lugar da Murtosa, e seria sepultado na campa da família. Diz o padre Caetano José da Costa:

“Aos dezanove de Setembro de 1798, recebidos os sacramentos da Santa Igreja, faleceu da vida presente Sebastião Alberto Pacheco Varela, da freguesia da Arrifana, em casa do seu genro Manuel José de Carvalho e foi sepultado na Igreja desta freguesia com ofício e acompanhamento de quarenta padre-nossos e fez disposição verbal cuja forma não sei. Feito neste dia e assina o cura Caetano José da Costa.”

A morte da mulher em 1838, com 73 anos

Não se encontraram até agora em Mosteirô os registos do morte de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho. É possível que tenha falecido fora da terra e, por isso, torna-se impossível saber quando e onde morreu o herdeiro da Murtosa.

De qualquer modo, encontra-se registado no ano de 1838 o falecimento da sua mulher Maria Ignácia de Sá, aos 73 anos de idade. Se fosse vivo, o marido teria naquela altura atingido os 86 anos de idade. No entanto, o registo esclarece que nesse momento Maria Ignácia era viúva. No entanto, não se sabe quais os filhos que ainda estariam vivos naquele momento, uma vez que a viúva de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho deixou testamento mas o registo não diz em favor de quem foi feito.

Diz o padre João José Lopes de Oliveira que “Dona Maria Ignácia de Sá Varela, viúva do Lugar da Murtosa desta freguesia de Santo André de Mosteirô, faleceu no dia 10 de Maio de 1838, recebeu os sacramentos e foi sepultada dentro da Igreja na sepultura da Casa. Fez testamento e nele deixou 200 missas por sua alma, a 11 do dito mês e ano. Tinha de idade 73 anos.”

Pela quantidade de missas que mandou rezar antes de morrer e pelo facto de ter sepultura de sua Casa, dentro da Igreja, se pode ver o estatuto de que gozava a família de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, o herdeiro de Salvador de Carvalho e da família Gomes da Murtosa. Naquela época, as gentes abastadas tinham o privilégio de poder pagar para procurar assegurar um lugar igualmente privilegiado no “Reino dos Céus”.

1838 - 32 - Maria Inácia de Sá Varela - Viúva

Os filhos José Manuel e Salvador vão para o Exército

Entre 1810 e 1815, os filhos de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, José Manuel de Carvalho Assis Pereira e Salvador de Carvalho Assis, vão enveredar pela carreira das armas e ingressar no Exército Português.

Vão ambos atingir o posto de Major de Cavalaria. O mais velho, o Major José Manuel Carvalho Assis Pereira tinha nascido a 27 de Março de 1793, no Lugar da Murtosa, sendo mais velho dois anos que o irmão Major Salvador de Carvalho Assis, que nasceu no dia 5 de Novembro de 1795. Apesar desta pequena diferença de idades, irão ter um tempo de vida muito diferente. José Manuel faleceu com apenas 51 anos de idade, no Lugar da Murtosa, no dia 28 de Novembro de 1844, tendo sido sepultado no Adro da Igreja de Mosteirô, enquanto o irmão Salvador iria viver bastante mais, apesar de ter tido um final trágico, uma vez que morreu com 72 anos de idade ”aos quinze dias do mês de Setembro de 1867, pelas onze horas da noite, no sítio do Furadouro, da freguesia de Ovar”, segundo crónica da época, quando se encontrava a banhos na referida praia.

Não havendo pormenores sobre a carreira militar de José Manuel é, no entanto, conhecido parte do trajecto na instituição militar do seu irmão Salvador de Carvalho Assis, uma vez que irá fazer parte dos quadros do ramo de Cavalaria, no quartel de Chaves, subindo na hierarquia até atingir o posto de Major. Já com o posto de Capitão iria participar na Batalha de Ponte Ferreira, na freguesia de Campo, em Valongo, cujos combates mais violentos tiveram lugar nos dias 22 e 23 de Julho de 1832,

No final da década de 1860, Salvador de Carvalho Assis tinha regressado à terra que o viu nascer e vivia na casa dos seus antepassados em frente da Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa. Iria aparecer no Lugar da Murtosa com o posto de Major e participar em cerimónias públicas de carácter religioso, tendo sido mesmo padrinho de casamento da irmã do general Francisco Maria de Sousa Brandão, Maria Amália de Sousa Brandão Campelo.

1867 – Os netos Maria e Francisco

No dia 21 de Dezembro de 1867, é baptizada na Igreja Paroquial de Mosteirô, uma neta de Manuel José Pereira de Carvalho, a quem foi dado o nome de Maria. Conta o padre Manuel Gomes Alberto no registo de baptismo que esta menina:

“nasceu nesta freguesia às onze horas e meia da noite, de 20 do mês de Dezembro de 1867, filha primeira de nome de António Maria de Carvalho Assis, de profissão administrador da sua Casa, natural e morador nesta freguesia, e de Francisca Joaquina, solteira, assistente nesta freguesia e natural da freguesia de Fornos, concelho da Feira; neta paterna de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher D. Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, e neta materna de João da Costa Correia de Sá e de Ana Joaquina, moradores em Fornos. Tomaram por padrinho e devoção a invocação de Santo António, e foi madrinha Ana Joaquina, a avó materna da baptizada, a qual sei ser a própria. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser conferido competentemente assinei com pai da baptizada e as testemunhas que assistiram ao acto: João Ribeiro Leite de Oliveira e Manuel Francisco.”

A neta Maria do herdeiro da Murtosa, a única a nascer em Mosteirô, viria a falecer já no século XX, aos 78 anos de idade, em S. João de Ver, no dia sete de Outubro de 1946.

Quanto a Francisco, aparece pela primeira vez referenciado em Mosteirô no dia 29 de Agosto de 1869, quando participa como padrinho do baptismo de Mariana Leite de Oliveira. Diz o registo que Francisco de Assis Pereira de Carvalho, juntamente com a sua tia Mariana Augusta de Carvalho Assis, vão ser os padrinhos da filha de João Ribeiro Leite de Oliveira, lavrador, e de Rosa Margarida da Silva. A recém-nascida Mariana era neta paterna do capitão João Ribeiro Leite e de Ana Angelina de Oliveira, e neta materna de Manuel Pereira da Silva e de Ana Ferreira dos Santos.

A partir da morte trágica do filho António Maria, não aparecem mais registos relacionados com filhos ou netos de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho a viverem em Mosteirô e os que aparecem ainda na década de 1870 em cerimónias públicas encontram-se a viver em freguesias próximas como Arrifana ou Carregosa, não tendo nascido na nossa freguesia.

Tanto quanto é possível saber, os descendentes de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho foram-se dispersando por outras paragens, sem vínculo à terra, sendo possível encontrar referências a alguns deles em Arrifana, Cucujães, Carregosa, Porto, Lisboa ou Rio de Janeiro.

História Cronológica da família Gomes, da Casa dos Coelhos, da Murtosa

    24 de Julho de 1618, casamento dos avós de Mosteirô de Isabel Gomes, André Rodrigues e Maria Antónia Gomes
11 de Abril de 1627, nasce André Gomes, pai de Isabel Gomes
7 de Agosto de 1653, casamento de André Gomes com Maria Fernandes, de Cesár
12 de Dezembro de 1658, nasce Manuel Gomes, que atinge o posto de capitão
18 de Agosto de 1662, nasce Bartolomeu Gomes
18 de Fevereiro de 1666, nasce Isabel Gomes, futura mulher do capitão Manuel da Silva Grilo
15 de Março de 1669, nasce Domingos Gomes, que seria padre mais tarde
1677, é construída a Casa dos Coelhos, que sofre remodelações e aumentos ao longo dos séculos, e hoje é conhecida como Casa do Ratão
4 de Dezembro de 1678, nasce Susana Gomes
1679, é construída a mina de água entre a pedreira da Etiópia e a Fonte do Ratão, a qual irá servir para abastecer as casas e o alambique
27 de Abril de 1693, morre o patriarca da família Gomes, André Gomes, com 66 anos de idade
31 de Agosto de 1698, casamento de Isabel Gomes com o capitão Manuel da Silva Grilo, oriundo da Maia
12 de Fevereiro de 1701, nasce Josefa Teresa de Jesus e Silva, filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo
21 de Maio de 1704, nasce Salvador Gomes de Carvalho, em Milheirós de Poiares
14 de Maio de 1725, casamento da filha de Isabel Gomes e do Capitão Manuel da Silva Grilo, Josefa Teresa de Jesus e Silva com o Licenciado Constantino de Carvalho Pereira, de Carregosa
14 de Julho de 1727, nasce em Carregosa Florência Maria da Silva Carvalho Reis, filha de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
20 de Fevereiro de 1729, nasce em Carregosa Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, mais tarde Professo da Ordem de Cristo, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
7 de Março de 1735, morre o capitão Manuel Gomes, tio e padrinho de Florência, e deixa os seus bens aos irmãos e ao cunhado capitão Manuel Grilo
9 de Abril de 1735, morre Isabel Gomes, avó de Florência, deixa os seus bens ao marido Capitão Manuel da Silva Grilo
19 de Julho de 1738, morre o Capitão Manuel da Silva Grilo, avô de Florência, e faz escritura em que deixa os seus bens aos seus filhos e genro Capitão Manuel Marques Ferreira
19 de Novembro de 1738, nasce em Carregosa José Manuel da Silva Pereira, filho de Josefa Teresa de Jesus e Silva e do Licenciado Constantino de Carvalho Pereira
4 de Setembro de 1748, casamento em Mosteirô de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, de 21 anos, com Salvador Gomes de Carvalho, de 44 anos
7 de Março de 1749, morre Bartolomeu Gomes, tio de Isabel Gomes, tendo feito escritura de dote dos seus bens a Salvador Gomes de Carvalho com obrigação de casar com a sua sobrinha Florência
2 de Novembro de 1749, nasce a primeira filha, Maria, de Florência Maria da Silva Carvalho Reis e Salvador Gomes de Carvalho
5 de Janeiro de 1752, nasce o filho de Salvador Gomes de Carvalho e de Florência Maria da Silva Carvalho Reis, a quem é dado o nome de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho
3 de Dezembro de 1752, morre Susana Gomes
7 de Setembro de 1754, morre Nicolau Gomes e deixa os seus bens à sobrinha Florência
27 de Outubro de 1754, morre Florência Maria da Silva Carvalho Reis e deixa os bens ao marido Salvador de Carvalho
23 de Novembro de 1773, morre o capitão Manuel Marques Ferreira, dono da capela, deixando todos os seus bens ao sobrinho José Manuel da Silva Pereira, de Carregosa.
12 de Dezembro de 1781, morre Maria Gomes, deixando herdeiro universal Salvador de Carvalho
18 de Agosto de 1785, morre Salvador de Carvalho, deixando ao seu filho, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, todos os seus bens e a incumbência de cuidar pela sua alma, com uma missa de corpo presente e 75 padre-nossos
19 de Fevereiro de 1789, casamento do filho de Salvador, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, na Igreja da Arrifana, com Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha.
29 de Dezembro de 1789, nasce Maria a primeira filha do casal, que será baptizada na Capela da Murtosa, sob licença do pároco de Mosteirô, pelo padre Inácio José Lopes de Puga, da Arrifana, no dia 12 de Janeiro de 1790.
6 de Janeiro de 1791, nasce Francisco de Carvalho Assis, segundo filho do casal.
7 de Fevereiro de 1792, nasce Manuel, terceiro filho do casal.
26 de Março de 1793, nasce José, quarto filho do casal.
28 de Setembro de 1794, nasce Ana, quinta filha do casal.
3 de Setembro 1795, nasce Salvador de Carvalho Assis, sexto filho do casal.
3 de Julho de 1797, nasce Margarida, sétima filha do casal.
19 de Setembro de 1798, morre o sogro de Manuel José, Sebastião Alberto Pacheco Varela que será sepultado na Igreja de Mosteirô
4 de Julho de 1798, nasce o oitavo filho que morre logo após o nascimento
11 de Março de 1800, nasce Florência, nona filha.
17 de Novembro de 1801, nasce Mariana Ingrácia, décima filha
20 de Novembro de 1803, morre Florência, com apenas 3 anos.
27 de Dezembro de 1803, nasce a décima primeira filha, à qual é dado o nome de Florência
25 de Março de 1806, nasce António, décimo segundo filho
16 de Abril de 1806, morre a filha Ana, com 12 anos
1810-1815, por volta desta época, os irmãos José Manuel e Salvador vão para o Exército
15 de Fevereiro de 1814, morre o filho Francisco de Carvalho Assis, com 24 anos
10 de Maio de 1838, morre Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, mulher de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho
28 de Novembro de 1844, morre o filho José Manuel de Carvalho Assis Pereira, Major de Cavalaria, solteiro
19 de Maio de 1857, morre a filha Margarida Maximina de Sá Barbosa de Carvalho Assis, solteira
6 de Janeiro de 1858, o Major Salvador de Carvalho Assis é padrinho de casamento da irmã de Sousa Brandão, Maria Amália de Sousa Brandão Campelo
12 de Julho de 1863, morre a filha Maria José de Carvalho Assis, solteira
15 de Setembro de 1867, morre no Furadouro o filho, Major de Cavalaria, Salvador de Carvalho Assis, solteiro, sem deixar descendência.
29 de Agosto de 1869, Mariana Augusta de Carvalho Assis e Francisco Assis Pereira de Carvalho, seu sobrinho, são padrinhos de Mariana Leite de Oliveira
27 de Abril de 1869, morre com dois tiros o filho António Maria de Carvalho Assis, solteiro, deixando uma filha
1876, sete anos depois nasce no Lugar das Presas, Joaquim Carvalho Assis, mas não se conhece qualquer ligação deste ramo dos Carvalho Assis ao ramo anterior.
1946, morre em S. João de Ver a neta Maria, com 78 anos de Idade
    1961, morre em Lisboa Lucinda Machado Brandão de Andrade, última herdeira de parte dos bens da família de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, que incluíam a Quinta do Ratão, os matos do Aguincheiro e a Capela da Murtosa.

A emboscada do Sítio da Quingosta

Neto de Salvador de Carvalho, da Murtosa, foi morto com dois tiros, quando passava por um caminho estreito, na encosta junto ao moinho da ponte do Rio Laje

Homens armados prepararam, minuciosamente, com todos os pormenores, uma emboscada no sítio da quingosta, uma estrada estreita por entre os matos que sobe para o Lugar do Calvário, perto do antigo moinho da ponte, quando António Maria regressava dos trabalhos nos campos, acompanhado pelos seus criados da lavoura.

Conta o padre Manuel Gomes Alberto que “aos vinte e sete dias do mês de Abril de mil oitocentos e sessenta e nove, às sete horas da tarde no sítio da quingosta”, perto do ralo do moinho da ponte, “foi morto fulminantemente com dois tiros disparados do alto da ravina da quingosta, quando se ia recolhendo com os seus criados dos trabalhos da lavoura, António Maria de Carvalho Assis”.

António Maria tinha nascido a 25 de Março de 1806, na Casa dos Coelhos, pertencente aos seus pais no Lugar da Murtosa, frente à capela da família, e era filho de Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho e de Maria Inácia de Sá Pacheco Varela da Cunha Borges, neto paterno de Salvador de Carvalho, o senhor da Murtosa, e de Florência da Silva Reis, e neto materno de Sebastião Alberto Pacheco Varela e de Maria José da Cunha Borges, do lugar da Rua, de Santa Maria de Arrifana. Teve como padrinhos de baptismo, a sua irmã mais velha, Maria de Carvalho Assis, e o padre Manuel Gomes Leite, ambos do Lugar da Murtosa.

Conta igualmente o padre Manuel Gomes Alberto que António Maria era filho de “pessoas distintas em Nobreza, e não fez testamento, tendo deixado uma filha, a qual reconheceu como tal”, tendo ficado sepultado no cemitério público de Mosteirô.

Um solteirão com mau feitio

Solteirão, António Maria, de 61 anos de idade, assediava frequentemente as criadas e empregadas da casa e dos lugares vizinhos da Murtosa, prometendo casamento com uma ou com outra, coisa que nunca viria a acontecer. Acontecia, por vezes, que tal assédio acabava em gravidez da mulher ou da rapariga, que ele sempre evitava em reconhecer e pagava para abafar o assunto. Às vezes pagava aos familiares para irem fazer o registo de nascimento a outras freguesias, não mencionando o nome do pai.

António Maria de Carvalho Assis, um dos homens mais ricos do Lugar da Murtosa e um dos herdeiros das terras da Quinta do Ratão, era conhecido pelo seu mau feitio, e tinha evitado até ao último momento reconhecer a sua única filha, Maria Joaquina Correia de Sá. Já anteriormente tinha havido um caso semelhante em que António terá ficado por reconhecer um outro filho seu, coisa que nunca veio a acontecer.

Oriundo de uma das famílias mais ricas e conceituadas da época, do Lugar da Murtosa, António Maria de Carvalho Assis sempre se achou intocável e que a fortuna que herdou o colocava num patamar superior e seria o suficiente para pagar todos os seus desmandos.

O nascimento de Maria, a única filha que reconheceu

A filha e bisneta de Salvador de Carvalho, Maria Joaquina Correia de Sá, nasceu em Mosteirô, no dia 20 de Dezembro de 1867. Foi baptizada no dia seguinte pelo padre Manuel Gomes Alberto como Maria, filha natural de António Maria de Carvalho Assis, administrador, natural e residente na freguesia, e de “Francisca Joaquina, solteira, assistente nesta freguesia, e natural da freguesia de Fornos, neta paterna de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher D. Maria Inácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, e neta materna de João da Costa Correia de Sá e de sua mulher Ana Joaquina, moradores em Fornos”, conta o pároco de Mosteirô, “tendo por padrinho a devoção e invocação de Santo António e por madrinha Ana Joaquina, a avó materna”.

Tratando-se de uma família de carácter tradicionalista, donos da Capela da Murtosa, familiares do Professo da Ordem de Cristo, Manuel José de Carvalho Pereira Grilo, cujo brasão se encontra incrustado na Casa do Ratão e na lápide existente na sacristia da Igreja paroquial de Mosteirô, a circunstância de ter de registar uma filha, nascida fora de uma relação tradicional, constituiria um acontecimento com carácter de escândalo. A família de António Maria de Carvalho Assis era muito conhecida e encontrava-se espalhada por toda região, desde Mosteirô a Carregosa, Milheirós de Poiares, Arrifana e S. João de Ver.

Em consequência, os familiares aconselharam-no a tirar a filha dos cuidados da mãe e a levá-la para S. João de Ver para ser criada por pessoas das suas relações, freguesia onde Maria Joaquina Correia de Sá viria a falecer no dia 7 de Outubro de 1942, não se conhecendo o seu percurso e a sua vida, entre o nascimento e a morte.

Quingosta

O Sítio da Quingosta

A quingosta, também designada de congosta, é um termo usado para descrever uma ruazinha estreita, uma azinhaga ou caminho entre muros (Camilo Castelo Branco), normalmente entre matas de encostas escarpadas, talhado por entre matos, ficando muitas das vezes uns dois metros abaixo do nível do mato.

Neste caso em apreço, tratar-se-ia de um troço da Via Antiga de Mosteirô, que passava pela Ponte dos Três Arcos e tinha continuação por Fornos acima até ao Castelo da Feira, trajecto que encurtava a distância entre Mosteirô e a Vila da Feira.

O ralo do moinho encontrava-se no fim do canal de água, construído em pedra, que captava a água mais acima no Rio Laje e a encaminhava até ao moinho existente antes da ponte, que se encontra na divisa de freguesias, do lado de Fornos.

Esta quingosta, o caminho entre os muros em pedra que escoravam as terras um pouco mais altas, era um sítio que permitia a qualquer pessoa se esconder por entre os fêtos, o tojo e as giestas, especialmente ao anoitecer.

Francisca Joaquina, a mãe de Maria

Francisca Joaquina, tinha 26 anos quando foi mãe de Maria. Assistente em Mosteirô, Francisca nasceu no Lugar do Carvalheiro, em Fornos, no dia 3 de Dezembro de 1840, filha de João da Costa Correia de Sá e de Ana Joaquina, ambos naturais dessa freguesia.

Diz o cura de Fornos, abade Carlos Alberto Peixoto de Lima, que Francisca era “neta paterna de Alexandre da Costa e de sua mulher Quitéria Maria Leite, do dito lugar do Carvalheiro, e neta materna de Manuel da Silva Gesteira e de sua mulher Ana de Sá Correia, do lugar de Cabomonte da freguesia de Souto. Foram padrinhos Francisco Correia, do lugar da Quintã de Cima e Francisca, filha de Manuel Ferreira Lima, do lugar da Quintã de Baixo.”

Francisca Joaquina continuou a viver em Mosteirô e já com trinta e nove anos de idade iria ter mais dois filhos, de que não são conhecidos os pais. Um deles, José, faleceu prematuramente após o parto, sobrevivendo a irmã Ana Joaquina. Nasceram pelas quatro horas da tarde do dia 20 de Abril de 1880 e seriam baptizados a 22 do mesmo mês pelo padre António Caetano da Silva, o qual regista que a mãe, solteira, era governanta de sua casa e vivia do Lugar de Mosteirô.

Os motivos do atentado

Especulou-se que o motivo do assassinato teria a ver com assédio que António Maria terá feito a Francisca Joaquina e a outras criadas do lugar e da freguesia. Mas a história que seria contada mais tarde tinha a ver com o facto de ele não ter querido casar com Francisca, apesar de o ter prometido, e que os familiares desta não terão apreciado de modo algum tal situação, pressionando-o para respeitar a promessa, o que nunca chegou a acontecer.

A emboscada terá sido bem preparada e os agressores colocaram-se de imediato em fuga pelos matos adentro. No momento do atentado, assustados, os criados de António Maria ficaram totalmente sem reacção alguma e não conseguiram identificar os executores deste atentado, repetindo mais tarde ao chegar ao lugar da Murtosa o que já tinham afirmado ao regedor, que eles se encontravam encapuzados, escondidos no meio da vegetação, e que já estava a ficar de noite, havendo pouca visibilidade na quingosta. Havia versões contraditórias sobre o número de agressores e quantos tiros terão disparado. No entanto, diziam que os tiros só terão terminado quando António Maria de Carvalho Assis caiu inanimado.

Nessa altura, um dos criados foi enviado a correr ao lugar de Mosteirô, não muito longe dali, para chamar o regedor da freguesia, Manuel Valente, para tomar conta da ocorrência e decidir sobre o destino a dar ao corpo de António Maria, um pouco desfigurado, uma vez que tinha sido baleado na cabeça e no peito.

Naturalmente, este foi um daqueles casos mais badalados da época e motivo de especulação que duraria por vários meses, tanto mais que se tratava de uma das famílias mais conhecidas em toda a região, tanto no concelho da Vila da Feira como no de Ovar, e especialmente no de Oliveira de Azeméis, onde moravam irmãos, primos, tios e outros familiares de António Maria de Carvalho Assis.

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O abominável crime de Agoncida

Nascida no dia de Natal, Maria foi vítima de um crime horroroso, segundo o testemunho do padre da freguesia, que alvoraçou toda e região

Ana Maria da Silva entregou 40 reis à filha Maria Pereira, com cerca de 6 anos de idade, e disse-lhe para ir comprar uma garrafa de azeite à loja dos Quatro Caminhos, conhecida como Loja do Vinagre. Da sua casa, não muito longe das pedreiras de Agoncida, até ao local onde se encontrava a dita loja eram pouco menos de 200 metros.

Os Quatro Caminhos situavam-se num antigo cruzamento entre o caminho que descia de Cucujães e seguia até Souto e o caminho que subia desde a Igreja de Mosteirô e tinha continuação até São Lourenço. Naquela época tratava-se de caminhos em pedra calcária por onde passavam os carros de bois e as pessoas que se deslocavam entre as várias localidades, ladeados por alguns campos mas sobretudo pelas florestas de pinheiros, eucaliptos, mimoseiras, carvalhos e sobreiros, com tojo, fêtos e giestas à mistura.

Estávamos em pleno Inverno de 1857, ao início da noite, com chuva miúda e uma neblina que deixava pouca visibilidade, e a menina ia seguindo, medrosa, até que apareceu, vindo na mesma direcção, o António Coelho que ela conhecia e que morava acima das pedreiras de Agoncida, num sítio conhecido como Jardim.

O António tinha 13 anos de idade e trabalhava como ajudante de pedreiro num estaleiro de canteiros no Lugar do Monte. Tinha nascido no dia 20 de Outubro de 1744 e era filho de Joaquim Coelho Pereira e de Ana Maria Angélica, do Lugar de Agoncida, e neto paterno de José Coelho Pereira e de Maria da Silva e neto materno de Bento José da Silva e de Maria Custódia Angélica.

Uma ajuda fatídica

O rapaz, já espigadote, ofereceu-se para a ajudar e a criança, inocente, entregou-lhe a garrafa do azeite, dizendo que tinha dinheiro para pagar. A chegar perto dos Quatro Caminhos, ele pediu-lhe o dinheiro mas a menina resistiu em dar-lho, começando a chorar. António agarrou-a por um braço, atirou-a ao chão e tirou-lhe o dinheiro. Maria bateu com a cabeça numa pedra do caminho, ficando a sangrar e começou a gritar mais alto. Com a força dos seus 13 anos, António agarrou-a pelo pescoço, sufocando-a.

Com receio que aparecesse alguém, António agarrou na menina inerte e desatou a correr por um caminho dos matos que seguia na direcção de Souto. Foi andando, sempre a correr, até que chegou a uma mina nos matos do comendador Inácio José Monteiro. Constatando que Maria não dava sinais de vida, António julgou que a melhor maneira de apagar o seu crime seria esconder o corpo num local em que ninguém o encontrasse.

Segundo o testemunho do padre Manuel Gomes Alberto, cura de Mosteirô, Maria “foi levada à força e precipitada e morta em um óculo, de uma mina, da altura de 100 palmos (cerca de 20 metros) que é de Inácio José Monteiro, do lugar do Ferral, em Souto.” O pároco da nossa freguesia classificaria este caso como “um horroroso acontecimento.

A demora de Maria sobressalta a mãe

Com a ausência da filha que não aparecia, já se fazendo tarde, a mãe Ana Maria da Silva, entrou em sobressalto e pôs-se a caminho da loja do Vinagre à procura da menina, perguntando aos vizinhos e a quem passava se a tinham visto. Quando chegou à Loja, que se situava no caminho na direcção de São Lourenço, ficou estarrecida ao saber pela boca do próprio Vinagre que Maria não tinha sequer chegado ao estabelecimento. Encostado ao balcão, encontrava-se o Francisco Penteado que disse parecer-lhe tê-la visto na companhia de um rapaz, mas que no escuro não conseguiu aperceber-se de quem se tratava.

Ana Maria desatou numa gritaria que atraiu várias pessoas que passavam pelo lugar, junto ao estabelecimento dos Quatro Caminhos, especialmente as outras mulheres do sítio.

Fazendo-se tarde e sem notícias da menina, o dono do estabelecimento, Joaquim Vinagre, propôs que se fosse chamar o Regedor da freguesia, Manuel Valente, única pessoa com competência para tomar qualquer decisão. Quando chegou ao local, o regedor achou por bem formar um grupo que fosse perguntar nas vizinhanças se alguém sabia de alguma coisa relacionada com o caso e procurar nos caminhos dos matos à volta, entre os Quatro Caminhos e a casa de Ana Maria da Silva. Manuel Valente recomendou para que as mulheres da casa ficassem com a mãe da menina, para a acalmar, até que se encontrasse a filha.

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O testemunho de José Francisco

Ao fim de algum tempo, perguntando a uns e a outros, encontraram o José Francisco, do Lugar do Monte, que disse ter visto a menina, ao longe, com o António, filho do Joaquim Coelho Pereira, indo ambos na direcção dos Quatro Caminhos.

Nessa altura, Manuel Valente, o regedor, decidiu ir com o José Francisco a casa do Joaquim Coelho Pereira para ver se encontravam o filho deste, para procurar saber do paradeiro da menina. Lá chegados, foi-lhes dito que estavam à espera dele e que também se encontravam preocupados com a demora, por ser já bastante tarde.

Tendo parado completamente de chover e a neblina tendo-se levantado, apesar do adiantado da hora, Manuel Valente pediu voluntários para formar dois grupos para fazer uma batida pelos matos dentro, dos dois lados do caminho, tendo o pai do António Coelho se oferecido para participar as buscas.

Já muito tarde, noite dentro, o filho mais velho de Joaquim Coelho Pereira, Manuel Coelho, apareceu junto do grupo comandado pelo regedor, dizendo que o irmão António, já tinha aparecido em casa e que se encontrava muito alterado, sem dizer coisa com coisa. De imediato, todos se juntaram e seguiram para casa de Joaquim Coelho Pereira, no sítio do Jardim. Lá chegados, depararam-se com o jovem António, todo sujo, enlameado, descobrindo-se que tinha vestígios de sangue.

O interrogatório de António Coelho Pereira

O regedor mandou afastar toda a gente e chamou o pai e o rapaz à parte, e foram para a casa da eira interrogar o António. Naquele tempo, no essencial, os regedores garantiam a boa aplicação das leis e dos regulamentos administrativos e exerciam a autoridade policial no território da freguesia. Apertado pelo pai, o António acabou por dizer que tinha havido um acidente e que a menina tropeçou, caiu e bateu com a cabeça numa pedra do caminho.

A história do rapaz estava muito mal contada e, depois de uns açoites dados pelo pai que perguntava onde estava a menina, o rapaz confessaria o crime. Manuel Valente, o regedor, quis saber para onde tinha ele levado o corpo, uma vez que já tinham percorrido os caminhos dos matos à volta dos Quatro Caminhos e não tinham encontrado vestígios. Apertado novamente pelo pai, que dizia consternado – Isto é uma vergonha e uma infâmia para toda a nossa família! – o António acabou por confessar que a tinha levado para os matos de Inácio José Monteiro.

Com fortes ligações a Arrifana e Mosteirô, mais tarde elevado à categoria de comendador, Inácio Monteiro era um proprietário abastado, solteiro, cujas terras se estendiam desde a Agoncida junto aos Quatro Caminhos por Souto abaixo até ao lugar do Ferral, dessa freguesia. O Comendador Inácio José Monteiro, quando nasceu em 30 de Outubro de 1809, no lugar do Ferral, seria baptizado pelo Cura de Mosteirô, o padre José Leite de Oliveira, natural de Arrifana, tendo padrinhos o abade de Santa Maria de Arrifana, reverendo Manuel Domingos de Andrade e Bernardina Rosa de Jesus, mulher de Manuel Lopes dos Santos, do Lugar de Agoncida.

O Regedor leva o rapaz para a prisão da Vila da Feira

Apesar do adiantado da noite, o regedor decidiu ir com o rapaz e com o pai dele, mas sem a companhia dos outros elementos que o tinham acompanhado até à casa de Joaquim Coelho Pereira, verificar o local onde se encontrava o corpo da menina. Desceram os três até aos Quatro Caminhos e embrenharam-se por um carreiro no mato pertencente a Inácio Monteiro até à boca da mina de água.

Aí chegados, e constatando que, com aquela escuridão, seria impossível aceder a um poço de 20 metros e ver o corpo da menina, Manuel Valente tomou uma decisão de ir a pé, com o pai e o filho, pelo caminho das Carregueiras até à prisão da Vila da Feira para mandar encarcerar o rapaz, provisoriamente, enquanto o Administrador do Concelho não tomasse conta da ocorrência, o que só aconteceria já no dia seguinte.

De regresso a Mosteirô, alta madrugada dentro e sem dormir, o regedor mandou Joaquim Coelho Pereira avisar o Francisco Penteado, o José Francisco e o próprio Joaquim Vinagre para se encontrarem todos na Loja deste, antes do amanhecer, e para levarem cordas e um balde grande para fazerem subir o corpo da menina, caso o encontrassem.

À hora marcada dirigiram-se os cinco à mina de Inácio José Monteiro montando um sistema de roldana que permitisse fazer descer um dos homens, tarefa que calhou ao mais levezinho, o José Francisco. Este desceu, enrolado na corda, até atingir a água da mina e procurou às apalpadelas o corpo da menina. Quando o encontrou, pediu para fazerem descer o balde, tendo depositado o corpo de Maria, que seria subido primeiro e, depois, foi a vez de fazer subir próprio José Francisco, com a ajuda dos homens que puxavam as cordas.

1851 - Maria - nascimento 2

A menina Maria tinha nascido no dia 25 de Dezembro de 1851, há precisamente 168 anos, e era filha de Manuel Pereira e de Ana Maria da Silva. Era neta paterna de Ana Maria Galante e neta materna de João Pereira e de Ana Maria, do lugar de Agoncida. Foi baptizada na Igreja de Mosteirô pelo padre Manuel Gomes Alberto, tendo como padrinhos os seus tios José Pereira e Maria Pereira, e como testemunhas António Rodrigues e António José dos Santos, todos do Lugar de Agoncida.

O horror e a consternação

Quando a notícia se espalhou, o horror e a consternação geral tiveram um impacto imediato que ultrapassou largamente as fronteiras da freguesia, sendo um dos casos mais badalados da época, desde Souto a S. Vicente Pereira e Fornos e mesmo na Vila da Feira e Cucujães. Entretanto, o Regedor mandou um homem avisar Inácio José Monteiro do sucedido, o dono dos matos, uma vez que o corpo da menina tinha sido encontrado nas suas terras.

Os trâmites legais implicavam a presença do Administrador do Concelho, que tinha também sido avisado pelo Regedor de Mosteirô, o qual compareceu no local em que tinha sido encontrado o corpo de Maria, tendo mandado lavrar os respectivos Autos Judiciais, os quais iriam servir para levar a julgamento o rapaz e entregar o corpo da menina à família para se proceder ao seu sepultamento.

O funeral de Maria contou com a presença de um infindável número de curiosos vindos de todas as redondezas, que passaram a contar as mais estranhas histórias acerca deste abominável crime.

1809 - Comendador Inácio José Monteiro1844 - 27 - António, o assassino 2

É triste ser pobre e morrer em Dezembro

Durante séculos, os muito pobres, enjeitados, menores de idade e anjinhos recém-nascidos, normalmente não tinham ofícios de Corpo presente, na hora de irem para a sepultura

Foi no último mês do ano, o Inverno chegava e já não faltava muito para chegar ao Natal, no ano de 1852, quando Francisco António, do Lugar do Monte, de cerca de sessenta anos de idade, faleceu e foi sepultado na Igreja de Santo André de Mosteirô. Por ser muito pobre, não teve acesso a qualquer ofício religioso, segundo conta o pároco da época, o padre Manuel Gomes Alberto, o que era natural naqueles tempos em que as pessoas muito pobres não tinham possibilidades de pagar os ofícios religiosos. Francisco António tinha nascido a 4 de Outubro de 1793, filho de Manuel Dias da Fonseca e Maria dos Santos. Não se sabe grande coisa sobre as circunstâncias da sua morte, uma vez que o registo do seu falecimento é parco em informações.

Este procedimento era habitual por parte do clérigo. Meses antes, o mesmo tinha acontecido com Manuel Gomes, que vivia em casa do Capitão João Ribeiro Leite, no Lugar da Murtosa, e que veio a falecer com sessenta anos de idade no dia 5 de Setembro de 1852, sendo sepultado na Igreja de Mosteirô depois de ter recebido os sacramentos da penitência. Conta o pároco Manuel Gomes Alberto que o mesmo Manuel Gomes “não teve ofício algum por ser pobre” e que, pela mesma razão, não terá feito testamento.

Durante toda década de 1850 são inúmeros os casos em que os falecidos muito pobres não tinham ofícios religiosos devido às suas reduzidas possibilidades económicas ou dos seus familiares. Os registos relativos a esta década revelam que cerca de metade eram muito pobres, enjeitados, menores de idade e anjinhos recém-nascidos, que normalmente não tinham missas de Corpo presente. Da outra metade, uma grande parte teve acesso a um ofício de Corpo presente, enquanto os restantes tiveram possibilidades de pagar várias missas ao longo dos anos seguintes.

Já em 1854, segundo conta o padre da época, seria a vez de “Joana Maria, viúva, do Lugar do Monte, desta freguesia de Mosteirô, que faleceu da vida presente no dia treze de Maio de 1854 e teria de idade 55 anos, pouco mais ou menos, e não teve ofício algum por ser pobre.” Era viúva de Manuel Pereira e filha de Joaquim Ferreira e de Maria Teresa, todos do Lugar do Monte.

No mesmo ano, também por ser pobre, não teria ofício algum “José Francisco das Almas, do Lugar de Proselha desta freguesia de Santo André de Mosteirô, que faleceu da vida presente sem sacramentos, no Lugar de Abolembra, de S. Martinho da Gândara, no dia três de Setembro de mil oitocentos e cinquenta e quatro”. Os familiares foram buscar o corpo do falecido à referida freguesia, vindo a ser sepultado na Igreja de Mosteirô.

Em 1855, por  caridade, o padre Manuel Gomes Alberto abriria uma excepção. Tal foi o caso de “Teresa de Jesus, viúva, por apelido a Viana, assistente no Lugar do Monte, desta freguesia de Santo André de Mosteirô, que faleceu da vida presente com todos os sacramentos no dia trinta e um de Maio de mil oitocentos e cinquenta e cinco, tendo de idade mais de oitenta anos, sendo sepultada no adro da Igreja.” Apesar de ser pobre, “eu disse-lhe uma missa de Corpo presente, por caridade”, acrescenta o pároco de Mosteirô.

Tal não seria o caso, porém, de João Pereira, o Válega, solteiro, de quarenta anos, do Lugar e da Freguesia de Santo André de Mosteirô, o qual não veio a ter a mesma sorte de Teresa de Jesus e que falecera “com todos os sacramentos, no dia catorze de Fevereiro de mil oitocentos e cinquenta e cinco e foi sepultado no Adro da Igreja.” Mas, mais uma vez, “não teve sufrágios alguns por ser muito pobre”, acrescenta o padre Manuel Gomes Alberto.

1857 - 130 - D. Margarida Carvalho Assis

Ser rico é uma vantagem: o caso de Margarida Carvalho Assis

Esta era uma prática comum em Mosteirô ao longo dos séculos. Quem era rico abastado, eclesiástico ou ligado ao poder sempre tinha direito a ser tratado de forma diferente, tanto devido ao seu estatuto social como devido aos bens que possuía e que lhe permitiam “comprar” os favores dos padres da época. Foi esse o caso de Margarida de Carvalho Assis, filha de um dos homens mais ricos do Lugar da Murtosa, Manuel José Leite Pereira de Carvalho da Silva Coelho, e neta de Salvador de Carvalho, o senhor da Murtosa, dono da Capela de Nossa Senhora do Carmo, da Casa dos Coelhos, hoje Casa do Ratão, e das terras que iam desde o Aguincheiro até Proselha.

Conta o Padre Manuel Gomes Alberto que celebrou um Primeiro ofício de 16 padre-nossos e mais dois Ofícios de 9 padre-nossos. O registo de falecimento é o documento bastante elucidativo e muito mais desenvolvido do que os registos dos restantes aqui referenciados. Diz então o pároco de Mosteirô:

“Dona Margarida Maximina de Sá Barbosa de Carvalho Assis, desta freguesia de Santo André de Mosteirô, faleceu da vida presente de idade de sessenta anos, no dia 19 do mês de Maio de mil oitocentos e cinquenta e sete, e não recebeu os Sacramentos por morrer de um ataque apoplético, quase de repente. Fez Testamento e deixou por sua Alma, e de seus Pais e Irmãos Francisco e José, quinhentas Missas, e uma de Legado perpétuo, mandada dizer pela Confraria do Santíssimo desta freguesia, a qual deixou seis alqueires de milho, de legado para sempre impostos numa propriedade sita no Lugar das Presas desta freguesia. E para constar, fiz este assento.”

Margarida tinha nascido, no Lugar da Murtosa, no dia três de Julho de 1797, e era filha do referido Manuel Pereira de Carvalho e de Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha. Era neta paterna do Senhor da Murtosa, Salvador de Carvalho, e de Florência da Silva Reis (neta do Capitão Manuel da Silva Grilo) e neta materna de Sebastião Alberto Pacheco Varela e de Maria José de Sá Mascarenhas Figueiroa Borges, da freguesia de Arrifana.

Não é difícil concluir que, ao longo dos séculos, na hora da sua morte, os muito pobres, os deserdados da terra, não tinham acesso aos trâmites oficiosos que a Igreja concedia aos outros, bem mais poderosos, e que podiam pagar o preço.

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O major Salvador morre no Furadouro

Foi no fim do Verão de 1867 que, com enorme estupefacção, se soube em Mosteirô que o Major de Cavalaria Salvador de Carvalho, do Lugar da Murtosa, tinha morrido na praia do Furadouro

A notícia correu rapidamente por toda a freguesia, quando foi anunciado que o Major de Cavalaria Salvador Carvalho de Assis, um dos donos da Capela da Murtosa, tinha morrido na Praia do Furadouro, onde se encontrava a banhos, no final do Verão de 1867, quando os dias ainda são quentes, na transição para o Outono.

Conta o pároco da freguesia, Manuel Gomes Alberto, que ”aos quinze dias do mês de Setembro de 1867, pelas onze horas da noite, no sítio do Furadouro, da freguesia de Ovar, bispado do Porto, faleceu sem sacramentos, onde estava a tomar banhos, um indivíduo do sexo masculino por nome Salvador Carvalho de Assis, de idade de setenta e dois anos.”

E o padre Manuel Alberto conta ainda que Salvador Carvalho de Assis era “natural desta freguesia, morador no Lugar da Murtosa, de profissão Major reformado de Cavalaria, filho legítimo de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de Dona Maria Inácia Pacheco Varela, natural da freguesia de Arrifana, de profissão e de Nobreza, o qual fez testamento, não deixou filhos, e foi sepultado no cemitério público, e para constar lavrei em duplicado este assento.”

Ferido em combate em Valongo

Muitos anos antes da sua morte, Salvador Carvalho de Assis deixa Mosteirô, para seguir a carreira militar, e terá ingressado no Exército por volta de 1810, uma vez que em meados de 1809 ainda permanecia no Lugar da Murtosa, tendo sido testemunha do baptizado de Tomé, filho de Manuel Dias Valente e de Ana Maria Teresa, nascido no dia 15 de Maio de 1809, neto paterno de Manuel Gonçalves Valente e de Teresa Dias e neto materno de José Rodrigues e de Maria Teresa, gente bem conhecida da freguesia naquela época.

No seu trajecto na instituição militar, Salvador irá fazer parte dos quadros do ramo de Cavalaria, no quartel de Chaves, subindo na hierarquia até atingir o posto de Major. Já com o posto de Capitão irá participar na Batalha de Ponte Ferreira, na freguesia de Campo, em Valongo, cujos combates mais violentos tiveram lugar nos dias 22 e 23 de Julho de 1832, e deixaram um rasto de centenas de mortos, feridos e desaparecidos, segundo os cronistas da época.

1832 - Capitão Salvador de Carvalho ferido na batalha de Valongo - Ponte Ferreira

Como se sabe, a guerra entre liberais e absolutistas foi travada entre 1832 e 1834, depois de o príncipe Miguel ter renegado o juramento que tinha feito de respeitar e cumprir a Carta Constitucional de 1826. A região do Porto seria uma das que mais sofreu com a guerra entre liberais e absolutistas, com a cidade capital do Norte a desempenhar um papel fundamental na luta pela liberdade.

Conta um dos cronistas que, na Batalha da Ponte Ferreira, “o sangue fratricida tingiu as calmas águas do Ferreira que, indiferentes, procuravam caminho entre os corpos que, no seu leito, se amontoavam. Os combates só iriam terminar na noite de 23 de Julho”.

Salvador Carvalho de Assis ficou ferido nos combates de Valongo, juntamente com outros oficiais de Cavalaria de Chaves. Não se conhece a trajectória seguinte de Salvador de Carvalho, mas sabe-se que sobreviveu aos ferimentos e atingiu o posto de Major de Cavalaria. Sabe-se igualmente que regressava amiúdo à terra Natal, visitava os familiares e amigos do Lugar da Murtosa, participando por vezes em cerimónias públicas religiosas da época na Igreja de Mosteirô.

Testemunha do casamento da irmã de Sousa Brandão

Foi durante a década de 1850 que Salvador de Carvalho Assis regressa de vez à terra que o viu nascer e passa a viver na casa dos seus antepassados em frente da Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Murtosa, a Casa dos Coelhos, hoje mais conhecida como Casa do Ratão, e participa em diversos eventos públicos da época, para os quais era convidado.

Capela e Ratão

Tal foi o caso do casamento de uma irmã do general Sousa Brandão. De regresso definitivo a Mosteirô, já como Major Salvador Carvalho de Assis, aos 63 anos de idade, irá apadrinhar o casamento de Maria Amália.

Conta o pároco Joaquim Gomes Alberto que no dia 6 de Janeiro de 1858, na sua presença, “e das testemunhas, o Major Salvador de Carvalho Assis e o Capitão João Ribeiro Leite do lugar da Murtosa desta mesma freguesia, por palavras de presente em face da Igreja;” 

“Se receberam António Nunes Alves, filho legítimo de José Nunes Alves e de Teresa Simões Nogueira, da freguesia de Nossa Senhora das Neves da vila de Angeja, neto paterno de António Alves Picado e de Maria Nunes Marques; e materno de José Simões Amaral e de Teresa Nogueira, todos desta freguesia.” 

“Com Dona Maria Amália de Sousa Brandão Campelo, filha legítima de Manuel Ferreira de Sousa Brandão e de Dona Maria José Custódia de Sousa Campelo, do Lugar da Murtosa da freguesia de Santo André de Mosteirô, neta paterna de Domingos Ferreira Brandão e de Dona Ana Maria Correia de Sousa, da mesma freguesia e bispado do Porto, e neta materna do capitão Carlos José de Pinho e Sousa e de Dona Luísa Bernarda de Almeida Campelo, da Ínsua da freguesia de Carregosa, bispado de Aveiro, e receberam as bênçãos no dia sete do dito mês e ano, conforme os ritos da Santa Madre Igreja.”

Naquela época, os nomes nem sempre se apresentavam da mesma forma, dependendo muito de quem fazia o registo, neste caso do padre da freguesia. Enquanto o nome próprio permanecia quase sempre ao longo da vida, já os apelidos iam variando, consoante se escolhiam os do pai, os da mãe ou os de ambos.

O nascimento do neto do Senhor da Murtosa

Sendo o quarto filho-homem da família a nascer foi, desde logo, decidido dar-lhe o nome do avô paterno, falecido dez anos antes, em homenagem ao senhor da Murtosa e dono da Capela da Senhora do Carmo. Assim, Salvador Carvalho de Assis, nasce no dia 5 de Novembro de 1795, segundo conta o padre Caetano José da Costa, e foi baptizado no dia oito do mesmo mês.

Era “filho legítimo de Manuel José Leite Pereira de Carvalho e de sua mulher Dona Maria Ignácia de Sá Pacheco Varela da Cunha, do Lugar da Murtosa desta freguesia”. Diz o padre Caetano que o recém-nascido era “neto paterno de Salvador de Carvalho e de sua mulher Dona Florência da Silva Reis, do dito lugar”. E era neto materno de “Sebastião Alberto Pacheco Varela, da Vila de Arrifana, e de sua mulher Dona Maria de Sá Mascarenhas. Foram padrinhos o seu avô materno e madrinha devota Senhora das Dores. Testemunhas o Reverendo José Leite de Oliveira e Domingos, solteiro, familiar da Casa, do dito lugar”.

O nascimento de Salvador Carvalho de Assis foi um acontecimento celebrado por toda a família na época, pelo que foi decidido, desde logo, dar-lhe o nome do avô paterno.

A sua morte, porém, estaria envolta em tragédia, ao morrer na Praia do Furadouro, onde se encontrava a banhos, não deixando descendentes.

Nascimento e morte do irmão José Manuel

1793 - 14 - José, nascimento1793 - 15 - José, nascimento

Vinte e dois anos antes da morte de Salvador, tinha falecido o seu irmão mais velho dois anos, José Manuel Assis de Carvalho Pereira, Major de Cavalaria, que tinha sido quem o incentivou a seguir a carreira das armas e a ingressar no Exército.

José Manuel faleceu com apenas 51 anos de idade, no dia 28 de Novembro de 1844, tendo sido sepultado no Adro da Igreja de Mosteirô. Não fez testamento, pelo que não se sabe quem nomeou como herdeiros dos seus bens patrimoniais existentes no Lugar da Murtosa.

O Major José Manuel Assis de Carvalho tinha nascido a 27 de Março de 1793, no Lugar da Murtosa, e o seu baptizado, presidido pelo cura Caetano José da Costa, foi uma ocasião festiva em que acorreram numerosos familiares, não apenas de Mosteirô, mas também de Arrifana, de Souto e de Carregosa. Teria como padrinhos, o seu tio-avô Manuel José de Carvalho Perira da Silva Coelho, que veio expressamente de Carregosa, e madrinha Quitéria Joaquina Rosa Felizarda de Azevedo, casada, do Lugar de Macieira, em Souto. Como testemunhas do baptismo aparecem o Doutor Fernando José Marques Soares, da freguesia de Arrifana, e Manuel José de Oliveira Dias, da freguesia de Mosteirô.

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